Mapa para as Estrelas

2

2

Talvez seja necessário conhecer a fundo a filmografia do diretor canadense David Cronenberg para entender melhor as metáforas usadas em sua obra mais recente, Mapa para as Estrelas, que rendeu à Julianne Moore o prêmio de interpretação feminina no Festival de Cannes 2014.

Cronenberg é o rei do trash, ainda que seus últimos filmes – Um Método Perigoso e Cosmopolis – não apontem com tanta precisão seu talento para tal. Mas seja a terrível metamorfose de A Mosca (1986), os fetiches mórbidos de Crash – Estranhos Prazeres (1996), a realidade virtual em eXistenZ (1999) ou a esquizofrenia perturbadora de Spider – Desafie sua Mente (2002), o diretor sempre soube usar o bizarro a seu favor.

5

Em Mapa para as Estrelas, uma comédia negra escrita e adaptada pelo novelista Bruce Wagner, não poderia ser diferente. E quando os traços psicóticos de cada personagem são ainda mais realçados por essa mesma habilidade do elenco em lidar com o esdrúxulo, Cronenberg também se consagra como um grande diretor de atores, incentivando performances calorosas em todos seus aspectos.

A trama gira em torno de Agatha, uma jovem que usa luvas pretas até o cotovelo e que possui uma cicatriz enorme de queimadura no rosto, parcialmente escondida por um corte de cabelo mal feito.  Ela começa dizendo a Jerome, motorista de limusine, aspirante a ator e roteirista, que está de volta à Los Angeles para visitar sua família. Em interpretações justíssimas, Mia Wasikowska e Robert Pattinson mostram já na primeira cena que estão muito além dos personagens bonzinhos dos contos de fantasias adolescentes.

6

Apesar de viciada em remédios e de sua obsessão por um poema trágico e enigmático, Agatha logo arruma um emprego de assistente pessoal de Havana Segrand, uma atriz em aparente decadência, que está em negociações para interpretar o mesmo papel que fez a fama de sua jovem mãe, morta em um incêndio vários anos antes. Julianne Moore, ainda que coadjuvante, abraça a loucura de Havana com cada músculo de seu corpo (especialmente com os lábios, em uma clara gozação à indústria das mulheres de plástico).

Apesar da exigência do papel, já que poucas vezes a tragédia hollywoodiana foi colocada de forma tão escrachada para atores americanos, Moore transforma sua personagem em principal toda vez que aparece na tela, um traço de atuação que, em que pese seu enorme talento, vem como uma surpresa mais que agradável.

Havana é cliente do terapeuta Stafford Weiss, vivido por John Cusack, que promete exorcizar os demônios de seus pacientes com métodos exóticos. Entre uma sessão e outra, ele planeja o lançamento de seu novo livro de autoajuda. Sua mulher, Christina (Olivia Williams) é mãe e agente em tempo integral do mimado Benji, filho do casal, um ator mirim com jeito de Justin Bieber, estrela de uma franquia de sucesso, apesar de seu recente e polêmico problema com drogas. Não é surpresa que essa disfuncional e abusiva família seja justamente a família de Agatha, para quem os segredos há muito se tornaram fardos e, agora, necessitam de explicações e de desculpas.

7

A aproximação desse grupo de personagens neuróticos, psicopatas, incestuosos e assombrados por fantasmas do passado gera o cenário perfeito para que Cronenberg e Wagner criem uma sátira violenta, feroz e política ao nicho seleto e exclusivista que é a indústria do cinema americano.

Cheio de referências à cultura pop americana, por vezes exageradamente maldosas  (Drew Barrymore e o vício adolescente), em outras com ares de admiração (uma citação de Battlestar Galactica e até uma ponta da eterna princesa Leia, a atriz Carrie Fisher como ela mesma), Mapa para as Estrelas pode parecer complexo e cansativo para quem não esteja por dentro das fofocas, ou pelo menos aberto às histórias excêntricas e, às vezes, pavorosas que têm como pano de fundo as mentiras que circulam em Holllywood.

3

Mas como um filme da indústria para a indústria, a obra cumpre com louvor o papel de crítica à cultura de celebridades, à busca da fama a todo custo e mesmo às relações distorcidas que permeiam a comunidade cinematográfica.

Ao se tratar de Cronenberg, um final a altura não nos é negado; e enquanto os créditos rolam, somos tomados por uma estranha (e preocupante) sensação de que, se fosse um pouquinho diferente, aquela história poderia muito bem estampar a primeira página dos tabloides de amanhã. O trash que se cuide, porque o mestre voltou.

1

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.