Relatos Selvagens

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1Acho que não dá para explicar. Demorei mais de cinco segundos para fazer a sinapse quando  vi que os cartazes de Relatos Selvagens tinham sido mudados, nove semanas depois da estreia, para anunciar que o  filme estava “ainda nos cinemas”. Morando e estudando cinema em Buenos Aires, acho difícil acreditar que exista alguém que ainda não o tenha visto. Afinal, é a produção nacional mais assistida da história da Argentina.

Relatos Selvagens, terceiro longa de Damián Szifrón, é uma antologia de seis curta-metragens unidos pela mesma temática: a violência que queima dentro de nós no vai e vem do cotidiano. A violência que ultrapassa aquele gentil dedo do meio para alguém que te fecha no trânsito para se transformar no desejo incontrolável de enforcar o atendente burocrático do outro lado do vidro.

O filme parte da ideia de que todo mundo tem um limite, e que, considerando a entropia da coisa, esse limite há de extrapolar-se algum dia. Tendo isso em mente, sigamos: é um filme realista. Os personagens são verossímeis e poderiam ser até você ou eu. Cada um dos relatos procura gerar a mais simples e direta empatia com o espectador, porque todos os conflitos são os mais comuns e correntes: em Até que a Morte nos Separe, temos uma noiva traída, em O Mais Forte, uma briga de trânsito, em Bombita, descaso burocrático contra o cidadão, em A Proposta, a corrupção e em Pasternak e Os Ratos, vingança.

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Mas Relatos Selvagens – que se propõe como uma representação da realidade, ao afirmar que “assim somos os humanos” – termina sendo catártico, no lugar de ser mimético. O espectador que vê Bombita (interpretado por Ricardo Darín) indignado, ao pagar uma multa sem ter a culpa, se sente tranquilo, porque sabe que tem gente que, como ele mesmo, passa pelos mesmos problemas. A identificação é muito fácil. Tão fácil que parece piada. Curioso, porque se trata de uma comédia.

Não é novidade que a violência seja retratada de forma cômica no cinema. Pasmem, diretores conhecidos construíram toda uma carreira explorando a violência cômica. Mas a comicidade do estilo de Szifrón joga contra o potencial do filme. No fundo, esses relatos são trágicos. E o humor tira a seriedade devida aos temas que toca. Não que o tratamento cômico da violência seja digno de desprezo; pelo contrário. O humor é bem-vindo.

Acontece que os relatos parecem sempre terminar com uma piadinha, como se o humor estivesse aqui para suavizar a violência e torná-la corriqueira, e não a exceção. Em muitos dos relatos, só falta o “tu-dum-tss” no final. O curta A Proposta, o quinto do filme, termina exatamente quando se desfere o golpe com um machado. O filme dá a impressão de querer chegar à selvageria que propõe, mas tem medo de chegar até lá.

A bomba de Bombita explode, mas não mata ninguém. O casal, no último relato, briga, se xinga, se corta e jura que vai matar um ao outro, só para terminar reconciliado, transando em cima do bolo, na frente de todos os convidados. Depois de feita a piada, as histórias se esgotam e terminam rápido.

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Por outro lado, Relatos Selvagens é um espetáculo. Estamos falando de um estilo de produção pouco visto no cinema argentino, até mesmo no cinema latino-americano. Acostumados com um cinema argentino mais introspectivo, dramático, o público se surpreendeu quando se encontra com o virtuosismo do cinema de “entretenimento” de Szifrón, lançado em 118 salas e em cartaz durante nove semanas (e continuará por mais algumas), quando o costume em relação aos filmes argentinos é um lançamento em duas ou três salas do circuito “artístico”, durante duas semanas, se tiver sorte. Claro que a distribuição da Warner ajuda, mas não elimina o fato de que o filme sabe como conquistar seus espectadores.

Estamos falando de um diretor que sabe muito bem filmar o que escreveu. As atuações, com um elenco tão grande e abarcador do cinema argentino, são uma joia cortada à medida. Não tão surpreendente, mas justo o que precisava. No entanto, nomes até então menos conhecidos estão mostrando ao resto do mundo o seu talento, com principal foco em Érica Rivas, que espera até o último relato para poder aparecer.

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Na faculdade onde curso cinema, Relatos Selvagens foi motivo de discussões fervorosas e gritaria entre alunos e docentes. Houve quem adorou e quem detestou, mas ambos lados defendiam suas convicções com garras e dentes. Será esse o lado selvagem que todo ser humano tem, ou é coisa de argentino? Parece piada minha, da velha rixa entre Brasil e Argentina, mas depois da estréia houve reportagens nos jornais daqui que indagavam se o argentino era estressado e violento. É o que chamam por aqui de “argentinidade”, assim como o nós também temos o nosso “jeitinho brasileiro”. Não é incomum ver um argentino gritando com o outro na rua só por causa de um esbarrão sem querer. E ó divertido pensar que a “argentinidade” possa ser entendida melhor no mundo real depois de ter sido vista no cinema.

Uma coisa que eu não disse é que somos 40% de estrangeiros no meu curso, e nós também brigamos. Não é um filme sobre a “argentinidade”, se não sobre a humanidade. Relatos Selvagens é um filme pra todo mundo, interessado em cinema ou não, porque seu sucesso se dá pela fácil e prazerosa catarse da violência, parte da natureza humana. Mesmo assim, poderia ter se aventurado mais, ido esteticamente além no tratamento dos temas que toca, e das histórias que conta. Mantém seus pés em chão seguro, atrás de uma barreira de humor fácil, e a selvageria termina sendo civilizada demais. Mas mesmo que você seja um homem civilizado, espectador, é capaz que passe umas boas horas se divertindo rindo de si mesmo.

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Quem escreveu

Antonio Borduque
Agradecido por poder estudar o que mais ama, seu cérebro funciona a 24 quadros por segundo. Cada instante é um roteiro em potencial. Um freak da teoria, lê mais sobre cinema do que vê filmes, mas pensa em começar a viver mais pra ser um melhor cineasta. Atualmente morando na Argentina, é um diretor/técnico de som/pseudo-ator, cheio de projetos simultâneos, mesmo sendo um cético do multitasking.