Garota Exemplar

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[alert type=red ]Atenção: esse texto contém informações importantes sobre o filme, então se você ainda não viu, leia por sua conta e risco[/alert]

Eu não li o romance Garota Exemplar, escrito por Gillian Flynn e publicado em 2012. No entanto, sei que o livro polarizou os leitores e a crítica desde o momento de seu lançamento, principalmente por sua cota aparentemente igual de misoginia e misandria, dois conceitos que raramente andam juntos. Estranhamente, não foi o que aconteceu com a adaptação para o cinema dirigida por David Fincher, que já figura entre os melhores do ano em listas importantes e será lembrado muito gentilmente durante a temporada de premiações.

Sendo assim, pode ser que os questionamentos que farei em seguida sejam solucionados na versão literária (apesar de que alguns claramente não podem ser), mas ainda que fossem, eu diria que Garota Exemplar falha na proposta de ser um filme que funcione longe do livro. Com o roteiro assinado pela própria Gillian Flynn, era de se esperar que funcionasse, mas como sabemos, nem todos os bons autores dão bons roteiristas.

A trama começa com Nick Dunne (Ben Affleck), um escritor tentando se acostumar com a monotonia da vida no interior, chegando em casa para descobrir que sua cozinha se transformou em uma cena do crime que aponta para o sequestro de sua mulher Amy (Rosamund Pike). Quando os problemas do casal começam a ser examinados a fundo pela Detetive Boney (Kim Dickens), Nick passa a fazer parte de um circo midiático que o coloca como principal suspeito pelo desaparecimento. O roteiro interpõe a vida de Nick com narrações de um diário feitas por Amy, o que nos leva a crer que a história do sequestro pode não estar sendo muito bem contada.

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Em sua premissa, é um clássico Fincher. O thriller psicológico, as personalidades intrigantes, a preferência pela fotografia sombria, os cortes sensacionais, todos os elementos estão lá. Mas se analisado por uma lente mais cristalina que o mero reconhecimento de estilo, a execução do projeto parece impor ao diretor regras que não costumam funcionar no cinema. Esconda tudo do espectador, mas não os negue as leis que regem o universo em que a história se passa.

Pelo plano inicial, Flynn e Fincher parecem nos guiar para isso. Encaramos os cabelos loiros de Rosamund Pike por um instante enquanto a voz de Ben Affleck nos confessa a vontade de rachar o crânio da mulher para entendê-la, e logo ela se vira, para ele tanto quanto para nós, e surpreende com um olhar misterioso que só fará sentido na última cena do filme. Flynn de fato entra nos pensamentos de Amy pelo diário, um mundo onde tudo seria possível, mas compromete gravemente a suposta realidade, que deveria independer da visão de Amy, Nick ou qualquer outro personagem.

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David Fincher sabe conduzir suspenses criminais. O fez brilhantemente em Seven e Zodíaco e não tão brilhantemente, mas ainda assim de forma bem plausível, em Millennium. Fincher também sabe contar uma história pelo lado de dentro – transformou Tyler Durden em um dos melhores personagens das últimas décadas e quebrou a quarta parede de forma genial nos dois primeiros episódios de House of Cards. Por que então o diretor das grandes reviravoltas parece tão perdido ao transitar entre os relatos de Amy e o mundo real em Garota Exemplar?

O dito suspense se esvai antes de um quarto de filme. Acompanhamos todas as provas da inocência de Nick, ou pelo menos todas as não-provas de sua culpa. Sua surpresa é genuína ao chegar em casa e encontrar cacos de vidro espalhados pelo chão. Sua colaboração com a polícia é completamente crível. Os sorrisos falsos que aparecem nos noticiários com a legenda de “psicopata sorridente” são sempre encomendados por alguém de fora. Além disso, logo fica evidente que falta a Nick o intelecto para arquitetar um crime de tamanha complexidade. Fosse Ben Affleck um ator capaz de criar mais camadas para seu personagem e, talvez, poderíamos ficar em dúvida. Mas na falta da profundidade de Nick, só a desatenção serviria como refúgio para a incerteza.

A esse ponto já conhecemos a cabeça de Amy o suficiente para deduzir que ela forjou o próprio sequestro. Ainda há perguntas a serem feitas: ela está viva?, qual  o motivo disso tudo?, o que vai acontecer com Nick? Algumas são respondidas, mas nem todas, e nem de forma tão inteligente quanto as circunstâncias que nos faz formulá-las em primeiro lugar.

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Pelos insights de seu diário, Amy vai sendo construída de forma precisa. Ela não é, e nunca seria, a esposa submissa à infidelidade e ao descaso do marido. Ela estudou nas universidades mais prestigiadas do país, vem de uma família rica (ainda que um pouco disfuncional), sempre esteve acostumada a ser cortejada e apreciada pelo background erudito. Amy deixa bem claro o que não espera de um casamento, ainda que não fique tão claro o que de fato ela espera. Por estar tão bem detalhada, é uma surpresa quando ela parece não saber adaptar seu plano depois de uma desavença com a nova vizinha que faz com que ele tenha que ser repensado.

Rosamund Pike dá alma e credibilidade a Amy. Em suas feições angelicais se esconde a beleza das vilãs clássicas enquanto a silhueta fantasmagórica nos convida a questionar seus motivos mais uma vez. Ouvimos Amy explicar com detalhes como montou a cena do crime e criou as circunstâncias incriminadoras. Ela é metódica, minuciosa, não deixa rastros. Um esquema cuidadosamente pensado durante meses. Por causa de sua sofisticação, de novo nos atinge com espanto que o único crime que finalmente será cometido seja planejado dentro de poucos dias.

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Se não bastasse, o desfecho auto destrutivo de Amy lhe cai como uma estupidez em nome do amor, um crime bem mais passível de punição que o que a deixa coberta de sangue. Pela última vez, nos perguntamos seu motivo. A falta de resposta coloca em xeque todo o entendimento que tínhamos sobre a personagem. “Sociopatas são assim”. Pode ser, mas o tempo gasto na composição do personagem parece desperdiçado à luz do “porque sim” e soa como um trabalho feito pela metade.

Flynn parece recorrer ao cinema para descrever os efeitos visuais que a escrita não lhe ofereceu. Claro que nenhum paciente dá entrada no hospital travestida em sangue seco e sai de lá um dia depois sem ter se dignado a um banho. Mas a encenação Carrie-esca é necessária para guiar a pauta das matérias que estarão no próximo noticiário, ilustradas pelas fotos daquela saída triunfal.

Nenhum detetive trabalha acompanhado somente de um guarda em um crime que choca o país, mas o arranjo é essencial para explicar os estalos da Detetive Boney ao longo da investigação, e posteriormente, vital para que ela “tenha” que abandonar o caso. A farsa criada por Amy vai aos poucos aprisionando a realidade para que tudo funcione exatamente como ela quer.

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Claro, o roteiro de Garota Exemplar tem seus pontos altos, principalmente no segundo ato, quando transforma a guerra pela inocência na guerra pela opinião pública, liderada pelo “advogado dos assassinos de esposas” Tanner Bolt (Tyler Perry). O comentário sobre a relação do público com o que há de pior no jornalismo – a arte de destruir reputações – é perverso e absolutamente real, além de ser a linha mais interessante do enredo após a confissão de Amy.

Fincher teria a chance de salvar o filme se fizesse o que mais assombra leitores que aguardam adaptações para o cinema de suas obras favoritas: mudasse o final. Aceitando-o como ele é, no livro e no filme, prevalece a sensação de que os próximos passos do casal Dunne seriam bem mais interessantes do que a história que os levou até aquele ponto. Seria a brecha para uma sequência? Senão, talvez em dez anos Gillian Flynn chegue na solução certa para um remake: se Amy tivesse se matado como o plano inicial sugeria, Garota Exemplar daria uma ótima história de fantasmas.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.