Boyhood – Da Infância à Juventude

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Não são todos os diretores que conseguem captar as passagens de tempo com maestria, mas Richard Linklater figura na lista dos que raramente erraram a mão. E não se poderia exigir menos de um filme que se passa ao longo de 12 anos. Mas Boyhood – Da Infância à Juventude vai além: suas filmagens também ocorreram ao longo dos mesmos 12 anos, e só agora vêm a público em um arremate que, apesar de toda sua atualidade, o torna extremamente saudosista.

O retrato fiel da adolescência é mais uma das virtudes da direção de Linklater, que já deixou para trás o estilo blockbuster do ótimo Escola de Rock para, com altas doses de realismo, provar que não caminha para se tornar uma espécie de John Hughes dos anos 2000. Se na trilogia composta por Antes do Pôr do Sol, Antes do Amanhecer e Antes da Meia-noite, Linklater estica os momentos de um ou dois dias por meio de cenas e diálogos imensos, em Boyhood, ele comprime os 12 anos em uma série de pequenas sequências que privilegiam os diálogos curtos. O diretor imprime um olhar sério sobre o crescer, mas que obviamente conta também com uma coleção de momentos cômicos, que, mantendo a consistência, as vezes dão a impressão de que certas situações estão sendo documentadas, e não criadas.

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Acompanhamos o garoto Mason Jr. desde os seis anos, em passagens importantes e não tão importantes assim de seu crescimento. Como pontua Linklater, “Em um dado momento paramos de crescer e começamos a envelhecer”; é o que acontece com Mason, mas sem que fique claro o momento exato dessa transformação. À medida que Ellar Coltrane, seu intérprete, vai mudando a voz, os cortes de cabelo e ganhando espinhas, substituídas aos poucos pela barba, Mason o acompanha em um processo no qual nunca é possível dissociar perfeitamente o ator e o personagem. O mesmo ocorre com a irmã Samantha, um ano mais velha que Mason, vivida por Lorelei Linklater, filha do diretor. Este consegue incorporar essa série de mudanças de forma exemplar, uma das particularidades que confere ao filme um alto grau de credibilidade.

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O cotidiano vivido por Mason se completa com a insistência da mãe em melhorar a vida de seus filhos e com as visitas esporádicas de um pai ausente, porém carinhoso e querido. Se o tempo passa para todos, são também perceptíveis as mudanças de Patricia Arquette e Ethan Hawke, que de certa forma evidenciam por si só uma história que precisa de pouca narrativa para se manter interessante. A reunião de banalidades seria desnecessária, caso não fossemos o resultado tanto de momentos importantes quanto banais. Poucas cenas, aliás, apontam uma direção para os próximos acontecimentos, de forma que, cada vez que Mason aparece mais alto e com um cabelo diferente, descobrimos que ele está vivendo situações completamente novas, que às vezes vêm como surpresas para o espectador, mas que não deixam de ser esperadas, pela própria inerência de certas descobertas ao processo de amadurecimento.

De Britney Spears à High School Musical, de Harry Potter à Guerra nas Estrelas, os fenômenos culturais capturados em suas verdadeiras épocas ajudam a situar o tempo e recriam – ou simplesmente reproduzem – um ambiente que sabemos ser recente, mas que ao mesmo tempo trata de ciclos já fechados. Durante o longa, por várias vezes nos vem à cabeça a expressão “parece que foi ontem”, e essa viagem no tempo, que é curta se analisada em um contexto histórico, mas quase infindável em se tratando de juventude, termina por ser uma agradável olhadela na vida de Mason e os que o cercam. Não chegamos a conhecer a fundo o personagem. Não existe essa intenção por parte do diretor, mas recebemos pequenas dicas do tipo de pessoa que ele vai se tornando, demonstrações mínimas de seu caráter justo, sua sensibilidade e de seu grande coração.

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Ao vermos Mason com a barba cheia, colocando suas coisas em caixas e dirigindo para a faculdade, permanece a sensação de que os pequenos instantes da vida dele continuarão a ser interessantes, mesmo depois dos créditos do filme. Por motivos ligeiramente diferentes, a mãe desaba em soluços e confessa o mesmo que nós: “Achei que haveria mais”. A legítima tristeza de Arquette, emprestada à personagem e ao espectador por ver mais um ciclo que se fecha faz sentido, mas escapa à obviedade do tempo: sempre haverá mais, já que não há nada que o faça parar.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Diogo

    Ana, você escreve muito bem, parabéns. Gostei da sua análise, principalmente quando fala sobre a personalidade de Mason sendo definida. E essa foto que você coloca logo depois, no carro, é um desses momentos, no qual ele questiona a namorada sobre um problema atual que vivemos: o mundo virtual e a falta de experiências reais. Simplesmente sensacional o filme.

  • Diogo

    Ana, você escreve muito bem, parabéns. Gostei da sua análise, principalmente quando fala sobre a personalidade de Mason sendo definida. E essa foto que você coloca logo depois, no carro, é um desses momentos, no qual ele questiona a namorada sobre um problema atual que vivemos: o mundo virtual e a falta de experiências reais. Simplesmente sensacional o filme.