Birdman

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Depois de uma água viva (morta) e uma estrela cadente, aparentemente sem sentido (mas lembrem-se: tudo em um filme está lá por um motivo), a primeira coisa que vemos é Michael Keaton de costas, de cueca, levitando. Se ele realmente possui a habilidade ou está sofrendo de uma doença mental é uma dúvida que Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) não se preocupará em responder. Às vezes, acreditar-se  capaz de fazer algo e realmente fazê-lo não se diferem tanto senão por uma questão de ponto de vista.

Longe dos que os intensos 21 Gramas, Babel e Biutiful  sugerem, Alejandro Gonzales Iñárritu tem um dom incrível para a comédia, principalmente se seu humor ácido tem algo a dizer sobre o mundo que vivemos, ou que ele próprio vive.

Convencido de que adaptar uma peça de Raymond Carver (um egocêntrico, como aprendemos nos créditos iniciais) é o suficiente para  ganhar novamente seu prestígio, o ator Riggan Thomson (Keaton) encara uma luta contra o passado, mais precisamente contra o personagem que 20 anos antes o tornara famoso, o super herói dos quadrinhos Birdman, enquanto o clima de tensão no backstage escala nos dias que antecedem a estreia da peça.

O fato de  Michael Keaton ter  interpretado o Cavaleiro das Trevas pela última vez há 20 anos no filme de Tim Burton não é mera coincidência. Nomes como o dele jorram da boca de Riggan com verdadeiro pesar (e absoluto descaso, que o faz errar a maioria). Woody “Willy” Harrelson, Michael Fassbender, Jeremy “Reynolds” Renner , todos bons atores que tiveram suas carreiras beneficiadas por papeis em franquias milionárias. Ainda que parte do público, em 2015, seja muito novo para ter vivido o frenesi causado pelo Batman de Burton, as referências – faladas, estéticas e até técnicas – de Birdman servem um pouco como as inesperadas virtudes da ignorância do título. Cada espectador fará uma leitura diferente da obra, de acordo com seu próprio grau de desconhecimento  em relação à indústria cinematográfica.

Quando um acidente obriga Riggan a substituir seu coadjuvante, a atriz Lesley (Naomi Watts), em sua primeira vez na Broadway, indica Mike Shiner (Edward Norton) para o papel, um arrogante mas talentoso ator de teatro (muito como o próprio Norton que, aliás, já foi o Hulk). Apesar do contraste de personalidades, Mike mostra dominar o personagem e se torna um trunfo para o sucesso comercial da montagem. Se a verdadeira honra do teatro é criar espaço para que o público note seu parceiro, a dinâmica de Riggan e Mike dá aos dois momentos gloriosos, como se o egoísmo fosse o único defeito que o jovem ator não carrega para o palco.

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Além do antipático Mike, Riggan ainda precisa lidar com uma série de problemas que parece dizer  que o desastre é iminente. Sua filha Sam (Emma Stone, que esteve no último Homem-Aranha), recém saída da reabilitação, aceita o papel de assistente em uma tentativa de retomar a relação com o pai; o produtor, amigo e advogado de Riggan, Jake (Zach Galifianakis), tem que lidar com um processo judicial; uma crítica do Times (Lindsay Duncan) está em uma cruzada cega para destruir qualquer chance que ele possa ter no teatro e sua namorada (Andrea Riseborough), também parte do elenco,pode estar grávida.

Com o acúmulo de situações complicadas, vai ficando cada vez mais difícil para Riggan ignorar a voz de Birdman (Keaton novamente) tentando convênce-lo de que a profundidade buscada em Carver não vai torná-lo importante. A verdadeira redenção seria vestir as roupas do super-herói novamente. O Riggan levitante dá a impressão de um ser controlado, mas não demora para que ele esteja usando seus poderes de telecinese para colocar o camarim abaixo, em um ataque de fúria.

Iñárritu constrói o alter-ego falastrão de Riggan com calma e precisão, até que fique impossível não esperar pelo momento no qual  ele  surgirá fisicamente. Quando isso finalmente acontece, a dobradinha de Keaton em cena nos agracia com uma das sequências mais interessantes do ano – que ainda concorre com outras do próprio filme.

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O tempo todo, o diretor nos faz questionar se devemos acreditar no que estamos vendo. Em uma jogada genial, o baterista que interpreta a percussão da trilha (do talentoso Antonio Sánchez) é visto em cena, enquanto o restante dos personagens parecem desconhecer sua presença. No fim, o fragilizado Riggan se assume como Birdman (por ataduras, em vez da rígida fantasia) porque, afinal, o nirvana atingido por estar em pleno controle de seus poderes pode ser mais gratificante do que a realização intelectual e artística.

Com Riggan, que queria retomar seu prestígio interpretando Carver, é Michael Keaton quem faz a retomada do século, potencializada por performances poderosas de todo o elenco, mas principalmente ao contracenar com Edward Norton e Emma Stone – que ainda rendem momentos cativantes juntos.

Fotografado pelo brilhante Emmanuel Lubezki (Filhos da Esperança, Gravidade) para parecer um plano sequência de duas horas (os cortes estão lá, mas parte da experiência é não procurar por eles), o longa parece se passar em tempo real, ainda que condense vários dias. A fluidez, marca do teatro, traz a sensação de uma realidade que se dissolve em surrealismo – e até ultrarealismo – à medida que vão sendo introduzidos os elementos subjetivos da trama.

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As questões cinema versus teatro, comercial versus artístico, família versus carreira, produção versus crítica vão tecendo uma rede de comentários que, apesar de familiares e bastante explorados, ganham um caráter que inova por colocar o sádico e o cômico no mesmo pacote, e ser capaz de discutir temas atuais, como os novos significados de ícone, rótulos ou sucesso sem se distanciar do resultado, por mais cruel que ele seja.

A busca do personagem pela relevância artística é quase emblemática da Hollywood atual, que vive uma de suas maiores crises. No entanto, que Riggan opte por usar seus poderes para satisfazer a si mesmo, em vez de “fazer o bem”, é um traço inventivo que Iñárritu dá à seu anti-super-herói. E para uma indústria que continua tão presa aos arranjos tradicionais do cinema, é um alívio ver Sam entoar um seguro “Isso é poder” ao mostrar um vídeo do pai que se tornou viral na rede e Riggan reconquistar a atenção do público e da crítica pela escolha de um método absolutamente extremo.

Que a Hollywood moderna precisa se reinventar não é segredo para ninguém, mas que o recente cinema meta-crítico seja o caminho é uma descoberta fascinante. Mesmo assim esbarramos em conceitos: existe a metalinguagem e, bem lá em cima, no plano do céu onde só os passáros habitam, existe o magnífico Birdman.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.