O Enigma Chinês

1 (1)

1Para quem já conhecia Xavier, de Albergue Espanhol e Bonecas Russas, foi de novo um prazer ser convidado para entrar em sua cabeça no filme que completa a trilogia dirigida por Cédric Klapisch, O Enigma Chinês. Para quem não o conhecia, a experiência não deve ter sido muito diferente.

No provavelmente último “episódio” da saga, Klapisch leva o triângulo amoroso – Xavier, Wendy e Martine – e sua ponta extra – Isabelle – para Nova York, completando seu tour pelas cidades mais badaladas do mundo, depois de passar por Barcelona, Paris, São Petersburgo e Londres.

Nova York é uma metáfora para o pensamento de Xavier. Era de se esperar que, depois de dois livros publicados, ele estivesse rico e feliz. Que boa surpresa é fugir dos clichês. Sem muito dinheiro, divorciado, lutando pelos filhos e com um editor que reclama que sua vida não é complicada o suficiente para dar um bom terceiro livro, a confusão que Xavi repassa em seus monólogos é quase um retrato da Nova York de Chinatown, da Nova York dos imigrantes, da Nova York que, assim como ele, sabe que viver em uma cidade ícone não é sinônimo de felicidade.

2

Xavier vai, sim – como diz no início do filme, – do ponto A ao ponto B, mas passa por todo o alfabeto antes. Klapisch se aproveita de todos os elementos na construção do enredo para mostrar essas andanças. A montagem, a trilha sonora, os cenários, tudo são peças que, aos poucos, vão se encaixando para formar uma grande imagem e transformar a trilogia em uma história com começo, meio e fim, mas com vários outros pequenos começos, meios e fins entre eles.

Se a escolha do elenco já tinha sido um golaço 11 anos antes, em Albergue Espanhol, agora a façanha é repetida nos papéis menores. Os dois metros de altura de Peter Hermann roubam a cena em suas poucas aparições como novo namorado de Wendy. A seriedade de Ju, namorada de Isabelle, transporta a simpatia de uma coadjuvante que poderia ter sido interpretada por qualquer atriz, mas caiu como uma luva para Sandrine Holt. Outro ponto forte no elenco são as crianças, que passam uma confiança rara nessa idade, principalmente o novato Pablo Mugnier-Jacob, no papel de Tom, filho de Xavier. Quanto a Romain Duris, Kelly Reilly, Audrey Tautou e Cécile de France, parece dispensável dizer que encaram de novo seus papéis com perfeição e uma maturidade que já podia ser prevista no primeiro filme.

3

O roteiro bem amarrado de Klapisch não deixa dúvidas: é o trabalho de alguém que partilha uma intimidade única com os personagens. E que sabe que o clássico “garoto encontra garota” é o reflexo de uma vida em preto e branco: Xavier é um dos poucos protagonistas no cinema que tem três grandes amores e que ficaria bem com qualquer um deles. Às cores de Nova York, essa relação “cheia demais” carrega algo de verdadeiro, o que torna a história palpável, apesar de todos os absurdos cômicos de sua vida.

Ao mesmo tempo que adoraríamos ouvir mais de seus casos, O Enigma Chinês satisfaz bem o desejo de reencontro plantado no final de Bonecas Russas. E se é um fim para os espectadores, claramente é só mais um começo para Xavier.

4

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.