500 Dias com Ela é a melhor comédia romântica existente

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A receita das comédias românticas é geralmente seguida à risca: sabemos de cara quem vai terminar com quem, vemos as alfinetadas, a descoberta do amor, o erro, a briga, o discurso, o perdão, o felizes para sempre e fim. Um gênero que dificilmente favorece a originalidade, mas que, quando o faz, costuma trazer boas surpresas. A Primeira Noite de um Homem, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Alta Fidelidade são exemplos frequentemente citados entre os melhores da categoria, justamente por fugirem da fórmula. Mais incrível, no entanto, são os bolos que, apesar dos exatos 254,6 gramas de açúcar, saem do forno completamente diferentes da foto na capa do livro. (500) Dias com Ela é um bolo de receita que encontra seu sabor no aparente desastre.

[alert type=red ]Alerta: esse texto contém infinitos spoilers, e é altamente recomendado ver o filme antes de lê-lo.[/alert]

Considerado um dos melhores filmes de 2009, o roteiro dessa pequena jóia foi escrito pela dupla Michael H. Weber e Scott Neustadter, então estreantes no cinema. A direção ficou na mão do também estreante Marc Webb – estreante nas telonas, apenas, pois Webb já era um grande nome no meio musical, tendo realizado mais de 100 clipes para bandas muito conhecidas. Seu extenso currículo serviu como grande trunfo, porque, afinal, a música tem um lugar especial em (500) Dias com Ela. Neustadter afirma, inclusive, que os parênteses em 500 são uma homenagem aos parênteses utilizados em títulos de canções pop dos anos 80. Pensando nisso, Webb reuniu Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt nos papéis principais, dois atores apaixonados pela música – eles mesmos músicos –, amigos de longa data, que já tinham contracenado no drama Maníaco (2001) e em vídeos musicais para o Youtube.

1Juntos eles protagonizam, como é dito nos primeiros minutos da obra por um narrador em off, um clássico garoto encontra garota. Vagamente baseado em experiências de Neustadter, é um clássico nada clássico. A tela preta inicial, que geralmente contém o “baseado em uma história real” é substituída por um recado – especialmente dedicado a uma garota chamada Jenny Beckman, “a vadia” – de que “qualquer semelhança é pura coincidência”. E que fiquem avisados, o narrador continua, não é uma história de amor. Nada de finais felizes. O garoto, Tom Hansen. A garota, Summer Finn. Tom sonha com o amor das canções, dos filmes e dos livros, enquanto Summer não acredita no amor, quer só se divertir e fazer o que bem quer.

[alert type=white ]É necessário fazer um parêntese sobre o jogo de palavras no título. O original, (500) Days of Summer, é uma referência direta à duração do relacionamento, mas também à duração do “verão (summer) amoroso” de Tom.[/alert]

Na busca pela originalidade, a direção de Webb e o roteiro de Weber e Neustadter acabam prestando uma grande homenagem à sétima arte. Várias cenas contam com referências diretas a grandes obras, outras requerem, pela sutileza, mais atenção do público. (500) Dias com Ela é cinema em seu significado mais puro, porque brinca com esse mesmo cinema desde o início.

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Com domínio completo do estilo, o diretor inclui uma cena fantástica das comédias musicais. Ao som de You Make My Dreams (Come True), da dupla de R&B Hall e Oates, Tom dança e canta pela rua, depois de passar a primeira noite com Summer. Anos de expressão cinematográfica de felicidade amorosa culminam no show do rapaz – seu reflexo no vidro do carro é ninguém menos que o galã Harisson Ford; a banda marcial de 10 Coisas Que Eu Odeio em Você cruza a rua; o passarinho de Cinderela pousa em seu ombro; a multidão no parque de Encantada o acompanha no trajeto; todo mundo o cumprimenta e lhe oferece um sorriso, tudo é grandioso, exatamente como a imagem mais clichê de realização amorosa.

O “clipe” de Tom é um deleite, mas durante todo o filme Webb dá atenção especial para a música. Além das apresentações no karaokê e os diálogos sobre o assunto, é marcante o lugar que cada canção ocupa na cena em que aparece. Por exemplo, quando Tom ouve no computador Please, Please, Please, Let Me Get What I Want, dos Smiths, a canção rapidamente se torna música de fundo, enquanto ele observa Summer, evidenciando-se a conexão que ele faz entre o relacionamento deles e os dos filmes de romance. Mas quando ela passa reto por ele, Tom volta à a realidade e para a música com um clique do mouse, com este som em destaque. Essa mesma passagem de música intra-diegética (parte do cenário) para extra-diegética (música de fundo) ocorre também outras vezes, como a cena no carro a caminho do cinema enquanto no rádio toca Quelqu’un m’a Dit, ou quando Tom ouve She’s Like The Wind no ônibus.

Webb também se mostra um amante da Nouvelle Vague e do mestre do estilo depressivo suicida, Ingmar Bergman. Quando Tom se imagina nos filmes que assiste, todos em francês, joga o xadrez de O Sétimo Selo contra um cupido, encarna o desiludido de Chaplin e tem uma conversa noir com Summer.

Tudo isso confirma a tese dos primeiros minutos de filme, quando Tom é descrito como alguém que acredita que será infeliz até conhecer a garota certa. O narrador explica que essa ideia é uma consequência de anos de exposição à música triste britânica – The Smiths – e também de uma má compreensão de A Primeira Noite de Um Homem. De fato, no encontro que precede o término do relacionamento, Tom sugere voltar para casa, mas Summer prefere ir ao cinema ver justamente A Primeira Noite de Um Homem. Ela chora ao ver a cena final, quando o ônibus em que estão Benjamin e Elaine se afasta para sempre de Mrs. Robinson, e a expressão dos dois vai de eufórica a séria em segundos. Summer parece ter percebido, e bem antes de Tom, que aquele não era um típico final feliz.

Manobras de estilo

4A aparente felicidade do casal é refutada em várias cenas.  Ele se lembra dos momentos juntos em três situações diferentes e, com isso, os roteiristas entregam o maior segredo sobre contar histórias: é tudo uma questão de montagem. No começo, o rapaz apaixonado só vê provas de amor, mas quando procura os primeiros sinais de problema, os encontra nas mesmas lembranças, extratos da mesma cena, que só no final da obra aparece completa. Quando ele mostra um vinil do Ringo Star para ela, por exemplo, primeiramente Summer sorri; depois, no meio do filme, ela desvia o olhar e, no fim, vemos a lembrança inteira e, portanto, mais honesta. O ponto de corte muda totalmente o sentido de uma cena, mesmo se desviado de apenas um segundo. (500) Dias com Ela pode não ser uma história de amor, mas, editando as lembranças de Tom e as montando na ordem certa, é possível encontrar cada ingrediente da comédia romântica clichê. Mas todos esses momentos são revisitados por Tom em retalhos, detalhes, frações de acontecimentos que as vezes só se completam quando ele força a memória, a dica mais brutal de que o filme quer fugir dos ideais dos clichês: Tom é manipulado por sua própria montagem, sua Summer é uma farsa.

“Eu amo sua marquinha de nascença em formato de coração” vs. “Odeio sua manchinha que parece uma barata esmagada”

“Eu amo sua marquinha de nascença em formato de coração” vs. “Odeio sua manchinha que parece uma barata esmagada”

Outra prova da falta de credibilidade das memórias de Tom é a sequência em que ele descreve o corpo de Summer. O mesmo plano se repete duas vezes, mas em dias diferentes e, portanto, com comentários completamente distintos. Talvez uma referência ao cineasta francês Chris Marker, que se empenhou em mostrar que o áudio que acompanha uma imagem pode alterar a percepção do espectador. No documentário Cartas da Sibéria (1957), Marker repete o passeio de um ônibus pelas ruas de uma cidade russa três vezes, uma na qual o narrador glorifica o regime socialista; outra, neutra e, por último, na qual ataca o coletivismo. Tom vê a mesma Summer, mas seu olhar já não é mais o mesmo.

6Webb também se mostra cuidadoso quando ultrapassa a quarta parede, a parede imaginária que separa o plateia do palco de teatro. Em vários momentos estamos de frente a Summer ou a Tom, e sentimos que eles falam diretamente com o espectador. A sequência na qual cada personagem explica o que é amor se desenrola como um documentário, uso inteligente de um recurso puramente cinematográfico. Enquanto Tom não tem a mínima ideia do que dizer, seu amigo Paul afirma que sua namorada de anos não é a garota ideal, mas ainda melhor, porque é real.

Já Tom e Summer não são um casal tão real assim. Em um “dia feliz”, eles visitam a loja de decoração Ikea e passeiam por vários ambientes fingindo ser outras pessoas, atuando como os casais que viveriam naqueles cômodos de mentira. É interessante notar que, como o palco, ambientes de lojas desse tipo só têm três paredes, revelando mais uma homenagem escondida de Webb e mais uma sutileza quanto ao relacionamento romanceado dos dois.

 Os ventos calmos do outono

Aos poucos a mensagem de (500) Dias com Ela fica clara. Como Tom Hansen, moldamos nossa visão do amor a partir das histórias contadas nos filmes, nas músicas e nos livros. Nos esquecemos que essas histórias são, na maioria das vezes, as últimas histórias de amor dos personagens. Nos esquecemos que antes de encontrarem o grande amor de suas vidas, esses personagens viveram outras histórias e outros amores, que quase nunca são retratados. Ao mostrar, na primeira cena do filme, Tom e Summer sentados em um banco de mãos dadas no dia (478), o roteiro nos desafia a acreditar no final feliz da típica comédia romântica, porque, como Tom, vivemos momentos nos quais o final feliz está muito óbvio. E, como Tom, quando temos o coração partido, precisamos nos reconstruir para viver a próxima estação. Em seu primeiro momento de glória depois do término com Summer, ele decide persistir no sonho de ser arquiteto – existe metáfora melhor para a reconstrução? No fim, somos todos como Tom, pois assistimos aos mesmos filmes que ele, ouvimos as mesmas canções que ele, lemos os mesmos romances que ele.

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Nessa perspectiva, o dia (500) é o final perfeito para Tom, porque é também um outro dia (1). Na última cena, ao fazê-lo conhecer a arquiteta Autumn (outono) na sala de espera de uma entrevista de emprego, o filme nos oferece vários futuros para o personagem principal. Com uma profissão determinada e a convicção de que vai preencher a vaga, mesmo que em poucos minutos de tela, ela já soa mais real que Summer. Talvez venham mais (500) dias de Autumn, talvez (infinitos). Independentemente da sua duração, Tom tem um futuro, o que é o último tapa do roteiro na cara do “felizes para sempre”. As estações se repetem, as histórias de amor se repetem. Mas as flores nunca são as mesmas. Quando Tom conhece Summer, em 8 de janeiro, é o ápice do inverno no hemisfério Norte. Com toda sua jovialidade e espontaneidade, ela clareia seu “inverno da alma”. Quando ele conhece Autumn em 23 de maio, já é primavera, Tom já renasceu. E ao que parece, ele teria finalmente entendido A Primeira Noite de Um Homem.

Todos nós vivemos a história do herói da comédia romântica clichê. Ela só não tinha sido contada ainda.

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(500) Dias com Ela
(500) Days of Summer

Com Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Chloë Grace Moretz, Geoffrey Arend e Matthew Gray Gluber

De Marc Webb, 2009

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Esdras Castiliano

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