Ouvindo o filme: Pulp Fiction

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Uma das características do Surf Music, estilo popular na década de 1960, é a ocorrência do compasso 4/4 em suas músicas. Para quem não entende muito das nomenclaturas da teoria musical, explico: um compasso é como os grupos de sons são divididos em uma composição, contando-se a quantidade de pulsos (batidas). O compasso 4/4 tem quatro tempos e cada tempo é dividido em duas partes iguais. Para ser mais direta, aplicamos um andamento (velocidade) mais rápido em um compasso 4/4 e deixamos a música empolgante. A prova disso são todas as vertentes do rock, incluindo o Surf Music.

Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994) pode ser citado como um exemplo de filme que mesmo desconsiderando a trilha sonora se relaciona bem com a ideia do compasso 4/4. As estórias que compõem a trama são rápidas e empolgantes, na medida certa.

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Não à toa, Quentin Tarantino, diretor da obra, recheou o filme com música surf. A trilha sonora ficou a encargo dele, que recebeu ajuda na tarefa de dois de seus amigos, Chuck Kelley e LaureLovelace. Ambos foram creditados como consultores pelos palpites dados na escolha das canções. A estrutura do longa embaralha as estórias na linha do tempo e cada parte do filme tem os seus destaques musicais.

A música memorável de abertura, aquela que escutamos lendo os créditos iniciais, se chama Misirlou. A versão de 1990 é baseada na de Dick Dale, o rei do surf music, e ela é uma das músicas mais emblemáticas para o movimento musical das praias californianas. A curiosidade sobre Misirlou é que foi uma música reconstruída por vários estilos musicais durante as últimas nove décadas, já que a versão original data dos anos 1920. O grego Michalis Patrinos foi quem compôs a Misirlou original. Depois dele, vários grupos de rock gravaram versões, e Dick conseguiu tornar a sua a mais famosa. A canção foi considerada a música grega mais influente da história. Fora da terra helênica, a canção alcança desde casamentos judaicos até apresentações de dança do ventre. O grupo americano The Black Eyed Peas usou partes dela em seu hit Pump It, do álbum Monkey Business (2004).

Logo em seguida a Misirlou, como se tivessem alterado a estação de rádio, ouvimos Junglie Boogie do grupo Kool And The Gang, famosos entre as décadas de 1960 e 1970. A canção é uma das faixas de destaque do álbum Wild and Paceful (1973). O ritmo é meio funk meio R&B (Rythm and Blues), resultando em algo bem dançante.

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A sequência do enredo intitulada “Vicent Vega e a esposa de Marsellus Wallace” é a mais musical de todas. O primeiro contato entre Vicent (Jonh Travolta) e Mia (Uma Thurman) tem como tema Son of a Preacher Man na voz doce de Dusty Springfield. A balada integra o lado A do LP Dusty in Memphis (1969). A música tinha sido recusada anteriormente por Aretha Franklin, que aceitou gravá-la um ano depois de Dusty. Conta-se que Dusty, em um desses atos de sincera modéstia, achou a versão da colega melhor do que a sua própria, tanto que desde estão adotou alguns fraseados da interpretação de Aretha.

Mais uma música escolhida com maestria para a trilha foi You Never Can Tell, de Chuck Berry. A dança embalada por ela e protagonizada por Jonh Tavolta e Uma Thurman é uma das mais conhecidas do cinema. A importância da música para o sucesso da cena é indiscutível. A canção, também conhecida como C’est la Vie, foi composta em 1960, quando Chuck estava preso por supostamente ter violado a Lei Mann (promoção da prostituição). Por isso, ela só foi gravada quatro anos depois no álbum St. Louis to Liverpool.

Girl, You’ll Be a Woman Soon é uma música de Neil Diamond, lançada em 1967. No entanto, Tarantino escolheu para o filme um cover feito pela banda de rock alternativo Urge Overkill. A oferta era considerável, pois Cliff Richard, Garry Puckett and The Union Gap e o músico Biddu tinham versões já conhecidas da música. A diferença fundamental entre a gravação original e a escolhida é a voz dos cantores. Nash Kato, vocalista da Urge Overkill, oferece à música uma característica mais lúgubre, que condiz com a cena onde a canção foi inserida.

Como Tarantino optou pelo Surf Music como o elemento preponderante da trilha sonora de Pulp Fiction, a leitura dos créditos finais é acompanhada por mais uma música do cancioneiro surf. Surf Rider é a música que dá nome ao álbum de 1963 da banda instrumental The Lively Ones. O ritmo e a melodia são originalmente de outra banda, The Ventures, que deixaram os Lively Ones usarem – sem esquecer, é claro, dos direitos autorais, que certamente aumentaram após o sucesso do filme.

Trilha sonora completa:

Misirlou – Dick Dale

Jungle Boogie – Kool And The Gang

Strawberry Letter 23 – Brothers Johnson

Let’s Stay Togheter – Al Green

Bustin’ Surfboards – The Tornadoes

Lonesome Town – Ricky Nelson

Son Of a Preacher Man – Dusty Springfield

Bullwinkle Part II – The Centaurians

Since I First Met You – The Robins

Rumble – Link Wray and His Ray Men

You Never Can Tell – Chuck Berry

Girl, You’ll Be a Woman Soon – Urge Overkill

If Love Is a Red Dress (Hang Me In Rangs) – Maria McKee

Comanche – The Revels

Flowers On The Wall – Statler Brothers

Out of Limits – The Marketts

Surf Rider – The LivelyOnes

Quem escreveu

Joamila Brito
Gosta de histórias fantásticas e ficção científica bem humorada. Assiste terror com moderação, pois nunca se sabe quando os fantasmas resolvem aparecer. E troca qualquer blockbuster por um filme gravado no interior do Brasil.