Nós Somos as Melhores!

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Raros são os filmes sobre a pré-adolescência que não focam os pré-adolescentes como público alvo. Raros são os diretores que sabem como proceder com tal ideia. Destes, Lucas Moodysson pode ser considerado um líder. Seu primeiro filme, Amigas de Colégio, de 1998, foi chamado por Ingmar Bergman de “uma obra prima por um jovem mestre”. E não são poucas as comparações entre eles, que renderam ao sueco o título de “herdeiro legítimo de Bergman” – sem medo de ser desproporcional. Seu novo filme, Nós Somos as Melhores!, dá sentido à tudo isso, enquanto paradoxalmente se firma como o mais engraçado e leve dentre a curta (mas fenomenal) filmografia do diretor.

Inspirado em uma história em quadrinhos autobiográfica escrita pela mulher do diretor, Coco Moodysson, o roteiro reitera a força da amizade entre meninas enquanto esbarra no cenário da cultura pós-punk de Estocolmo no início dos anos 1980. Klara e Bobo, aos 13 anos, com seus cortes de cabelo caseiros e roupas maiores do que elas, se autodenominam punks, ainda que ouçam o tempo todo que “o punk está morto” e que o modelo de subversão seguido por elas inclua brincar com lixo, conseguir batatas fritas de graça em uma lanchonete de rede e implicar com aqueles que ouvem Joy Division.

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Klara (Mira Grosin) tem o espírito revolucionário, mas não abandona a alma da pouca idade. Enquanto faz um trabalho de ciências, deixa bem claro para suas colegas que a energia nuclear é um tema importante e que deve ser tratado com seriedade, só para no momento seguinte explodir cidades de arame usando fósforos e ketchup. Crescendo em uma família briguenta mas unida, suas convicções tendem a ser exageradas, mas Klara tem consciência do que o movimento punk representa: “temos que influenciar as pessoas pra que elas se importem com as mesmas coisas que nós”, diz durante uma de suas elucubrações políticas.

Um tanto mais serena que a amiga, Bobo (Mira Barkhammar) frequentemente tenta apaziguar as situações com a tranquilidade de quem não quer subverter nada, mas que também se incomoda com a vida monótona que leva. Às vezes aparenta ser um adulto face ao comportamento infantil dos adultos à sua volta: cuida da mãe divorciada, faz seu próprio jantar, observa seu reflexo no espelho com uma melancolia desconfortante, mas basta cortar a mão para nos lembrar que é uma criança. A empatia entre o público e a personagem surge de forma natural ao se perceber a maturidade infantil de Bobo e são suas cenas que preenchem a dose de drama do filme, sem no entanto conseguir escapar completamente da veia cômica.

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A rotina das meninas ganha um sopro de euforia quando elas decidem criar a própria banda punk, motivadas pelo barulho enlouquecedor dos garotos que tocam no centro comunitário local. Sem saberem nada sobre música ou sequer sobre os instrumentos que irão empunhar, Klara e Bobo veem uma oportunidade de externarem suas preocupações, e ao mesmo tempo fazerem algo que as aproximem de seus heróis da contracultura. Para completar um trio, a religiosa Hedvig (Liv LeMoyne) entra na história com sua família tradicional e uma ingenuidade cativante. Apesar do cabelo comprido e de só tocar violão clássico, ela também passa os intervalos da escola sozinha, o que Klara vê como um motivo para ser susceptível às influências de qualquer um que lhe ofereça amizade.

Em uma cruzada para transformar o comportamento certinho de Hedvig e enquanto a novata ensina sobre acordes e ritmo, logo as três passam a exibir uma rebeldia convincente, que apesar das pequenas transgressões, não deixa de tocar nos pontos comuns do crescimento de toda menina: paixões, ciúmes, festas, bebidas e música.

A única meta que o roteiro propõe, um festival de natal de outro centro comunitário, se torna um momento de explosão de confiança. A banda (que em nenhuma hora faz uma reunião para decidir um nome) vai tocar sua única canção, “Eu odeio o esporte” (“Crianças estão morrendo de fome e você só se importa com seu time de futebol”). Mesmo sem fazer sucesso com a plateia, a reviravolta da apresentação traz profunda sensação de dever cumprido às garotas, tanto quanto ao movimento punk quanto à firmação da identidade do grupo, que acabar por se misturar também com a própria identidade de cada uma. Assim, a satisfação genuína de Klara, Bobo e Hedvig no ônibus de volta para casa carrega o DNA mais puro da infância, um período de descobertas em que o riso é arma contra tudo e contra todos.

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Sem arcos muito bem definidos, mas ainda assim bem plausíveis, o enredo do filme se baseia em pequenos momentos que compõe a realização pessoal de cada personagem e o fortalecimento da amizade entre elas. Simples mas comovente, a história se aproveita enormemente do talento de suas jovens intérpretes enquanto o dinamismo da narração favorece a direção detalhista de Moodysson. O diretor marca a época não só nas músicas barulhentas e rápidas de bandas suecas dos anos 1980, mas também nas roupas e na decoração dos interiores. Sua já tradicional câmera na mão privilegia os closes e evidencia as emoções, quando não está à caça de detalhes cômicos presentes nos cenários.

Lucas Moodysson constrói a comédia com o mesmo comprometimento e cuidado que entregou à tragédia de Para Sempre Lilya ou ao desalento de Corações em Conflito. Se o ponto de exclamação e o próprio título remetem à uma auto confiança arrogante, o diretor pode mais uma vez sorrir, tranquilo de ter alcançado seus objetivos, porque, de fato, Nós Somos as Melhores! é um de seus melhores.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.