Uma Viagem Extraordinária

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A julgar pelo título, pelas cores vibrantes do cartaz ou até mesmo pelo divertido trailer de Uma Viagem Extraordinária, era de se esperar que o público alvo da mais recente obra do francês Jean-Pierre Jeunet fosse as crianças. Mas o diretor e roteirista do longa, que se tornou uma promessa do cinema mundial com O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, mais uma vez foge do óbvio e, por baixo do visual deslumbrante e do tom de magia, escolhe contar uma história que nada tem de infantil, apesar da tão pouca idade de seu protagonista.

Baseado no romance O Mundo Explicado por T.S. Spivet (2009), do americano Reif Larsen, o filme é centrado no jovem T.S. (Kyle Catlett), um garoto prodígio de apenas 10 anos que se dedica mais à estatística, física e cartografia do que a qualquer outra coisa dita normal para sua idade. O que mantém seus pés no chão é a relação com o irmão gêmeo não idêntico Layton. Juntos, os dois investigam a vida no interior calmo dos Estados Unidos por dois pontos de vista completamente diferentes: Layton, com seu chapéu de cowboy, vê tudo através da mira de uma espingarda, e T.S., com seus cadernos de anotação, prefere as lentes de seus aparatos científicos.

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A família Spivet parece contente em viver um passado construído no presente. O pai (Callum Keith Rennie), de poucas palavras, insiste em manter uma coleção de velharias relacionada à cavalos em um dos salões principais da casa. A mãe, Clair (Helena Bonham Carter), doutora em entomologia, vive entregue aos seus diários de descobertas, mas não consegue aprender a usar uma torradeira. Determinada a sair dali direto para o estrelato, Gracie, a irmã adolescente, demonstra uma ligeira obsessão com concursos de beleza e é a única inconformada com a péssima recepção de celular acarretada por morarem no meio do nada. Cientes de suas particularidades, os Spivet deixam para trás qualquer traço de normalidade e se recolhem a uma bolha de excentricidade quando a família vivencia uma tragédia.

Mais do que nunca, T.S. trabalha incessantemente em suas invenções e, ao enviar o projeto de uma roda magnética, que provaria a existência do movimento perpétuo (um dos grandes problemas da física), para ser analisado pela equipe do prestigioso Instituto Smithsonian, ele é laureado com o prêmio máximo da casa.

Para receber o prêmio, o pequeno precisa atravessar meio país, e decide fazer isso sem deixar mais que um bilhete para a família. Assim, T.S. arruma minuciosamente sua bagagem e parte em uma viagem solitária, a bordo de um trem de carga, esperando chegar a Washington a tempo. O que o faz destoar de uma história infantil são os motivos para a jornada. As aventuras de T.S. Spivet são movidas por dor, culpa e a impressão de ser tratado como esquisito pela própria família, sentimentos abordados na trama de forma visceral.

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O teor pesado que as narrações de T.S. ganham a partir daí fazem perfeita oposição ao que está sendo mostrado na tela. O diretor de fotografia Thomas Hardmeier recria as nuances de Amélie Poulain com o contraste entre o verde e o vermelho, e traz o dourado do primeiro longa de Jeunet, o aplaudido Delicatessen, para preencher a coloração quente que maquia a realidade com tons de fantasia (o trabalho rendeu a Hardmeier um merecido César – equivalente francês do Oscar).

As estripulias da edição, onde mapas, cálculos e rabiscos invadem a tela acompanhados por uma enxurrada de termos técnicos, contribuem ainda mais para o aspecto lúdico com o qual o engenhoso T.S. enxerga o mundo, ainda que repetidamente ele se emocione com situações que não podem ser resolvidas pelo seu método científico usual.

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Os elementos deslocados são a porta de entrada para o 3D. Além de compartilharem a história de um garotinho inserido em um mundo de máquinas, Uma Viagem Extraordinária e o belo A Invenção de Hugo Cabret também dividem o talentoso estereógrafo Demetri Portelli, responsável pelo posicionamento das câmeras e os efeitos especiais que garantem naturalidade e harmonia à terceira dimensão.

Em seu segundo filme em língua inglesa, quase 20 anos após o desastroso Alien –A Ressureição, Jean-Pierre Jeunet não abre mão de seus colaboradores frequentes. Além de Hervé Schneid, responsável pela edição de todos os seus filmes, o ator francês Dominique Pinon tem seu lugar garantido como um mendigo divertido e inspirador. Sólida no papel da mãe, é sempre bom ver Helena Bonham Carter fora de seus constantes personagens pitorescos, ainda que as manias da Dra. Clair não a afastem completamente desse estereótipo.

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Outra participação agradável é a de Judy Davis, que recebe T.S. no Instituto Smithsoninan. Em uma caricatura aos moldes da temida editora da Vogue, Anna Wintour, a secretária G.H. Jibsen logo transforma o jovem cientista no garoto propaganda do Instituto e da suposta eficiência do sistema público de ensino americano. A boa surpresa fica mesmo por conta do intérprete de T.S., Kyle Catlett, que em seu primeiro longa consegue transmitir um espectro enorme de emoções, em uma atuação que provavelmente o reservará um assento no coração da indústria mirim hollywoodiana.

Se pelas tonalidades vivas e paisagens deslumbrantes Jeunet enaltece a vida simples no Oeste americano, o diretor perde a chance de questionar a cultura das armas, e parece até mesmo avalizá-la em uma tranquila conversa entre T.S. e a mãe. E se as últimas cenas também deixam a desejar, Uma Viagem Extraordinária consegue, no conjunto, balancear bem o visual estonteante com o enredo melancólico. A princípio, a beleza do filme pode passar despercebida pelas crianças a quem ele parece se destinar (a menos que elas tenham um quê de T.S. Spivet). Entretanto, com o tempo a obra encontrará seu lugar na estante do público já habitual de Jeunet, adultos que ainda se comovem com as belas cores da infância.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.