A Despedida

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Marcelo Galvão é um transeunte. Da comédia dramática Quarta B (2005) ao curta de terror Ouija (2010), passando pelo mundo das lutas em Rinha (2008) e a aventura em Colegas (2013), o carioca passeia por diferentes gêneros sem se preocupar com as amarras que cada um deles poderia trazer. Ao invés disso,  seu único compromisso é com uma boa história. Dirigido e roteirizado por ele, A Despedida é um “road movie a 10 quilômetros  por hora”. Embelezado por duas atuações explosivas, trata da velhice e da finitude com uma honestidade que pouco poderíamos esperar de um cineasta tão jovem, ainda que o argumento se baseie em uma história familiar.

A sequência inicial do longa é cruel, mas não tanto para seu protagonista quanto para o público. Ao levantar da cama (uma expressão que dita assim evoca uma agilidade que não está presente), Almirante (Nelson Xavier, maravilhoso), de 92 anos, ri, orgulhoso de si mesmo, quando percebe que não fez xixi na fralda.  Em contrapartida, a mera necessidade de um gesto para chegar a essa conclusão já nos mostra como ele está debilitado.

Se apoiando nas paredes e nos móveis, o personagem faz sozinho tudo o que outrora, ou ontem, precisara de ajuda para fazer. Se barbeia, toma banho e se veste,  tudo em um processo longo que já não conta com a destreza das mãos de Almirante, mas que  é possível por causa de sua obstinação. Em uma escolha corajosa, que demanda paciência, Galvão impõe o tempo do personagem e sua percepção das coisas ao redor, forçando o  espectador a adentrar uma rotina cansativa, lenta e, por vezes, agonizante. O diretor se despe do lugar comum, e em vez de usar a câmera como olhos, é o som presente na cena que recebe o tratamento subjetivo.

Ao fim do segmento  de quase 10 minutos, o incômodo incial já deu lugar à confiança, e recebemos com estranheza a recusa do filho ao ouvir do pai que  sairá para tomar um café na rua. Com a ajuda de um andador, o café se transforma em uma jornada, na qual Almirante faz paradas para desatar os nós de seu passado, plenamente consciente de que o fim se aproxima, mesmo que os vários relógios – metafóricos ou não – presentes na narrativa não o deixem esquecer.

Como acontece com a maioria dos filmes com primeiros planos poderosos, é de se esperar que o segundo e o terceiro ato percam força dramática, mas A Despedida não cai na armadilha. É no encontro de Almirante com a amante (Juliana Paes), 55 anos mais nova, que reside a energia do filme. O diretor conduz o momento com calma (se contrapondo à pressa do Almirante) e sensibilidade, até que se emocionar por um romance extra- conjugal, intergeracional, seja o único caminho possível, independentemente de preconceitos externos  à narrativa.

Aproveitando-se da virilidade que a amante o faz sentir,  Almirante ganha um sopro de vida, encarado como licença poética, que o permite abandonar o andador, dançar e atingir o extase. No entanto, Galvão não se desprende totalmente – ainda bem – das condições iniciais do personagem, o que gera um dos momentos mais líricos do filme:quando Almirante recebe a ajuda de Juliana Paes para tomar um prato de sopa.

Longe de sua zona de conforto, sem maquiagem e com trejeitos comuns, Juliana Paes mostra que seu estereótipo televisivo nada tem a ver com sua capacidade de atuar, principalmente por conseguir distanciar duas personagens em situações parecidas: a amante do longa não tem nada de Gabriela.

Mas o filme é de Nelson Xavier. Se ao lado de Paes sua atuação é enriquecida, suas cenas sozinho são tão cativantes quanto as que divide com o resto do ótimo elenco, construindo  o retrato de alguém que, mesmo refém da idade, rejuvenesce a cada pequena conquista.

A fotografia de Eduardo Makino contrasta bem a frieza de São Paulo com o aconchego da casa da amante. Sua câmera transita entre enquadramentos intimistas e planos abertos, o que nos obriga a (re)conhecer a dificuldade de cada ação do Almirante sem ser tragado pela proximidade.

Além da fotografia, Marcelo Galvão ainda aposta em pequenas ciladas para manter a tensão. Um révolver, um cadarço desamarrado, uma chaleira no fogão, tudo parece nos dizer que um acidente está prestes a acontecer, mas não mais do que o nosso próprio acúmulo diário de situações de risco. Como quem tem mais medo do relógio do que das tragédias cotidianas, o diretor acerta em não mostrar a realização da morte: quer coisa mais segura do que sair para tomar um café?

 

*Filme visto na 18ª Mostra de Cinema e Tiradentes. A Despedida deve entrar em circuito comercial no segundo semestre de 2015.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.