O Jogo da Imitação

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As cinebiografias de prodígios matemáticos tendem a se parecer em certos aspectos, talvez porque as vidas dos biografados também têm muito em comum. O Jogo da Imitação é um relato vívido e trágico da trajetória do inglês Alan Turing, popularmente conhecido como inventor do computador e por ter ajudado os aliados a vencerem a Segunda Guerra. A obra pega muito emprestado de Uma Mente Brilhante (2001) e A Rede Social (2010), lançando mão da estrutura fragmentada, de flashbacks e os lemas inspiradores, mas provavelmente ganha como o mais triste deles.

Assim como John Nash e Mark Zuckerberg, Alan Turing contrastava fortemente suas habilidades matemáticas com inabilidades sociais, o que lhe rendeu um status de gênio incompreendido, e fez com que mesmo aqueles que entendiam plenamente o alcance de suas capacidades intelectuais estivessem dispostos a se livrar de sua companhia em algum momento. Se a inteligência única e a insociabilidade já lhe convidavam a criar um universo particular, a homossexualidade lhe obrigou.

Por ser considerada, na época, uma conduta criminal, além de desvio de caráter, Turing escondeu sua verdadeira identidade da maioria das pessoas que cruzaram seu caminho. Julgado e condenado por “atos de indecência” em 1952, foi submetido à castração química durante dois anos, o que o levou ao suicídio, aos 41 anos. Se os feitos matemáticos de Turing se igualam a de outros gênios por importância, sua história diverge gravemente no tratamento e reconhecimento dado a ele por sua nação. O pedido de desculpas e o perdão judicial foi concebido pela Rainha Elizabeth em 2013. Um caso clássico do “pouco demais, tarde demais”, que não ameniza em nada as injustiças cometidas em nome da intolerância.

Com roteiro adaptado pelo novato Graham Moore, do livro Alan Turing: O Enigma, escrito por Andrew Hodges em 1983, o longa se desenrola também como um quebra-cabeça, um pouco como seu personagem principal e a história que ele na conta. Em uma sala de interrogatórios, o detetive Nock (Rory Kinnear) questiona Turing (Benedict Cumberbatch) sobre um assalto em seu apartamento. Nock é o único personagem inventado do filme, como um recurso narrativo para explicar as narrações em voice-over do matemático.

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Cumberbatch é contido, com um olhar sempre compenetrado e voz segura, o que faz com que suas demonstrações de emoção ganhem uma dimensão de certeza que conseguiria convencer até mesmo os mais incrédulos da existência das coisas mais improváveis. Se o ator ficou famoso ao interpretar o astuto Sherlock Holmes, como Alan Turing ele encontra uma nova classificação de gênio, alguém que, apesar do talento, habita uma camada de vulnerabilidade e melancolia.

Em seu primeiro filme em língua inglesa, o diretor norueguês Morten Tyldum transita entre a adolescência de Turing e o primeiro amor e o início da Segunda Guerra, quando ele é contratado pelo serviço secreto britânico para liderar um time de analistas responsável por desvendar as mensagens enviadas pelos nazistas. Codificadas por uma pequena máquina apelidada de Enigma, elas chegavam aos montes, ao passo que a equipe tinha 24 horas para descriptografá-las, prazo em que as “chaves” do código eram mudadas pelos alemães, obrigando-os a começar de novo do zero.

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Enquanto o método proposto pelas autoridades do MI6, Major Stewart Menzies (Mark Strong) e Comandante Alastair Denniston (Charles Dance) previa a quebra diária dos códigos, e portanto uma charada a cada dia, Turing idealiza uma máquina que resolveria todas as cifras de uma vez, assim criando acesso a todas as mensagens que a Inglaterra fosse capaz de interceptar. Se sua ideia é vista com censura tanto pelos colegas quanto pelos chefes – que no entanto concordam em financiá-la – um outro personagem coloca todos seus esforços no projeto, dando um novo traço de humanidade à Turing, visto somente nos momentos partilhados com seu amigo Christopher no internato que frequentaram quando jovens.

Joan Clark (Keira Knightley), formada em Matemática na Universidade de Cambrigde e admiradora dos trabalhos anteriores do matemático, entra para a equipe após resolver uma cruzadinha proposta por Turing e se destacar como a única mulher entre os candidatos ao emprego. Eles logo criam um vínculo, talvez por ela ser a pessoa com o Q.I. mais próximo do dele, talvez por entender o horror de ter que esconder sua verdadeira identidade – por ser mulher, Joan não podia ir aos escritórios da equipe e trabalhava à luz de velas em um quarto de uma pensão para as secretárias do Serviço Secreto.

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A química entre Cumberbatch e Knightley é tanta que os atores fazem parecer o casamento de fachada (que não passa do noivado) proposto por Turing como inevitável. Se não uma história de amor carnal, a intimidade que o intelectual retraído concede a Joan é o mais próximo que ele chegou de ser aceito por sua real personalidade, o que, apesar de soar reconfortante, não passa de uma prova lastimável da solidão a que estava condenado.

Dos colaboradores, destacam-se Matthew Goode (The Good Wife) como o charmoso Hugh Alexander, desafeto intelectual de Turing, e Allen Leech (Downton Abbey) como John Cairncross, o único que lhe dá algum crédito, apesar da descrença inicial. O jovem Matthew Beard, que se lançou em 2007 com Quando Você Viu seu Pai pela Última Vez? se revela espetacular quando a equipe é confrontada por um dilema moral e precisa decidir entre ganhar a guerra ou salvar um navio repleto de civis. Mas quem rouba toda a tela é Keira Knightley, com um retrato gentil mas convicto de uma brilhante pesquisadora à frente de seu tempo.

THE IMITATION GAME

Com uma sala cheia com alguns dos melhores criptógrafos da época, era de se esperar que a grande descoberta que possibilitaria a leitura das mensagens viesse naturalmente em decorrência das incansáveis horas de trabalho. Embora essa descrição esteja mais perto da realidade, o momento “eureca” de Turing no longa é comovente e empolgante. O estalo se dá por causa de um flerte de Hugh Alexander no bar local – e afinal, por amor – e se destaca como uma das melhores cenas do filme, mesmo que restem dúvidas sobre o funcionamento da imensa máquina ao público que não for ávido entendedor de criptografia (aproximadamente todo mundo).

Felizmente, os detalhes técnicos não são necessários para que se realize a grandeza da conquista, e sua importância nos anos restantes da guerra. O engenhoso aparelho ganha vida através de seus cabos vermelhos que se destacam como veias e o barulho quase ensurdecedor (cortesias da designer de produção Maria Djurkovic) traz o prenúncio da criação de um soldado que seria indispensável para a vitória dos aliados.

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Até o clímax, Tyldum conduz o drama como um thriller emocionante de guerra, que troca as bombas por números e capacetes por lápis e papel. A partir da descoberta, uma atmosfera sombria toma conta, tanto pelas decisões difíceis que eles precisam tomar – como quais mensagens utilizar e a quais tropas salvar para que os alemães não desconfiassem da vantagem – quanto pelos acontecimentos que guiam Turing para seus momentos finais.

No instante que o gênio se mostra incapaz de resolver a mais simples das cruzadinhas (uma paixão antiga) por causa das doses excessivas de hormônio receitadas pela justiça, que ele escolhe em vez da prisão, Turing sela seu destino fatal. A demência, que Cumberbatch encena de forma impecável, era o único obstáculo que ele não podia vencer, mesmo sendo a mente por trás da resolução do problema mais difícil do mundo, como era conhecida a Enigma.

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Tyldum faz uma escolha incomum ao não mostrar o suicídio, mesmo que o acontecimento esteja rodeado de material cinematográfico: supostamente, Turing mordeu uma maçã (que nunca foi testada) embebida em cianeto, talvez encenando uma de suas histórias preferidas, Branca de Neve e os Sete Anões. Enquanto a maioria dos diretores preferiria utilizar a passagem (que é de um valor dramático poucas vezes encontrado em histórias reais), Tyldum escolhe uma referência à maçãs e ao veneno em uma cena logo no início, sugerindo que a morte em si foi uma espécie de formalidade, já que o verdadeiro Turing teria desaparecido por efeito dos remédios.

O desfecho de O Jogo da Imitação é cruel: um governo capaz de destruir, por intransigência às diferenças, um herói de guerra e uma das mentes mais incríveis de sua história. Tão cruel quanto o tempo levado para que a Inglaterra admitisse seu próprio crime. Enquanto o fato de Turing ser gay não deveria importar em nada, que um filme que atesta seu brilhantismo honre mais seu nome do que um perdão oficial é um evento que merece todas as atenções.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.