Retrospectiva 2014: escolhas da redação

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O nosso “filme do ano” não foi necessariamente do ano. Explicamos: em vez de fazer o clássico top 10, a equipe do take148 revirou a lista dos filmes vistos em 2014 para encontrar o que mais marcou, colocando em pauta não só nossos gostos, mas também histórias pessoais. O resultado é uma variedade de épocas, gêneros e emoções, que retratam bem as diferentes personalidades que contribuem com o site.

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[authorbox authorid=”3″ title=”E.T – O Extra-Terrestre (De Steven Spielberg, 1982)”]Como alguém que raramente se lembra de citar Spielberg entre os grandes diretores, foi com surpresa que percebi a importância que E.T. teve no meu ano. Mas não é por isso que o filme entrará para minha lista de favoritos – seu personagem principal é um dos seres mais nojentos que já vi, e isso sozinho detona qualquer chance. Por mais que eu tente elucidar meu desgosto, é impossível negar que, como clássico que é, já o assisti milhares de vezes, mas o legal foi ver que ele serviu a propósitos diferentes ao longo dos anos.

Na primeira fase, na posse de um VHS, lembro bem das pessoas que assistiram comigo e de comentários em cenas particulares. “E.T., telefone, casa” virou um bordão que ouvi quase diariamente durante muitos anos. Minhas memórias de criança me permitiram nutrir especial afeição pelo filme, ainda que o sentimento fosse mais dirigido a aqueles momentos compartilhados do que à obra em si.

Já grandinha e viciada em tevê e cinema, E.T. tomou um novo significado para mim, uma espécie de relíquia cinematográfica. Relíquia porque é um registro de algumas das expressões mais encantadoras dentre as inúmeras performances formidáveis feitas por atores mirins. Sim, eu falo de Drew Barrymore. Não importa o quão ruim é o novo filme, e quantas escolhas duvidosas ela faça, sempre consigo reconhecer o sorriso sapeca de Gertie, o que a torna o maior paradoxo entre as minhas paixonites.

Mas o motivo de nomear E.T. o “filme do ano” é bem mais louvável. Eu o assisti de novo há menos de dois meses, em um festival, em uma tela de surpreendentes 312 m², debaixo de chuva, vento, pipoca murcha e outras intempéries. A experiência por si só já foi marcante, mas algo tão importante quanto recordações de criança ou o sorriso de Drew Barrymore aconteceu: não consegui parar de prestar atenção na iluminação do filme, especialmente os jogos de luz e sombra. Ser capturada por um detalhe tão particular da fotografia me fez sentir, pela primeira vez, merecedora do título “crítica”. Saí de lá toda feliz e saltitante, e pensando: “se algum dia eu for escrever uma crítica sobre E.T., acho que não vou precisar mencionar o fato dele ser tão feio”.

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[authorbox authorid=”4″ title=”Feitiço do Tempo (Groundhog’s Day. De Harold Ramis, 1993)”]

Se 2014 fosse um filme onde eu fosse o protagonista, seria um filme cujo protagonista foi um cara prolífico, envolvido em muitos projetos, que trabalhou bastante e aprendeu um bocado, mas sempre em projetos alheios. O ano passou e ele não se dedicou nem um pouco aos seus projetos pessoais, porque estava atolado até o pescoço nos “sim” que disse às pessoas ao seu redor. Tudo bem, o loop de Groundhog’s Day é outro, mas preso sempre no mesmo dia, o repórter Phil deve ter experimentado a mesma sensação que o nosso herói quando ambos se encontraram perdidos na armadilha do tempo, que quando vai, não volta jamais.

Mas nem tudo é tão negativo quanto parece. Logo no terceiro ato, quando finalmente entregou a última coisa que outra pessoa pediu que fizesse, o protagonista desse filme nem sabia por onde começar com o que era dele, mas pelo menos ele sabia que agora a história já tinha passado pelo clímax e que o resto do roteiro só trazia um final feliz. Na última cena, Bill Murray e ele saem pra comemorar que, finalmente, estão livres para começar o próximo dia com uma lição importante aprendida.

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[authorbox authorid=”7″ title=”Boyhodd – Da Infância à Juventude (De Richard Linklater, 2014)”]

Em tempos de grande mudança, não pude deixar de me emocionar quando assisti pela primeira vez ao filme Boyhood, há algumas semanas atrás. Fico feliz em poder dizer que em 2014 a minha bagagem cinematográfica cresceu significamente ao ser exposta ao mundo humano e delicado de Wong Kar Wai e até mesmo ao mundo cheio de camadas surrealistas de David Lynch. No entanto, foi o simples Boyhood de Richard Linklater que me deu a chance de olhar pra dentro e entender os devaneios de um ano em que praticamente tudo mudou.

Começo em 2015 uma nova etapa. A etapa que determina aquele estágio bastante discutido e questionado na obra de Linklater; a almejada independência e liberdade. Termino 2014 com os mesmos 19 anos que Mason começara sua nova etapa.

Será um novo começo pra mim também?

Desde os 15 faculdade e carreira são assuntos sérios, até mesmo quando era criança e costumava dizer que queria ser surfista, goleira e até mesmo frentista, e agora no qual eu não sei se devo ser jornalista, psicóloga, professora… Coisa de gente grande. Decisão de gente grande.

Eu já sou gente grande?

O filme me fez perceber aquele famoso clichê de que a vida passa rápido demais, e que muitas vezes nós a apressamos ainda mais, na vontade de querer realizar nossos sonhos, alcançar nossos objetivos, fazer algo grande e importante, significativo.

Mas por que a ideia de que a grandeza está no futuro? Em realizações acadêmicas, financeiras, amorosas? A obra de de Linklater passa a mensagem curta e simples: tudo é agora. A felicidade, realização e os pequenos traços de personalidade que nos tornam humanos gritam pela nossa atenção o tempo inteiro, o problema é que estamos tão ocupados procurando por eles no amanhã que não somos capazes de enxergá-los bem aqui na nossa frente. Boyhood me mostrou que o momento nos aproveita, portanto não temos controle sobre eles. Ou talvez até tenhamos. O importante é notá-los. Vivê-los. Percebê-los. Ele está aqui e, nós… também estamos. Também somos.

Talvez eu tenha pecado um pouco em perceber os momentos que 2014 me proporcionou, mas 2015 vem aí e nunca é tarde para começar a ser.

Eu quero ser grande, ou melhor, eu sou grande.

Eu sou.

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[authorbox authorid=”12″ title=”Vá e Veja (Idi i Smotri. De Elem Klimov, 1985)”]

Vi muitos filmes esse ano, mas poucos me marcaram tão profundamente quanto o drama de guerra russo Vá e Veja. Sei que um filme é bom quando ele te deixa completamente absorto, sem saber o que pensar ou como descrevê-lo. E esse drama de um garoto bielo-russo é um dos filmes mais cruéis, densos e devastadores que já vi sobre guerra.

Muito curioso também a abordagem única, uma vez que o filme se foca em uma perspectiva completamente nova ao mostrar os crimes sofridos pelos soviéticos, coisa pouco comum nos dramas de guerra hollywoodianos, onde, com frequência, é impensável um filme de guerra sem que mostre os abusos sofridos pelo povo judeu.

O diretor Elem Klimov é seguro ao criar uma atmosfera aterrorizante que vai pouco a pouco reduzindo a sanidade do protagonista em um processo de desumanização. E também é inteligente na maneira como mostra o amadurecimento do rapaz frente aos horrores da guerra. Seu discurso anti-belicista impressiona da primeira à última cena. É o cinema enquanto um verdadeiro recurso para os russos exporem para o mundo suas feridas da guerra.

Vá e Veja é uma verdadeira aula de cinema, principalmente no seu uso de som. A sequência de um bombardeio que envolve o personagem Florya Gaishun (Aleksei Kravchenko) é de uma sutileza e de uma inteligência fílmica fantástica, pois demonstra todo o poder do som em prol da narrativa. Além dos ótimos usos de steadicams que dá uma imersão enorme e que favorece o tom opressivo da obra.

Aleksei Kravchenko é um ator sublime e o diretor faz questão de explorar as feições duras e cheias de linhas do ator. Drama (ou terror?) obrigatório para qualquer cinéfilo. Provavelmente o melhor filme de guerra já feito, me desculpe à torcida de Apocalypse Now. Um filme em que o realismo narrativo proporciona uma atmosfera perturbadora e uma experiência única. Um filme que disseca toda a loucura da guerra. E essa jamais foi tão bem representada.

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[authorbox authorid=”9″ title=”Quando Duas Mulheres Pecam (Persona. De Ingmar Bergman, 1966)”]

Em um ano com pipocões divertidos, apenas um filme conseguiu me conquistar: Persona, de Ingmar Bergman.

Divido o meu tempo de cinéfilo entre as estreias e clássicos que nunca vi, e a experiência cinematográfica que o sueco filósofo me proporcionou marcou de verdade.

Foi uma pura aula de cinema. Bergman e sua obra-prima mostraram que não é preciso ter uma história cativante e diálogos incessantes para se fazer um filme interessante. Em Persona, ele trata o telespectador como alguém inteligente, que sente e entende o que passa no filme apenas pelo que está vendo. Persona é uma obra capaz de absorver nossa atenção e levar nossa mente a analisar por horas o que o filme tenta nos demonstrar. Mesmo não pegando a mensagem logo na primeira vez, a intriga persiste e somos imediatamente levados a assistir de novo e de novo. E se um diretor é capaz de fazer isso com uma direção esplêndida e forçar performances soberbas de seu pequeno elenco (Liv Ulman e Bibi Andersson), o resultado é uma obra de arte.