Acima das Nuvens

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O primeiro plano de Acima das Nuvens não é um fundo preto onde lemos “Parte 1”. Mesmo assim, o diretor Olivier Assayas nos surpreende com a “Parte 2” e o “Epílogo”. Esse pequeno detalhe é só uma das muitas particularidades que envolve a obra, que estreou no Festival de Cannes 2014. De maneira episódica, quase teatral, marcada por inúmeros fades, Assayas formula uma análise metalinguística sobre a ação do tempo, a arte e seus artistas – e sorte a nossa que, em nenhum momento, ele tenta esconder seu apreço e fascínio por esse vínculo.

Não é a primeira vez que o diretor joga com a realidade. Em 1996, Irma Vep fez a crítica internacional virar as atenções para Assayas. A comédia segue a atriz chinesa Maggie Cheung, interpretando a si mesma, que foi chamada para fazer um remake de uma série francesa. A sátira ao cinema francês era cínica e descarada. Tendo começado a carreira como crítico, Assayas nunca deixaria de sê-lo, apesar de o tempo ter sido capaz de adoçar sua acidez, como Acima das Nuvens bem mostra.

A sequência inicial é uma viagem em um trem, com péssimo sinal de celular, que atravessa os vales suíços. Vestindo roupas especialmente casuais, com os cabelos sujos e exibindo várias tatuagens, a jovem Valentine (Kristen Stewart) lida com dois celulares para dar conta dos compromissos de Maria Enders (Juliette Binoche), uma atriz que já teve seus momentos de glória, mas agora se recusa a aceitar os sinais do tempo, além de estar enfrentando um divórcio.

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Em Zurique, Maria receberá uma homenagem em nome do diretor e amigo Wilhelm Melchior. Ele foi o responsável por revelá-la, 20 anos antes, na peça Maloja Snake (uma alusão a As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Rainer Werner Fassbinder) que, posteriormente, foi adaptada para o cinema e encenada também por Maria. A atriz mostra particular dedicação ao discurso que fará na cerimônia, porém, ainda no trem, é surpreendida pela notícia de que Wilhelm morreu.

Com a perda do amigo, Maria se sente inclinada a aceitar o papel principal na nova montagem de Maloja Snake, que será dirigida pelo jovem Klaus Diesterweg. Na história, a personagem Helena, uma empresária no alto de seus 40 anos, é levada ao suicídio pelo amor não correspondido de sua secretária Sigrid, vinte anos mais nova, em uma relação tumultuada e rancorosa.

Na primeira montagem, Maria interpretou Sigrid. Agora, sua defesa apaixonada da personagem com ares vilanescos a coloca em descompasso com a própria vida. De pronto, Maria, que pela idade só poderia interpretar Helena, recusa o papel, mas Klaus a seduz com um insight sobre as protagonistas: “Sigrid e Helena são a mesma pessoa. Porque você foi Sigrid, só você pode ser Helena agora”.

Para se preparar para o papel, Maria é convidada pela viúva de Wilhelm, Rosa, a se hospedar com Valentine na casa do casal, em Sils Maria, um pequeno vilarejo no alto dos alpes, onde o diretor e escritor se inspirava. Título da peça, Maloja Snake dá nome a um fenômeno natural que pode ser visto em Sils Maria:  o vento empurra as nuvens através dos vales e, nesse movimento, podemos vê-las serpentear.

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Ao descrever o espetáculo para Maria, Rosa nos deixa agradecidos ao saber, na cena seguinte, que existe um registro do fenômeno em filme, feito em 1924 por Arnold Fanck. O comentário de Maria, “o preto e branco marca a passagem do tempo”, ganha sentido quando as mesmas imagens recebem cores algum tempo depois.

A Parte 2 se concentra principalmente nos momentos e cigarros compartilhados entre Maria e Valentine, evidenciando uma intimidade afetuosa, mas que também delega à assistente um papel quase maternal. Entre confissões e risadas, logo fica claro que a vida de Maria foi, em muitos aspectos, moldada pelas suas memórias de Sigrid. Ela guarda certo rancor dos rumos que a indústria cinematográfica tomou, muito preocupada com escândalos pessoais e trilogias recheadas de efeitos especiais, mas indiferente às emoções.

Na nova montagem da peça, Sigrid será interpretada por Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz), até então desconhecida por Maria, que se recusa a seguir os tabloides e ainda está aprendendo o poder de uma simples busca no Google. Diferentemente de Maria, Val sabe exatamente quais são os boatos em torno de todos, em parte por causa do seu trabalho, mas também porque encontra prazer em comparar as pessoas com suas imagens públicas.

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Daí o seu prenúncio de que a jovem Jo-Ann pode ser uma atriz mais interessante e madura do que a garota metida em romances extraconjugais e brigas com os paparazzi. Quando de fato a conhecemos, vemos que Val estava certa. Para Maria, porém, influenciada por uma dezena de vídeos no YouTube, Jo-Ann parece ser tudo o que ela repudia e, portanto, incapaz de representar Sigrid. Em outra instância, incapaz de representar a própria Maria vinte anos antes.

Enquanto a atriz ri debochadamente do personagem de Jo-Ann em seu último filme (propositalmente uma ficção cientifica parecida com a estrelada por Anna Scott em Um Lugar Chamado Notting Hill), Val sai em defesa da menina e confronta Maria: “Apesar de seus superpoderes, ela é emocionalmente indefesa. Ela sabe que será sua ruína, mas é a realização de um desejo. É poderoso”. A história soa familiar?

Val ajuda Maria com o texto da peça, ficando com as falas de Sigrid. Maria continua presa ao passado e rejeita a suposta ingenuidade de Helena. Valentine é precisa ao apontar o problema: “O texto é como um objeto, sua percepção depende de onde você está olhando”, e o pedestal em que Maria coloca sua Sigrid não a ajuda em nada a entender Helena.

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Apesar dos diálogos serem visivelmente entre as personagens de Maloja Snake, a névoa emocional que dá o tom das conversas parece ser usada propositalmente por Maria para extravasar a tensão sexual que cerca sua relação com a assistente. Val é desencorajada pela visão estreita da chefe sobre o universo artístico e sobre a própria peça, mas embarca nos ensaios como que para satisfazer a atriz, porque também existe alguma satisfação em ser, como ela logo percebe, a verdadeira Sigrid da história.

Completamente convincente no papel, Kristen Stewart entrega uma das melhores performances de sua carreira. Seu trabalho de composição do personagem não pode ser desmerecido – já aprendemos a não duvidar de Kristen Stewart? –, mas é fato que algumas falas de Valentine não soariam estranhas se fossem ditas pela própria atriz. Na boca da assistente, porém, contribuem para o fascínio que emana de um infiltrado no mundo do cinema que não perdeu a coragem de impor sua visão crítica sobre o glamour midiático que os cerca – um pouco como o próprio Assayas.

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A mesma ironia está presente na escolha de Juliette Binoche para a personagem que teve momentos de estrelato e, agora, indiscutivelmente perde espaço para a nova geração, senão nos papeis, pelo menos na atenção dada pelos paparazzi, pelos jornalistas e pelo próprio público. Binoche, que alçou à fama depois de também interpretar uma atriz, em um drama roteirizado justamente por Assayas e André Téchiné – Rendez-vous (1985) –, recebe a farpada com absoluta classe. A sátira até nos faz perguntar se ela finalmente teria se cansado de “ficar pendurada por cabos de aço em frente de telas verdes”, como diz Maria após recusar um papel no último X-Men.

As várias camadas de metalinguagem propostas por Assayas tornam Acima das Nuvens uma obra bem conectada a seu tempo. Só o fato de ter sido lançados em Cannes no mesmo ano em que Mapa para Estrelas, já é capaz de criar um diálogo perfeito com o filme de David Cronemberg, ainda que o cinismo do diretor se oponha à gentileza com que Assayas trata seu encanto pela arte da atuação, o fazer cinema e, de certa forma, a crítica.

O tempo se ocupará de transformar algumas dessas sutilezas sarcásticas em anacronismos quase imperceptíveis. Esquecidas as circunstâncias que ironizam o elenco escolhido a dedo, o diretor, o próprio filme e o cinema, o roteiro perderá um pouco de sua profundidade. Porém, longe do que o torna um clichê, assim como Maria por fim se mostra excepcional em cena, Acima das Nuvens permanecerá um fascinante comentário sobre a arte, a vida, e as Helenas que usamos para conectá-las – ainda que nos deixe com a cabeça assim, um pouco nas nuvens.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.