Mil Vezes Boa Noite

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No campo da física quântica existe um problema ainda não resolvido, apelidado de problema da medição. Em poucas palavras, o dilema consiste em saber se o mero ato de observar um processo físico pode transformá-lo e, nesse caso, qual será a leitura do observador. O mais recente trabalho do norueguês Erik Poppe, Mil Vezes Boa Noite, trata essa questão científica com grande amparo na realidade. Absolutamente brilhante em seu papel, Juliette Binoche vive uma fotógrafa de guerra que, toda vez que volta para casa, leva junto às cicatrizes causadas pelo o que testemunhou, além de uma enorme aversão à inércia da “vida normal”.

Em seu quarto longa, Poppe empresta à heroína Rebecca traços autobiográficos. Ele mesmo um fotojornalista nos anos 80, entrega à personagem as inquietações que tanto o fizeram ingressar na carreira quanto abandoná-la. “Raiva”, Rebecca responde quando perguntada o porquê da escolha da profissão, ainda que a coragem e a obstinação sobressaiam enquanto ela faz o meticuloso trabalho de acertar o foco da câmera para clicar o absoluto caos.

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A resposta positiva ao problema da medição vem na forma de culpa. Depois de registrar todo o ritual de colocação do colete explosivo em uma mulher-bomba, demonstrando incrível controle emocional, Rebecca provoca a antecipação do atentado suicida em alguns minutos, por causa de sua obsessão – e fascínio – em retratar as dores do conflito religioso no Afeganistão.

Parada em uma rua movimentada de Cabul, ela parece dar cor a uma fala de James Natchwey, um dos mais reconhecidos fotojornalistas da atualidade: “Os horrores da guerra só podem ser expostos bem de perto”. Se ele se refere à distância física, Rebecca se livra da distância emocional. Certa de que influenciou a decisão da terrorista e se sentindo responsável pelas vidas tiradas naquele exato momento como consequência de sua reação precipitada, a fotógrafa ignora a óbvia intenção da autora do ato, mas nem por isso deixa de fotografar. A leitura do observador é a de que suas lentes capturaram um momento que não existiria, não fosse sua própria existência diante daquele momento.

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Levada para se recuperar da explosão na casa à beira da praia, na costa da Irlanda, Rebecca encontra na família um ambiente hostil à sua realização profissional. A filha mais nova, Lisa, parece não entender muito bem a dimensão de seu trabalho, enquanto a mais velha, Steph (vivida pela promissora Lauryn Canny), ressentida pelo aparente abandono, evita conversar sobre o que a incomoda. Na pele de alguém com princípios bem diferentes de seu personagem no épico Game of Thrones, Nikolaj Coster-Waldau se entrega ao papel do marido Marcus, um biólogo marinho encarregado de cuidar sozinho das crianças. Abatido pelo medo constante de perder a mulher em um dos conflitos que ela fotografa, ele escolhe se separar, a menos que Rebecca desista da vida perigosa nas zonas de guerra.

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Entre cafés da manhã onde os utensílios de cozinha se encontram em gavetas diferentes e visitas à escola nos horários errados, a fotógrafa percebe o papel de forasteira que os longos períodos passados fora de casa a impuseram. Durante uma caminhada com alguns amigos, Rebecca não consegue se ater à condição de mera ouvinte – e observadora, – e dá uma opinião agressiva, contrária ao consenso dos companheiros. No momento seguinte, já sozinha com Marcus, ela se dá conta: “Eu devia calar a boca. Não sou boa em viver a vida normal”.

Ironicamente, a convergência entre a necessidade de trabalhar e a vida doméstica vem no crescente interesse de Steph pelas histórias registradas pela mãe. As duas fazem juntas uma viagem ao Quênia, em uma zona teoricamente segura. Rebecca é contratada para fotografar um campo de refugiados, enquanto Steph está ali reunindo retratos para um projeto escolar sobre a África.

É justamente esse laço entre mãe e filha que faz com que Rebecca avalie o pedido do marido para que ela abandone a profissão e tome sua decisão final. Na escola, Steph sintetiza em poucas palavras a importância do trabalho da mãe, em um gesto de solidariedade um tanto incompatível com sua idade, mas amadurecido ao longo de várias explosões sentimentais. Quando, em uma sequência bastante metafórica, Rebecca é “fuzilada” por cliques incessantes disparados pela filha, fica claro que as lentes podem ser bem mais que vitrines de observação; os cliques podem ser invasivos, violentos, e podem imprimir na história sentimentos que não sairiam de outra forma.

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Persistente ao mostrar os atritos sentimentais da heroína, Poppe esquece de passagens que poderiam ser consideradas burocráticas,mas seriam necessárias para maior entendimento do público leigo sobre a profissão de Rebecca. Além de duas discussões via internet com sua editora, não fica claro para quem ela fotografa, onde ou como suas fotos são publicadas e, principalmente, como é possível que ela esteja tão próxima de situações nada corriqueiras até mesmo para um fotógrafo de guerra, como o ritual terrorista em Cabul. Mas se faltam aspectos jornalísticos no filme, tais furos são compensados pela vibrante atuação de Binoche, que consegue transpor as barreiras do inconformismo familiar e provocar empatia no espectador, apesar de todas as suas falhas como mãe e esposa.

Como não poderia deixar de ser, a fotografia da película é muito bem trabalhada. Tanto as fotos tiradas por Rebecca quanto as cenas em que ela se encontra trabalhando são guiadas pelos contrastes entre a luz natural e os aspectos sombrios do terrorismo. O visual quente e colorido das zonas de conflito é sempre tão chamativo que Poppe poderia ser acusado de promover o turismo de guerra, não fossem os discursos de Rebecca, que o tempo todo justifica a beleza artística de suas fotos como o único meio de chamar atenção para os problemas que elas representam: “Quero que as pessoas se engasguem com o café ao abrirem o jornal”.

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Mil Vezes Boa Noite tende a passar rápido demais das sequências poderosas para os problemas de primeiro mundo, mas não chega a perder o equilíbrio. Os três momentos de maior tensão levam o espectador a se comprometer inteiramente com o enredo, o que faz com que as belas e frias paisagens irlandesas sirvam até mesmo de alívio depois de registros tão intensos das zonas perigosas.

Poppe e Binoche preenchem os dilemas um tanto comum dos jornalistas de guerra com as reações extremamente pessoais de Rebecca. A mesma escolha se reflete na personagem: em vez de contar a história geral da guerra, a fotógrafa opta por registrar as particularidades de suas vítimas. Algumas pessoas abdicam de suas próprias histórias para contar as histórias de outras pessoas. Sinal de que, no mundo real, o problema da medição, aquele da física quântica, tem resposta, e ela pode ser terrivelmente cruel.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.