Os grandes feitos do Studio Ghibli

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Tudo começou em um espaço de aproximadamente 300m² e uma equipe de 90 pessoas. Limitados pela produção da série de TV, Heidi, Hayao Miyazaki e Isao Takahata uniram-se para o nascimento de uma das produtoras mais importantes para a história do cinema: Studio Ghibli.

“O Quente Vento do Deserto do Saara”. Essa é a definição de Ghibli. O significado da palavra chega a ser cômico, levando em conta a forte influência do tal “vento” para a história da sétima arte. Na década de 1980, a dupla Miayzaki-Takahata deu vida ao primeiro filme do estúdio, com a parceria de Toshio Suzuki, Laputa: O Castelo do Céu.

O filme levou mais de 700 mil pessoas aos cinemas e gerou boas críticas, sendo esse apenas o primeiro de sucesso de uma lista gorda de “filmes mais assistidos no Japão” dos anos que se seguiram.

Dois anos mais tarde o mundo deleitou-se com duas obras-primas da dupla dinâmica: Meu Amigo Totoro (Miyazaki) e Túmulo dos Vagalumes (Takahata). Em apenas dois anos de existência, o Ghibli foi capaz de superar as barreiras do tempo de criação e também de investimentos, realizando dois filmes geniais, sem comprometer a qualidade de produção dos mesmos.

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Miyazaki e Takahata

As obras foram muito bem recebidos pelo público e pela crítica. Os personagens, em especial, Totoro, foram imortalizados por seus admiradores. Tanto sucesso fez de Totoro a logo da empresa.

Adquirindo cada vez mais admiradores por todo o mundo, o estúdio enfrentou neste momento um de seus primeiros desafios. O escritório era pequeno para uma quantidade razoável de funcionários. Normalmente, os empregados de um estúdio de animação são pagos de acordo com a quantidade de frames que desenham. Mas, preocupados em estarem desvalorizando os esforçados e jovens idealizadores que estavam por trás do sucesso dos filmes, os criadores passaram a investir em marketing, e também na procura de um espaço maior para as suas instalações.

Tais mudanças tiveram uma resposta imediata e, sem querer perder tempo, os empresários cineastas investiram o dinheiro adquirido em mais produções, que mais uma vez superaram expectativas e se tornaram grandes sucessos, aumentando ainda mais o lucro do estúdio.

Então em um espaço de 1100m², o novo projeto, Porco Rosso, lançado em 1992, foi o filme mais visto no Japão e um sucesso estrondoso de bilheteria, superando até mesmo A Bela e a Fera, da Disney, lançado no mesmo ano.

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Porco Rosso, 1992

Em um momento de grande estabilidade, o Studio Ghibli não parava de produzir. Tinha se tornado independente depois da compra de câmeras computadorizadas, não precisavam mais de empresas de fora para a realização de seus filmes. Com um sucesso atrás do outro e histórias que tocaram o público em todos os cantos do mundo, eles estavam prontos para ousar um pouco mais e dar mais espaço aos jovens que estavam formando carreira no estúdio e em 1995 foi lançando Sussurros do Coração, dirigido por Yoshifumi Kondō. Kondō já havia participado do processo de criação de três outras importantes obras, sendo elas Túmulo dos Vagalumes, O Serviço de Entregas de Kiki e Only Yesterday. Em 1998, Kondō foi vítima de um aneurisma e a terrível tragédia viria a se tornar mais um dos desafios do Studio Ghibli.

Um ano antes, Miyazaki havia trabalhado duro em um dos filmes mais influentes e conhecidos mundialmente da história do estúdio, Princesa Mononoke. Foi um projeto muito trabalhoso, o que fez com que Miyazaki quisesse se aposentar, se envolvendo nas produções apenas como roteirista ou assistente. No entanto, após sofrer a grande perda de Kondō, ele buscou outros projetos, fundando uma outra empresa, a Butaya, com uma nova visão que mudaria o rumo dessa história.

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A Viagem de Chihiro, 2001

Este seria, então o melhor momento do estúdio até hoje, com o lançamento de A Viagem de Chihiro, em 2001. O filme concorreu ao Oscar na categoria de Melhor Animação, e foi o primeiro filme estrangeiro a vencer a esta categoria. A obra recebeu também o Urso de Ouro no Festival de Berlim e é considerado até hoje como um dos filmes mais influentes da história do cinema, fortalecendo elementos já presentes em outras obras de Miyazaki, como a presença de personagens femininas, na faixa dos 9 aos 12 anos, que ao enfrentarem situações de aprendizado cresciam e amadureciam. Outros elementos, como a natureza, o voo e forças sobrenaturais também passaram a serem mais observados e repetidos em projetos futuros.

Após o sucesso do filme, mais uma vez Miyazaki anunciaria a sua aposentadoria e, para a felicidade de seus admiradores, também mais uma vez voltaria atrás e lançaria outros filmes, mais trabalhados na computação gráfica, como O Reino dos Gatos (2002), O Castelo Animado (2004) e Contos de Terramar (2006), dirigido pelo filho de Miyazaki, Goro Miyazaki.

Anos mais tarde, depois de mudanças na administração e mais prolemas típicos do estúdio, eles arriscaram outra vez. Ponyo, lançado em 2008, foi desenhado completamente à mão e tornou-se mais um dos filmes do estúdio a figurar na lista dos mais vistos do Japão, além de ter sido lançado por todo o mundo.

John Lassater, chefe de criação de outro estúdio importantíssimo para o mundo da animação, a Pixar, é um dos admiradores do Studios Ghibli e já fez diversas referências à ele em seus filmes. A Disney também se tornou-se uma grande distribuidora dos filmes de Miyazaki no Ocidente.

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Homenagem a Meu Amigo Totoro (1988) em Toy Story 3 (2010)

A receita sempre pareceu certa nas mãos da dupla Hayao-Takahata, mas mesmo assim o estúdio continuava a enfrentar problemas de estrutura. Depois de mais alguns projetos e o notável Vidas ao Vento, indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2013, Myazaki anuncia sua aposentadoria definitiva (será?) e pouco depois o estúdio anunciaria o fechamento de suas portas. A notícia causou polêmica e muitos dos admiradores ficaram tristes ao que parecia ser o fim definitivo do Studios Ghibli. Uma nota de esclarecimento foi postada no site Studio Ghibli Brasil, explicando que eles apenas estariam passando por um processo de reestruturação e restauração do estúdio.

Mesmo com o futuro ainda incerto devido a aposentadoria de Miayzaki, o produtor do estúdio, Toshio Suzuki não descartou a possibilidade de manter a produção dos filmes “eternamente”, mas seria preciso passar por uma restauração completa, que seria herdada pelas próximas gerações. Infelizmente, algumas semanas mais tarde, Miyazaki revelou que não acredita mais na produção de boas animações feitas à mão, e que “a era do lápis, papel e filme está chegando ao fim”.

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Miyazaki e John Lasseter

Miyazaki, aos 73 nos de idade, também recebeu o prêmio honorário da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood por suas contribuições a indústria cinematográfica. O responsável pela entrega do prêmio foi o fanboy, John Lasseter, que ao conceder o prêmio ao diretor agradeceu e declarou que o mesmo “influenciou desde sempre a animação inspirando artistas que trabalham em nosso meio e iluminando com o seu potencial ilimitado”, e que “em tamanho, em influência, na variedade e qualidade do corpo de sua obra, nunca haverá outro rival.” Clique aqui para ver o vídeo da entrega.

Apesar de ter anunciado que não vai mais trabalhar com longas, Miayzaki – que sempre esteve envolvido em causas sociais, especialmente em seu país – segue trabalhando em áreas de recreação infantil em Fukushima, local que sofreu bastante com a crise nuclear.

Analisando a história até aqui, é fácil apontar os altos e baixos do estúdio, mas principalmente a importância de tantas obras e de tanto trabalho na vida dos milhares de admiradores e na história do cinema e da animação. O Studio Ghibli revolucionou o campo do anime, rompendo barreiras entre um certo preconceito pela cultura oriental, e comoveu o mundo inteiro com histórias bem trabalhadas e muito especiais.

Mesmo com as nuvens carregadas que sobrevoam o futuro da empresa, ficam guardadas no peito e na memória a beleza e magia dos filmes, tão importantes para os amantes da sétima arte e para aqueles que aguardam ansiosamente pelos próximos projetos dos mestres responsáveis pela grandeza que representa hoje, e sempre, o Studio Ghibli.

Para assistir: The Kingdom of Dreams and Madness

Quem escreveu

Juliana Uzeda
Amante de cinema, roubou para si toda a bagagem cinematográfica da mãe. Fica inspirada e se emociona nos filmes em que vê um pouco de si mesma. É incapaz de escolher um filme favorito. Gosta de ficção científica, fantasia, gângster, máfia, heróis e clichês. Fissurada por personagens neuróticos a la Woody Allen a loucos transtornados a la Kubrick. Aspirante a estudante de cinema, não se imagina fazendo outra coisa (apesar de tentar).
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    artigo maravilhoso =D

  • Augusto

    esse documentário é incrível e esse post está maravilhoso. parabains.