Guardiões da Galáxia

5

 

Não é novidade para ninguém que a Marvel vem se provando uma das produtoras que mais preza pela qualidade de seus filmes. E o que mais impressiona são suas arriscadas jogadas nos últimos anos, que só resultaram em ótimas, leais e divertidas adaptações das obras, entre elas Guardiões da Galáxia, que talvez, seja a mais ousada até hoje. Isso porque o original é um quadrinho de humor “negro” dos anos 70, que fez pouco sucesso na época, mas, agora, se tornou um golaço da Marvel.

Vamos encarar os fatos. O filme tinha tudo para dar errado. A produtora contratou James Gunn, roteirista dos filmes Scooby-Doo para roteirizar e também dirigir a obra. A partir daí, o que poderia se imaginar uma palhaçada com efeitos visuais ridículos se mostrou uma aventura épica superdivertida, graças também ao estupendo elenco, um dos melhores reunidos em um filme da Marvel. Gunn faz exatamente o que Joss Whedon fez em Os Vingadores, em 2012. Ele dá voz e sentimento a todos os personagens, ainda que alguns tenham sido mal aproveitados, como Korath (Djimon Hounsou) ou Nova Prime (Glenn Close). Com essas exceções, todos os demais conquistam bem seu lugar no filme.

1

O título não é à toa, pois o foco é bem dividido entre os cinco heróis que protegerão o universo: Peter Quill (Chris Pratt), o humano órfão abduzido ainda novo por caçadores de recompensa; Gamora (Zoe Saldana), a alienígena órfã com um passado obscuro; Drax (Dave Bautista), o guerreiro que perdeu a família e busca vingança; Rocket (voz de Bradley Cooper), o raivoso guaxinim falante caçador de recompensas e Groot (voz de Vin Diesel), a árvore de poucas sílabas. Todos esses fatídicos personagens se juntam para derrotar o maligno Ronan (Lee Peace) e se redimirem de seus sentimentos, formando uma liga de forte amizade fraterna.

2

E isso é lindo no filme. A obra conquista o público porque esse consegue se relacionar com os verdadeiros sentimentos dos personagens, a partir das situações que eles vivem. Dá para sentir aquele aperto no peito quando o destino dos heróis é posto à prova. Ao mesmo tempo, o roteiro provoca gargalhadas, pois cada personagem tem seu humor satírico e arrogante. Gunn e sua co-roteirista Nicole Perlman dosam o drama e a comédia de forma ágil, e entregam um filme fluente.

Não podemos deixar de mencionar as várias referências a Star Wars, Star Trek e até Indiana Jones. Peter Quill é dono de um caráter tão pitoresco que lembra, e muito, a Han Solo, em sua nave apelidada por ele como uma amiga. Seu enorme espírito de aventura lembra o Dr. Indiana Jones. Aliás, a introdução do filme é bem ao estilo Caçadores da Arca-Perdida. A presença momentânea de Groot é quase uma alusão ao Chewbaca; as cidades têm traços futurísticos e populações multirraciais, como na saga Star Trek, e até em vídeogames, como em Mass-Effect.

3

O universo do filme é criado com efeitos visuais deslumbrantes – e, finalmente, com o uso ajustável do 3D –, colocados em pauta principalmente nas muito bem dirigidas e coreografadas cenas de ação, tanto as terrestres quanto as espaciais. Tudo é amarrado com magnífica trilha sonora, que mistura os tons originais de Tyler Bates e os clássicos dos anos 70 e 80, como Hookedon a Feeling (Blue Swede) e I Want YouBack (Jackson 5). A trilha é tão boa que é impossível não procurá-la após assistir o filme.

Apesar de toda excelência e criatividade de Guardiões da Galáxia, é impossível não notar a presença da fórmula com a qual a Marvel tem apostado desde Os Vingadores. Uma base com personagens interessantes, mas uma história que não se contenta em ser única. Está tudo construído para se ver mais e mais em várias continuações. Não se tem mais o território solo do personagem, como foi feito no excelente Homem de Ferro, de 2008. Até a cena pós-créditos sugere a pergunta, que pode ser negativa ou positiva: até onde a Marvel irá?

Em suma, Guardiões da Galáxia é a perfeita definição de um blockbuster. Personagens com um carisma incrível, comédia e drama bem divididos. É a Marvel com a bola toda. Esse é um de seus melhores e mais divertidos filmes até hoje. É realmente de se pedir bis.

4

Quem escreveu

Raphael Georg
É um cinéfilo desde que se lembra de ser um ser humano. Ao longo dos anos começou a aprimorar sua atenção aos filmes para se tornar um verdadeiro crítico. Hoje ele hoje gosta de todos os gêneros possíveis, desde a amizade de um suricate com um javali e seu lema, Hakuna Matata, à um negro recitando Ezequiel 25:17 para um bando de garotos assustados. Ele apenas quer ver um filme transmitindo a sua arte e mágica da melhor forma possível.