Mais do que Eu Possa Me Reconhecer

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“Darel não gosta de fazer cinema!”. Assim está na sinopse de Mais do que Eu Possa Me Reconhecer, do carioca Allan Ribeiro (Esse Amor que Nos Consome). Curiosamente, e felizmente, os vídeos caseiros do pintor Darel Valença Lins estão lá, mesclados às imagens captadas pelo diretor. Sem eles, o documentário não seria o mesmo.

Durante os quatro dias que Allan filmou na casa do artista – onde o filme se passa quase inteiramente, – eles deixam escapar uma cumplicidade que normalmente é pouco explorada entre documentaristas e documentados. Darel faz questão de conversar com Allan sobre o filme, sobre as diferenças entre as câmeras dos dois, sobre o processo de edição e o que fazer com o material final, talvez excitado pela presença de outra pessoa em um ambiente que costuma lhe levar à solidão, que ele diz ser o tema de seus vídeos. Em dado momento, o pintor pergunta “Tem festival pra isso?”, ao que o diretor responde: “Festival é o que não falta. Todo mês tem um”, o que provocou risadas no público que assistiu à estreia do filme na Mostra de Tiradentes.

Aos 85 anos, Darel é mais conhecido no meio acadêmico do que pelo público, o que torna a forma quase rústica com que Allan conduz a abordagem a sua obra uma escolha arriscada, mas muito mais instigante do que seria o tratamento tradicional.

O diretor nos apresenta à vasta coleção de quadros, gravuras e desenhos inacabados do artista sem se preocupar com seus métodos de trabalho, materiais ou inspirações, o que seria de se esperar de um documentário sobre um pintor. Mas a pintura é apenas uma das várias camadas de Darel, que se recusa a pintar para a câmera a menos que esteja realmente inspirado, e Allan usa isso a seu favor.

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Dividido em cenas, o documentário ganha ares de ficção pela impressionante montagem de Will Domingos. Ele mesmo, Darel, é um personagem, cheio de máscaras, ainda que não faça propositalmente. Charme, ele tem: mistura palavrões com o erudito, se compara a Bill Viola, rei da videoarte, e Paul Newman, discute ao telefone por causa de uma multa por excesso de velocidade e conta histórias de Jean Genet e Rembrandt. A do pintor holandês, aliás, é um elemento central na narrativa, na qual Darel questiona a beleza dos olhares, não só do famoso artista, mas dos olhares comuns, de seu próprio olhar e do olhar de Allan.

Os vídeos de Darel, os quais ele garante não ser cinema, são simples, mas de uma criatividade imensa. Objetos voadores, espelhos, conceitos poéticos (“Eu comecei o filme aqui e termino no mesmo lugar”), ângulos inusitados, a inexistência da fala, o contraponto entre as cenas do cotidiano e a trilha sonora, sempre composta de música clássica. Os excertos dos filmes se opõem às imagens de Allan, bem mais comuns em sua forma, mas, em certo momento, as duas parecem se fundir, como se os olhares se cruzassem na naturalidade com que capturam o banal.

Ao abrir suas gavetas para o diretor, com centenas de seus vídeos – que ele mesmo copiava para DVD – e também clássicos do cinema que ele se gaba de ter assistido muitas vezes, Darel parece finalmente ter encontrado alguém para mostrar seu acervo que, ao contrário das pinturas, fazia para si mesmo.  A confiança que o pintor deposita em Allan vai se infiltrando no documentário. Quanto mais Darel se mostra, mais transparece o aprendizado que o documentarista tira da experiência. Aos poucos, o retrato que o filme pretendia fazer do artista se contagia com a presença do cineasta, e termina revelando algo sobre a relação entre eles.

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Em uma sequência intitulada “O Quarto do Filho”, que remete ao drama de Nanni Moretti, o artista mostra com aparente calma e relativa frieza a marca da bala do revólver que o filho usou para se matar. O desprendimento é uma das características que marca a figura de Darel desenhada por Allan em seu filme.  Isso fica evidente logo na primeira cena, quando os dois se filmam e Darel, logo depois, se gaba das vantagens de sua filmadora digital e com cara de travesso, diz: “Pronto, apaguei”.

Como coroamento da jornada, finalmente vemos o pintor sair de casa pela primeira vez. Em uma batida eletrônica frenética que destoa do resto da trilha sonora, acompanhamos as imagens aceleradas do trajeto de carro, que se viram para as ruas e para os morros do Rio de Janeiro, ganhando cores até então ausentes no filme e se misturam com as figuras da Série Cidades – as primeiras obras do pintor que ganharam notoriedade. De certa forma, Allan termina seu filme voltando ao início, descobrindo que, afinal, Darel sabe muito bem fazer cinema – e faz com gosto.

*Filme visto na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.