O Abutre

NIGHTCRAWLER

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Filmes com a temática sobre os podres por trás do jornalismo têm aos montes. Há pouco mais de 60 anos, Billy Wilder lançava o seu cínico e poderoso A Montanha dos Sete Abutres (1951), no qual conta a história do repórter veterano Charles Tatum (Kirk Douglas) que, após ser demitido por mais de 11 jornais, descobre um novo fato para explorar.

Ao encontrar Leo Minosa (Richard Benedict), um homem que ficou preso em uma mina enquanto buscava por “relíquias indígenas”, Charles se vê diante da ocasião perfeita para transformar o acidente em uma tragédia que ganharia proporções nacionais, visando o lucro próprio e o sensacionalismo midiático.

A semelhança entre Charles e o protagonista de O Abutre, primeiro longa de Dan Gilroy, não está meramente na tradução do título do filme. Há uma analogia clara com o jornalismo enquanto uma prática egoísta e predadora, como os abutres. Uma narrativa que muito lembra o cinismo ácido de Sidney Lumet, em seu clássico Rede de Intrigas, no qual o jornalismo é indiferente a todo sofrimento humano, lucrando sob a luz de uma tragédia.

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Gilroy é responsável pelo roteiro de filmes como o inventivo O Dublê de Anjo e o blockbuster Gigantes de Aço. Assinado por ele, o roteiro de O Abutre é inteligente ao mostrar a decadência moral e a loucura psicológica de Louis Bloom (Jake Gyllenhaal). Bloom é um homem completamente imoral, que vê a chance de lucrar vendendo vídeos caseiros de acidentes para Nina Romina (Rene Russo), responsável pelas matérias sensacionalistas de um jornal local.

O diretor constrói gradualmente, e de maneira bastante ácida, a jornada de Bloom em uma rede de loucura em que cada vez mais se sente absorvido pelo universo caótico da cidade. Uma Los Angeles fotografada de forma brilhante, com cores escuras e em tons de azul.

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O caráter cínico do longa-metragem em sua abordagem é talvez o que mais o aproxime do roteiro produzido por Walter Newman, Lesser Samuels e Billy Wilder, responsáveis pela A Montanha dos Sete Abutres. Impossível não ficar satisfeito com um roteiro que consegue apresentar seu personagem e suas percepções de mundo resumidas em uma só frase: “E se meu problema não é que eu não entenda as pessoas, mas que eu não goste delas?”.

O desempenho de Jake Gyllenhaal é notável. Nos últimos anos, ele emplacou em diversas produções bem sucedidas. Interpretou brilhantemente seus papéis em Zodíaco, Os Suspeitos e O Homem Duplicado. Em O Abutre mostra, talvez, a composição mais metódica de sua carreira, inclusive fisicamente. Gyllenhaal emagreceu dez quilos para o papel e reproduz a postura de um abutre, com os ombros propositalmente elevados, braços próximos ao corpo e os olhos sempre arregalados e curiosos. Impressiona em seu personagem as sutilezas escolhidas para o papel, sejam seus trejeitos, o andar ou a forma de sorrir nervosamente. Gyllenhaal dá uma dimensão real e tridimensional a Louis Bloom, o que parece vir da postura que adotou quanto à preparação de seus papeis desde Marcados Para Morrer (2012), se dedicando até seis meses à elaboração de um personagem.

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Quanto ao resto do elenco, vale também ressaltar a ótima atuação da Rene Russo, em uma personagem vítima e algoz da sua própria ambição. Sua construção muito se assemelha com Diana, interpretada por Faye Dunaway em Rede de Intrigas. É gratificante observar como um dos diálogos mais marcantes da obra de Lumet ainda se mostra tão atual em O Abutre:  “Você é a televisão encarnada, Diana. Indiferente ao sofrimento, insensível à alegria, toda a beleza da vida é reduzida a um escombro comum da banalidade. Guerra, assassinato, morte são tudo a mesma coisa para você, iguais a garrafas de cerveja”.

Muito além das atuações e do roteiro cínico engenhoso, o filme é fascinante, por ser tão crível e realista. O Abutre é uma grande crítica à mídia sensacionalista que age precisamente como abutres, esperando pela próxima morte para se alimentar.

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Quem escreveu

Patrick Martins de Carvalho
É apaixonado por cinema, sobretudo o oriental. Jamais faz hierarquia de gênero. Assiste de tudo, de cinema clássico americano à trasheira de cinema B, C e D. Atualmente cursa filosofia com foco em áreas distintas como teoria crítica, filosofia antiga e cinema. Além disso, tem uma página de tirinhas online em que publica histórias curtas sobre o cotidiano, sonhos e memórias. Metade do tempo está tendo overdose de conhecimento em fim de semestre e na outra metade sendo um velho rabugento.