Órfãos do Eldorado

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Órfãos do Eldorado se inicia com um pescador-poeta narrando a busca pelos “três céus”, evocando a Divina Comedia de Dante Alighieri da mesma forma que o livro homônimo do amazonense Miltom Hatoum o faz. Essa não é a única vez que o roteiro conduz a um universo literário, quase pitoresco, de referências fantasiosas.

No barco do pescador está Arminto Cordovil (Daniel de Oliveira), prestes a se afundar em um oceano de fábulas na volta a uma pequena cidade amazônica de onde saiu há 15 anos. Com a morte do pai, com quem ele nunca se deu bem, Arminto herda a empresa de barcos da família, que fez fortuna no Ciclo da Borracha. No bojo da herança, também um barco inacabado, o Eldorado.

A volta para casa permite o reencontro de Arminto com Florita (Dira Paes), a mulher que ajudou a criá-lo e com quem mantinha um relacionamento amoroso antes de sua partida. As nuances das interpretações de Olveira e Paes levantam a suspeita de incesto, de uma proibição que não se confirmará nem se desmentirá.

Roteirizado por Aline Portugal e dirigido por Guilherme Coelho em seu primeiro trabalho ficcional, o longa segue o mergulho de Arminto em um mundo de imaginação, loucura e decadência, na medida em que ele se desfaz de sua herança em busca da misteriosa Dinaura (Mariana Rios), com quem tem repentinos encontros sexuais. Dizem que ela vive em uma cidade submersa, mas isso não impede o protagonista de se apaixonar por ela, mesmo sem trocarem duas palavras.

A realidade do herdeiro se confunde com os mitos da região. Dinaura encarna a lendária sereia Iara, Mãe-D’água, que surge sedutora à margem do rio, enfeitiça Arminto e, depois some na imensidão do Amazonas, convidando o herdeiro ao Eldorado, ao inatingível, enfim, a se afogar.

Entre a rede balançante que Arminto divide com Florita na hora do sexo e as águas furiosas dos rios que ele navega, Coelho recheia sua narrativa de elementos frenéticos, nervosos, que dão o tom aos pensamentos de um homem solitário, escurecidos pelo tempo passado longe de casa, e reacesos pela possibilidade de um amor irrealizável.

Sua paixão pela música clássica e pelo piano o coloca em contraste com os ritmos da região, que misturam os sons indígenas e o brega moderno. A trilha sonora diversificada garante algumas das melhores cenas do filme: é difícil não ser atraído pela dança de Dira Paes, levemente alcoolizada, alegre, mas cheia de remorso. É cedo para dizer, mas Guns N’ Roses na voz de Mariana Rios pode facilmente se tornar um dos momentos mais elétricos e hipnotizantes que o cinema nacional vai oferecer em 2015.

As paisagens do Pará, tão bem desvendadas pela câmera de Coelho, tornam Órfãos do Eldorado quase um romance regionalista. A figura de Dinaura, que se confunde com uma Florita jovem, com a perigosa Iara e condensa as heranças indígenas presentes nas mulheres amazonenses traz a dubiedade da obra de Hatoum sem, no entanto, ceder aos caprichos narrativos do diretor.

O imaginário local, que já perde espaço para o caótico mesmo nas cidades ribeirinhas, é resgatado de forma curiosa, exuberante, e de certa forma, palpável. Os vários Eldorados que Arminto não consegue alcançar não são mais que expressão de um homem sendo tragado por sua imaginação, e, no entanto, se satisfazendo com a embriaguez mitológica.

Guilherme Coelho, vindo de uma carreira de documentários, se mostra no controle do subjetivo como se a ficção fosse seu porto-seguro. Sua direção é ambígua, intensa, e se apoia em sutilezas – leves desfoques da câmera, closes indiscretos, sons de cena – para mergulhar no fantástico, convidando-nos a submergir junto com os personagens, até que a verdade pouco importe, não mais que a versão da verdade presente no pensamento de Arminto.

*Filme visto durante a 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Orfãos do Eldorado entra no circuito comercial em agosto de 2015.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.