Penso, logo me fazem descer

Plateia_teatro_22111940

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Faço uma nota mental. Missão: escrever um editorial para comemorar o primeiro ano do take148 e a reestruturação do site. Nada muito poético. Editoriais são difíceis, penso em uma das minhas seções preferidas dos jornais e revistas. Raramente as primeiras pessoas ganham voz. Penso num texto escrito por meu pai, que li hoje. “Tão importante e democrático quanto ser ouvido é dar voz aos outros”. Era algo do tipo.

Penso ouvir meu nome dito por alguém de smoking e gravata borboleta. Não sei bem como me comportar, mas as pessoas parecem esperar que eu suba ao palco. Subo. Não sei bem como me comportar, mas as pessoas parecem esperar que eu fale algo. Falo.

“144 filmes. 12 críticas. 17 artigos. Minha produção pessoal em um ano. Todos esses números que eu gostaria que fossem maiores. Mas a vida não é feita só de metas a cumprir; aliás, é feita muito mais de metas riscadas das listas de Ano Novo do que das que serão reescritas nas listas do Ano Que Vem.”

Penso sobre o que disse durante 10 segundos. É tudo que tenho, acho. Não sei bem como me comportar, mas as pessoas parecem não gostar do silêncio. 10 segundos, penso: não sei se rabisco take148 com traços fortes e agressivos ou se reescrevo com uma caligrafia claramente marcada por minhas mãos trêmulas.

Recomeço: “Recriar é sempre mais difícil do que criar. Assim como reescrever se mostra uma tarefa mais árdua e mais demorada que escrever, como constatei durante o primeiro ano de vida deste projeto”.

Vejo na plateia alguém que mexe no celular. Não sei bem como me comportar, mas pessoas mexendo no celular não parecem um bom sinal. Tento ser poética.

“Recriei este projeto para quem desejar partilhar das minhas paixões. Porque as paixões, assim como os filmes, existem para serem partilhadas”.

O alguém na plateia coloca o celular no colo e volta a me encarar. Ufa, penso. Posso voltar a ser pragmática.

“Não posso deixar de agradecer a todos que partilharam comigo o trabalho e a consequente satisfação durante esse tempo”.

Me dou mais 10 segundos. Lembro que ele, o Tempo, foi sujeito do meu primeiro editorial, que nem de longe foi essa bagunça. Não tinha alguém na plateia que mexia no celular. Penso que o Tempo virou meu amigo, mas ainda faz das suas comigo. Rimou, penso.

Ouço a música que serve de aviso aos desavisados. Pela primeira vez sei bem como me comportar: é hora de descer do palco.

Lágrimas, sorrisos e uma salva de palmas. Acho que cumpri bem minha missão.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.