Sem Evidências

Devil's Knot (2014) -- exclusive EW.com image

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Lucrar com tragédias não é uma exclusividade hollywoodiana, mas uma especialidade, principalmente se crianças estão envolvidas. O polêmico assassinato de três garotos na cidadezinha americana de West Memphis, no estado de Arkansas, já rendeu a trilogia documental Paradise Lost, dos diretores Joe Berlinger and Bruce Sinofsky, e o documentário West of Memphis, de Amy J. Berg. Além disso, inúmeros programas de tevê foram realizados – eles advogam pelos réus, como se tentassem se desculpar pelos supostos erros do sistema de justiça americano. Agora, plantando a dúvida novamente, o drama biográfico Sem Evidências reconstitui as investigações policiais e os julgamentos que deram tanto o que falar de 1994 até hoje.

[alert type=red ]Obs: o texto contém informações sobre o caso real que inspirou o filme, que podem ser consideradas spoilers[/alert]

Justiça fabricada?

Apelidado de “os três de West Memphis”, o caso acabou chamando muito mais atenção para os três adolescentes acusados pelo crime do que para as três crianças mortas. Em 5 de maio de 1993, Stevie Branch, Michael Moore e Christopher Byers, todos com oito anos, foram dados como desaparecidos. Os meninos saíram de casa para andar de bicicleta e foram vistos pela última vez adentrando um bosque nas redondezas do bairro onde moravam. As investigações indicavam que as crianças teriam sido submetidas à rituais de sacrifício, e logo a polícia chegou aos nomes de Jason Baldwin, Jessie Misskelley e Damien Echols, de 16, 17 e 18 anos. Echols e Baldwin registravam passagens pela polícia e Misskelley era conhecido por seu temperamento difícil, além de sofrer de retardo mental.

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O caso parecia fechado quando Misskelley fez uma confissão, após 12 horas de interrogatório policial que, apesar dos furos, descrevia com detalhes a participação dos adolescentes no crime. Confirmando a tese da polícia estava o garoto Aaron Hutcheson, amigo das vítimas, que dizia ter estado presente durante os assassinatos, cometidos por adoradores de Satã. Mesmo com testemunhos contrastantes e sem evidências concretas – como amostras de DNA – que ligassem os jovens ao crime, a polícia estava sob tal pressão que vazou para a imprensa trechos específicos dos interrogatórios, que soavam incriminadores o suficiente para que a opinião pública condenasse os garotos e clamasse por pena de morte.

O ocorrido rapidamente virou bandeira levantada pela comunidade contra o perigo de um certo tipo de moda, de música e de um estilo de vida que estariam intimamente ligados ao satanismo e ao ocultismo. Eles foram julgados, declarados culpados e passaram 18 anos na cadeia. Hoje, estão soltos, porque podem ser inocentes, e o caso continua sem solução.

O viés do cinema

Sem Evidências foi adaptado pelos roteiristas Paul Harris Boardman e Scott Derrickson (que têm no currículo vários filmes de terror) do livro homônimo de Mara Leveritt, uma estudiosa do caso. Assim como a publicação, o filme reapresenta a história como uma verdadeira caça às bruxas. O ódio generalizado que se instala na cidade contra os garotos é em parte embasado em preconceito (tão comum no interior sulista dos EUA) – contra seus cabelões, o gosto pelo heavy metal e as roupas pretas – e em parte motivado pelo estranho encantamento dos jovens pelo sinistro – principalmente Echols, vítima de sérios problemas mentais, agravados no tempo em que passou preso. Ele declarou ganhar superpoderes ao beber sangue humano, acreditar em magia negra e ser a reencarnação de um espírito homicida.

Em dramas criminais, é uma prática comum a manipulação emocional do espectador para que ele tenda para um lado ou para o outro, o que costuma ficar claro em poucos minutos de filme. O diretor Atom Egoyan, conhecido pelo premiado O Doce Amanhã (que trata de forma impecável um acidente com um ônibus escolar), não poupa esforços para nos fazer sentir náuseas diante de um crime tão horrível – e, portanto, um tanto aliviados quando começam a surgir suspeitos. Mas o clima muda à medida em que constrói uma narrativa que calmamente cria pontos de divergência na versão da polícia, beneficiando os supostos culpados.

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A trama se divide entre o drama da mãe de Stevie Branch, a religiosa Pamela Hobbs, interpretada por Reese Witherspoon, e a busca pela verdade feita pelo detetive particular Ron Lax, vivido por Colin Firth, sem no entanto aprofundar em nenhum dos dois pontos. Uma grande conquista do roteiro é conseguir sobrepor a história à um elenco forte, encabeçado por duas estrelas como eles. Witherspoon aparece sem maquiagem, com alguns quilinhos a mais e roupas desleixadas, e passa uma atuação honesta, mesmo diante da falta de momentos dramáticos de sua personagem.

Confusão de gêneros

Mas é o Ron Lax de Firth que move a trama, com seu sotaque perfeito e persistência honrável, ainda que com pontas soltas e assuntos que seriam esquecidos ao longo do filme. Contrário à pena de morte, o investigador se oferece para trabalhar pro bono para a defesa. É ele quem aponta as inconsistências que geram desconfiança; é ele quem leva para o lado pessoal, e perde noites de sono; e foi ele quem realmente entregou para a polícia as amostras de DNA que terminariam por forçar a soltura dos três, 18 anos depois. Mas dada a complexidade do caso, apoiar os pontos de virada nas ações de um único personagem, apesar de sua importância, é um erro grave do roteiro, que descaracteriza o esforço de todo um grupo que lutou durante anos pela absolvição dos adolescentes.

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Além disso, a montagem peculiar dá à película ares de uma dramatização ligeiramente forçada. Mesclados à uma intenção jornalística, com datas e nomes escritos na tela, cenas inspiradas nas filmagens reais do caso e ênfase nas provas favoráveis aos réus, estão sonhos, memórias e conversas particulares que não parecem passar de especulação. A insistência da câmara em desvendar rastros de sangue, facas e sorrisos apontam um tom quase sádico, que não nos deixa esquecer em nenhum momento que a ficção baseada em fatos reais traz na “ficção” intenções altamente comerciais.

No entanto, no que diz respeito à caracterização factual, o filme alcança a semelhança física dos acusados com uma precisão digna de nota, além das cenas bem convincentes (e parecidas com as verdadeiras) nos tribunais. James Hamrick (Echols), Seth Meriwether (Baldwin) e Kristopher Higgins (Misskelley) são explícitos na hora de convencer o júri de que, mesmo que fossem inocentes, não eram o tipo de pessoa que mães cuidadosas iriam querer perto de seus filhos pequenos. Em especial, por várias vezes Hamrick evita que seu olhar seja flagrado pela câmara, o que põe o espectador em uma posição extremamente desconfortável ao atestar sua aparente loucura ao mesmo tempo que tenta acreditar em sua inocência.

Então, quem?

O drama de Egoyan também falha na hora de tentar apontar outros suspeitos, que são introduzidos rapidamente ao público e, depois, são deixados de lado, até que, antes dos créditos finais, apareçam notas explicando o destino de alguns dos envolvidos. Obviamente, se o caso ainda não foi resolvido, não seria o filme que viria com as respostas, mas os roteiristas se mostram bem parciais na hora de apostar na inocência dos garotos, assim como a maior parte das autoridades que, ainda hoje, estudam o caso. Echols, Baldwin e Misskelley saíram da prisão sob uma alegação rara, na qual os réus admitem o veredito de culpa como uma manobra burocrática (pois, em caso de condenação, as penas são maiores se declarada inocência), mas mantém a versão da defesa. O tribunal concordou em sentenciar os três com o tempo que já tinha sido cumprido, apesar de considerar que as provas obtidas pela promotoria seriam suficientes para uma nova condenação, se levadas ao grande júri. O complicado acordo resultou em liberdade, mas não em absolvição completa, o que eles ainda buscam judicialmente.

Sem Evidências fornece um primeiro insight para os que ainda não tinham conhecimento sobre o caso, e cumpre bem o objetivo de criar dúvida razoável para a condenação dos três de West Memphis. Por outro lado, provavelmente não será uma fonte suficiente de informações para quem se interesse pelo assunto, que encontrará maior satisfação ao assistir Paradise Lost ou West of Memphis. Para os que já sabem da história, o filme não trará nada de novo.

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Mas, felizmente, a intenção nobre de Atom Egoyan em questionar a conduta da polícia, da população, da imprensa, do poder judiciário e do sistema criminal é reconhecível e mantém vivo o importante papel do cinema em reviver situações que não deveriam ser esquecidas e que, se de fato estas não foram, de espalhar mais e mais a notícia. Talvez seu erro tenha sido pisar em território já tão desbravado, e principalmente tão bem desbravado. Mas Egoyan tem ao seu favor um caso extremamente fascinante, capaz de despertar curiosidade feroz em um público antes ignorante em relação ao assunto (talvez não muito fãs do gênero), e que deverá à ele o primeiro contato com o ocorrido. Sem Evidências se tornará assim um “filme-pontapé”, superimportante, apesar de todas as suas mazelas cinematográficas.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.