A Família Bélier

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O mais recente filme do diretor francês Éric Lartigau, emergente do cinema de absurdo, tem muito pouco em comum com sua obra, a não ser o tema “afirmação de identidade”, que havia aparecido em O Homem que Queria Viver a sua Vida. A Família Bélier é uma comédia um tanto realista, que trata de um assunto que não costuma frequentar as telas de cinema.

Rodolphe (François Damiens), Gigi (Karin Viard) e o filho Quentin Bélier (Luca Gelberg) são surdos-mudos, sendo Paula (Louane Emera), a filha mais velha, a única que não tem problemas de fala ou de audição. É Paula a responsável por traduzir em linguagem de sinais o que está sendo dito na tevê, atender os clientes na feira onde vendem os queijos produzidos na fazenda da família e até mesmo explicar os problemas sexuais dos pais em uma visita ao ginecologista.

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Os Bélier são unidos, tanto pela compreensão quanto pela necessidade. Mas a relação de Paula com os pais fica tensa quando sua voz magnífica é descoberta pelo mal-humorado Sr. Thomasson (Éric Elmosnino), professor do coral do qual ela participa na escola.  “Um diamante que precisa ser lapidado”, ele diz. Apesar do ressentimento por ter se tornado professor em uma escola do interior após uma breve carreira nos palcos, Thomasson convence Paula a se candidatar a um concurso de rádio, em Paris, que daria aos vencedores a chance de estudar música em uma prestigiada escola na cidade.

A ironia da relação entre surdez e música pode nos escapar à percepção no início, mas Lartigau consegue nos inserir no mundo dos Bélier, e logo fica claro o porquê de Paula ficar tão indecisa. Seus pais não podem apreciar música e, portanto, não conseguem entender sua vontade de partir para Paris para se dedicar ao seu dom. Além disso, o timing não é dos melhores: Rodolphe resolve se candidatar à prefeito e Paula se sente responsável pelo negócio da família, que poderia fracassar sem sua presença.

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Apesar de a obra ser uma comédia, a ideia de que um falante seria imprescindível em uma família de surdos é tratada com seriedade e honestidade. Na família, Paula é a diferente, e essa inversão garante momentos desconcertantes e talvez impensáveis – é difícil ver Gigi confessar à filha que desejou que ela fosse surda também.  No primeiro momento, Paula se vê como indispensável, porque acatou todas as responsabilidades delegadas pelos pais. Felizmente, ela se percebe um atalho na comunicação, e não o único caminho possível. Assim como os Bélier sobreviviam antes do nascimento da filha, vão sobreviver quando ela for embora.

O aparente paradoxo da paixão de Paula pela música se desfaz em duas lindas cenas, que demonstram a sensibilidade da garota à condição dos pais e também a aceitação desses sobre a escolha da filha. Se nunca será possível ouvir a voz de Paula, é possível senti-la. É o que faz Rodolphe, colocando as mãos em sua garganta para receber as vibrações das cordas vocais.  E quando Paula traduz em linguagem de sinais a música do concurso, os pais finalmente entendem que poderão fazer parte de seu sonho, mesmo que de uma forma não convencional.

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A seleção da trilha sonora é surpreendentemente agradável. As músicas cantadas em corais não costumam encantar todos os ouvidos, mas os arranjos feitos para as canções de Michel Sardou (“Michel Sardou está para a música francesa como Mozart está para a música clássica”, compara Thomasson) combinam bem com as vozes que destoam na turma, notadamente a de Louane Emera, semifinalista do The Voice francês. Os temas destacados nas canções se encaixam perfeitamente nas situações vividas pelos personagens e contribuem para a intensidade de certos momentos.

Mas se para fazer humor com deficiências tem que se pisar em ovos, as piadas de A Família Bélier não são lá as mais politicamente corretas. O sarcasmo está tão presente nas sutilezas (uma vaca preta chamada Obama) quanto em situações mais globais, como o preconceito que os Bélier nutrem contra o desajeitado Rossigneux, que pelo jeito diferente de falar acaba virando piada entre os próprios surdos. Os parisienses também não são poupados. A melhor amiga de Paula, Mathilde (Roxane Duran), dispara comentários sobre a arrogância de Gabriel (Ilian Bergala), “o garoto da cidade grande”, por quem Paula se sente atraída.

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Enquanto o conflito de Paula se resolve de forma emocionante, a falta de conclusão de alguns arcos pode incomodar. A candidatura de Rodolphe à prefeitura da cidade é abandonada, e só vemos sua conclusão nos créditos finais. O mesmo acontece com o romance entre Paula e Gabriel, que se inicia de maneira interessante, mas se esvai ao longo do filme, enquanto a relação do irmão Quentin e Mathilde protagoniza um momento hilário, porém não é retomada. O problema poderia ser resolvido com poucas cenas a mais, mas o roteiro trata essas situações como finais em aberto, o que não são, como vemos nos créditos.

Ao contrário de Luca Gelberg, interpretando Quentin, e Bruno Gomila, vivendo Rossigneux, Karin Viard e François Damiens, dois importantes atores da cena cômica francesa, não são surdos, o que rendeu muita polêmica. O preparo do casal talvez não convencerá aqueles que já estão habituados à linguagem dos sinais, como não nos cativa muito a ideia de atores americanos fazendo personagens franceses, mas será o suficiente para despertar curiosidade em um público que quase não vê personagens surdos ou mudos nas telas de cinema.

No final, a decisão puramente comercial se justificará, porque a presença de Viard e Damiens está fazendo maravilhas por uma bilheteria que provavelmente estaria fadada ao fracasso se não contasse com alguns rostos conhecidos. Felizmente, a mensagem simples, mas importante, chegará ao ouvido do grande público em alto e bom tom: se a surdez torna a família Bélier excêntrica, seus problemas são tão comuns que os tornam quase um clichê, o que, nesse caso, é uma boa lição.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.