Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo

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[alert type=red ]Atenção: esse texto contém informações importantes sobre a história em que o filme foi baseado[/alert]

Não se pode dizer que Bennett Miller é um diretor comum. Em 16 anos de carreira, Miller dirigiu somente quatro filmes, três dos quais foram muito bem tratados pela crítica e pelas temporadas de prêmios. Com um fascínio por temas recorrentes e também pela representação do real, consagrado pelos biográficos Capote e Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo, o diretor dá o seu toque de poesia aos eventos que antecederam o assassinato do campeão olímpico de luta greco-romana Dave Shultz. Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo é, além de uma história baseada em fatos reais, um conjunto de técnicas cinematográficas reunidas por um time de primeira, que joga alguma luz nos bastidores de uma tragédia que mais tem ares de filme de terror.

O caso pode ter esmaecido após os quase 20 anos que tomou as manchetes dos jornais, mas sua força narrativa permanece intacta. Em 1996, John du Pont, herdeiro de uma fortuna incomparável, obtida principalmente por meio da venda de pólvora, matou Dave Schultz com três tiros, depois de anos patrocinando o lutador e seu irmão caçula Mark Shultz em competições ao redor do mundo. Apesar da tese de transtorno mental aceita pelo júri, du Pont foi condenado e morreu na cadeia, em 2010. Mark, o então único sobrevivente do estranho triângulo, creditado como produtor associado, é autor da biografia que dá título ao filme e que serviu de fonte para o roteiro de E. Max Frye e Dan Futterman.

Estamos em 1985. Medalhistas de ouro nas Olímpiadas de 1984, Mark (Channing Tatum) e Dave Schultz (Mark Ruffalo) não vivem uma vida de prestígio, como era de se imaginar em relação a uma família de campeões em um país que dá tanta importância aos esportes, como os Estados Unidos. Ao invés disso, Mark vive em um pequeno apartamento pertencente ao pai (que se divorciou quando ele tinha apenas três anos), dirige um carro antigo e mantém uma rotina de treinos que pouco tem a ver com a vitória ilustre do ano anterior, a não ser pelas ocasionais palestras motivacionais em escolas primárias sobre o significado do título. Por uma delas, Mark recebe 20 dólares. Suas refeições variam entre sanduíches e miojo. Por um minuto, ele encara um quadro na parede que mostra um barco de guerra, com alguém que empunha a bandeira americana. O desprezo em seu olhar diz tudo.

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Dave tampouco viu suas conquistas lhe garantirem conforto. Ele vive com a mulher (Sienna Miller) e os filhos em uma casa vizinha. É treinador em uma universidade, onde também é o responsável pela preparação do irmão. Eventualmente Dave abre espaço para que Mark o agrida, e fosse proposital ou não, o clima de rivalidade fica claro, apesar do papel paternal que o irmão mais velho exercera durante toda a vida do caçula – ou talvez, justamente por isso.

O retrato do declínio é óbvio – e uma das especialidades de Miller – mas se não bastam as imagens, a situação é verbalizada pelo milionário e amante das lutas John du Pont (Steve Carell) algumas cenas depois. Mark é chamado para uma reunião na fazenda da família du Pont, que fica em outro estado. Para isso, o anfitrião lhe paga uma passagem de primeira classe até a cidade mais próxima e, depois, de helicóptero até a propriedade, apelidada de Foxcatcher.

“A nação falhou em te honrar”, diz du Pont, e é o suficiente para convencer o jovem lutador a aceitar um contrato de 25 mil dólares por ano para entrar para o Time Foxcatcher, que incluiria morar em um dos chalés da fazenda e treinar no impressionante centro de esportes construído por du Pont a 100 metros dali.

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Greig Fraser é responsável por uma fotografia fria, que contrasta a imensidão do patrimônio dos du Pont com a solidão de seu herdeiro. As terras da família ainda integravam um haras para cavalos de competição, paixão de Jean du Pont (Vanessa Redgrave), mãe do empresário, campos de tiro, uma sala de troféus que guardava mais de 32 mil prêmios recebidos por várias gerações em diversas áreas e contava com o charme histórico de ter sido um campo de batalha durante a guerra civil.

As cores quentes aparecem na decoração do centro esportivo, enquanto as outras instalações emanam o vazio existente na relação entre mãe e filho. O amarelo, azul e vermelho, cores do Time Foxcatcher, são o calor humano que John du Pont só vivenciava enquanto na companhia de seus atletas.

Institivamente, Mark pede a Dave que se junte a ele, convite recusado em favor da família, que não quer se mudar. Esse primeiro desprendimento dos irmãos é o ponto de partida para um convívio conturbado e tenso entre Mark e du Pont. Com o objetivo inicial de convencer os dois irmãos, que naquele momento eram a dupla mais bem sucedida em uma olimpíada, a longa pausa do treinador após saber da rejeição de Dave é o bastante para certificar que aquele era um homem que não estava acostumado a ouvir “não”.

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Fisicamente transformado, Steve Carell dá o tom exato entre o decadente e o grotesco ao patrocinador. Com uma prótese de nariz, dentes falsos, cabelo grisalho e o modo lento de falar, o ator replica com perfeição as feições e os maneirismos do verdadeiro du Pont. A fisionomia de Carell vai aos poucos dando espaço para um monstro, escondido atrás de inúmeras obsessões, como selos, pássaros, conchas e, finalmente, pessoas. Em uma performance que ficará marcada em sua carreira, Carell surpreende positivamente tanto os que não são muito entusiastas de seu estilo quanto os fãs de comédia que admiram uma mudança de gênero.

O Time Foxcatcher chegou a contar com trinta atletas, mas a preferência de du Pont por Mark é notória: logo o lutador está frequentando jantares de gala, sessões noturnas de treinamento, e dividindo carreiras de cocaína em momentos de intimidade que claramente excedem a relação profissional. A suposta amizade rapidamente ganha contornos de submissão e uma cena de luta entre os dois chega a sugerir conotação sexual, o que Mark aceita por amor – ao esporte, à fama ou ao dinheiro –, mesmo com um crescente desconforto, que não passa despercebido pelo técnico.

Quando Dave finalmente aceita o emprego de treinador oferecido por du Pont, é questão de tempo para que a tensão entre o milionário e Mark leve a consequências drásticas. Após um ataque de raiva que resulta em comilança, e depois na derrota nas Olimpíadas de 1988, o mais novo tem uma hora e meia para perder 5,5 quilos e atingir o peso necessário para lutar. Com uma entrega impressionante, Ruffalo e Tatum dão um show de atuação quando Mark veste roupas de moletom, amarra o capuz no rosto e pedala uma bicicleta ergométrica o mais rápido possível enquanto o irmão o incentiva, retomando um relacionamento que tinha sido desgastado pelo estilo de vida fora do padrão levado por Mark.

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É uma pena que Mark Ruffalo só apareça quando Dave está presente na vida do irmão. Em uma interpretação brilhante, principalmente nos aspectos físicos, as situações que Ruffalo encena com Tatum colocam frente a frente dois dos talentos mais versáteis da Hollywood atual. Os treinos encontram beleza em coreografias fascinantes e em uma intimidade entre homens que raramente é exibida nas telas de cinema. O jogo de pernas, movimentação das mãos e golpes complexos são alcançados pelos atores com uma grande confiança profissional, além de que o cuidado com os detalhes, como as orelhas inchadas características dos lutadores, dá às lutas uma veracidade emocionante.

A montagem, feita por Jay Cassidy, é impecável durante a maior parte da obra e só falha quando sugere que o assassinato de Dave sucede a saída de Mark do time, colocando o crime como o ápice do clima inquietante tão bem construído pelo roteiro, quando, na verdade, passaram-se sete anos entre os dois acontecimentos. Felizmente, mesmo o uso desse recurso narrativo não chega a insinuar um motivo concreto, o que de fato nem a defesa nem a acusação do julgamento de du Pont fizeram.

No entanto, durante esses anos, o milionário supostamente desenvolveu um comportamento psicótico, acreditando piamente que Dave era parte de uma conspiração para matá-lo, o que em nenhum momento é investigado por Miller, ainda que, perto do final, o as manifestações erráticas do personagem demonstrem sinais de instabilidade mental.

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Menos grave que o encurtamento da história, Miller ainda deixa escapar, em uma cena específica, como um civil – mesmo que amigo das autoridades locais e herdeiro de um império responsável por parte da indústria de armas – consegue colocar as mãos em um tanque de guerra e uma metralhadora em sua própria casa, e ainda dar ordens aos responsáveis pela entrega. Se isso foi realmente possível, só pareceria crível acompanhado por uma explicação detalhada e convincente. Mas, nesse momento em particular, o diretor parece assumir que todos sabem os pormenores de tal arranjo, o que não se repete nenhuma outra vez, quando Miller tateia com cuidado para que o espectador entenda o que está por trás das bizarrices de du Pont.

Se o conto não chocou o mundo, como diz o título nacional, pelo menos foi capaz de provocar questionamentos em uma nação que pouco cuida de seus heróis. Com uma representação em filme, Bennett Miller tem o poder de levantar algumas dessas questões novamente, como fez em seus dois longas anteriores. O patriotismo bradado por du Pont beira o delírio, mas, paradoxalmente, os motivos presentes no cerne de suas ações filantrópicas talvez fossem mundanos – os mesmos que fizeram com que Mark e Dave se juntassem ao time, a procura de reconhecimento, fama, dinheiro e até uma heroicização que já tinha se mostrado falha antes. “Estou dando esperança para a América”, du Pont declara. Enquanto o milionário foi vítima de sua própria loucura, não se pode dizer que o pretensioso lema seja exclusivo dos loucos, o que talvez seja a verdadeira tragédia retratada em Foxcatcher.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.