Camp X-Ray

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É difícil sintetizar a visão hollywoodiana sobre a guerra. Principalmente sobre a guerra justificada, a famosa guerra à guerra, ou guerra ao terror. Longe da suposta realidade dos campos de batalha à lá Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror, A Hora Mais Escura) e das consequências pessoais mostradas em Entre Irmãos, o primeiro filme do diretor de arte Peter Sattler, Camp X-Ray, encontra um espaço ainda não explorado entre as obras do gênero.

Kristen Stewart interpreta Amy Cole, uma soldada norte americana recém chegada à base naval de Guantánamo (ao sul de Cuba), onde vai desenvolver uma estranha relação com um dos prisioneiros muçulmanos capturados após os ataques de 11 de setembro. Prisioneiros não, detentos. Como explica Cole, prisioneiros estão sujeitos às Convenções de Genebra, inflexíveis quanto ao uso de tortura, detentos não.

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Praticamente sozinha em um mundo de machões que competem pelo maior número de flexões, Cole (um sobrenome que também é comum entre nomes de meninos) logo se mostra tão durona quanto eles, reagindo com violência ao ataque de um detento. O coque bem amarrado que aparece ao centro da tela em inúmeras tomadas esconde qualquer traço de feminilidade. É difícil ser mulher em uma corporação historicamente machista, mas é mais difícil ser uma mulher em posição de poder em um lugar onde as crenças islâmicas estão presentes, ainda que sejam só minimamente respeitadas pelos guardas. No entanto, um detento parece pensar um pouco diferente.

Cole passa de cela em cela oferecendo livros da pequena biblioteca sobre rodas sem muitos problemas, exceto a agressividade de um não falante do inglês. Mas é um dos “tradutores” da prisão, Ali Amir (Payman Maadi, do iraniano vencedor do Oscar A Separação), o detento 471, que chama a atenção da soldada pela insistência ao pedir o último livro da saga Harry Potter. Ele sugere que os guardas anteriores esconderam Harry Potter e as Relíquias da Morte para provocá-lo – uma semente tão previsível que basta aguardar sua colheita.

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Ali devolve Os Poemas de Emily Dickinson, clama pelo Harry Potter e, por fim, se contenta com My Ántonia. Todos livros escritos por mulheres, exceções em um terreno que também é dominado por homens. O detento logo troca o sobrenome masculinizado da soldada por “Loirinha” e após as várias tentativas de contato, é comparado por ela à Hannibal Lecter, “um cara em um filme que fala demais”. Lecter, é bom lembrar, é um personagem que também estabelece uma relação contraditória com a mulher do outro lado das grades, a detetive Clarice Starling.

Todas essas sutilezas metafóricas do roteiro de Sattler surgem como uma redenção após um começo insistentemente explícito. Oito anos antes, imagens das Torres Gêmeas transmitidas por um canal árabe no apartamento de Ali, seus vários celulares e sua captura em circunstâncias suspeitas contribuem para levantar a dúvida sobre sua inocência, ainda que isso de fato pouco importe quando a junção entre as realidades começa a acontecer, colocando em xeque os dois lados da equação.

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Cole é instintivamente atraída pelo falatório literato de Ali. Enquanto os outros detentos são um tanto estereotipados como árabes barbudos e agressivos, o 471 tem algo de diferente. Ele é alemão, foi à Universidade e faz desenhos detalhados em copos e guardanapos. Ao mesmo tempo, Cole é a única a esboçar alguma reação aos seus desaforos. Talvez por ingenuidade, talvez por piedade – não ficamos sabendo –, mas definitivamente um traço dos lapsos de civilidade que tanto a faz repensar a punição de um detento por mau comportamento quanto reportar a má conduta de outro soldado para seu superior.

Kristen Stewart se beneficia dos seus vícios de expressão e seus gaguejos (praticamente tudo que a fez ser considerada uma atriz fraca pela saga Crepúsculo) para criar uma personagem extremamente complexa, que, às vezes, se comunica só pelo olhar e nunca se entrega completamente. A performance, junto com Acima das Nuvens, a colocará de novo em evidência, como foi Na Natureza Selvagem.

Payman Maadi enriquece a contracena com uma atuação focada em detalhes e closes que faz com que os personagens sejam opostos e, ao mesmo tempo, complementares.

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O corredor onde está a cela de Ali, o quarto de Cole, alguns escritórios e poucas cenas externas constituem os únicos cenários durante todo o filme, reforçando a ideia de confinamento de praticamente todos os personagens, incluindo os soldados, prisioneiros a seu próprio modo.

Durante as conversas curtas que abrem espaço para a ligação entre a soldada e o detento, a câmera do diretor de fotografia James Laxton passa a enquadrar Cole pelo lado de dentro da cela, colocando a pequena janela de vidro e arame entre o público e seu rosto.Dessa forma, fica indecifrável quem está de qual lado, até que finalmente a porta entre eles desapareça durante o clímax, entregando em uma só cena mais sobre eles mesmos do que no do resto da obra.

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Se a incerteza sobre o envolvimento de Ali é um trunfo para o roteiro, Peter Sattler prefere construir uma Guantánamo que foge dos relatos de maus tratos, abuso de poder e tortura que a colocam como uma das prisões mais controversas do mundo. No entanto, algumas das falas de Ali e a construção delicada da relação dele com Cole funcionam tão bem como protesto quanto cenas de apelo visual em A Hora Mais Escura.

Quando finalmente Ali despe o suposto entendimento de Cole a respeito daquele pequeno universo que os cerca – um show à parte de Stewart – resta uma mensagem simples, mas destruidora: “Nós estamos em guerra”, ele diz, uma guerra que independe daquelas duas pessoas, mas que por vários momentos parece se condensar inteira na porta entre eles.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Deyse Cristina

    Muito boa a crítica! É um filme complexo e com críticas por vezes sutis. Gostei muito dele.