O Grande Hotel Budapeste

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“Estilo individual é um plágio de si mesmo”, dizia Alfred Hitchcock quando o confrontavam sobre as semelhanças espalhadas ao largo de sua obra. Não só ele, muitos outros cineastas também empregam técnicas recorrentes em suas filmografias. Talvez Wes Anderson seja o mais explícito deles, pelo menos nos últimos tempos. Em seu filme mais recente, O Grande Hotel Budapeste, Anderson mais uma vez demonstra sua incrível habilidade em construir um mundo visualmente extraordinário como palco para suas histórias. Assim como o público, principalmente seus fãs, Anderson parece estar cada vez mais consciente de seu característico estilo, e nessa obra parece extrapolá-lo quase ao infinito, o que faz surgir a pergunta: até que ponto seu estilo ajuda na narrativa de uma história?

Mais uma citação, dessa vez de Pablo Picasso, entra em jogo: “Copiar-se a si mesmo é mais perigoso que copiar os outros. Leva à esterilidade”. O que antes era cativante, agora pode soar repetitivo, reciclado, deixando de ser novidade. Mesmo assim, o trabalho do diretor continua maravilhoso para os olhos. Digamos que, enquanto diretor, Anderson realizou seu melhor trabalho como diretor de arte em The Grand Budapest Hotel.

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No filme não existe nada fora de lugar, fruto de um trabalho minucioso e admirável, o que é pelo menos de se esperar depois de um rolo de créditos tão extenso. O esmero se repete na cinematografia e no trabalho de câmera: cada plano construído como uma dedicatória à simetria, exaltando, a partir da perspectiva central, a ideia de um palco perfeito para a teatralidade, o que é recorrente na obra do diretor. A falsidade, ou pelo menos a ilusão dela, novamente não deixa de ser visualmente agradável. Agradável também é a trilha sonora, deliciosamente construída com uma orquestra de balalaicas e outros instrumentos exóticos em camadas e camadas de folk tradicional que, vale a referência, é a semente de cacau sobre o Courtesan au Chocolat, o doce preferido da cidade.

Mas então surge o erro de Anderson. Sua intenção pode não ser percebida pelo público não acostumado ao estilo dele, já que o diretor busca no filme um outro estilo narrativo para explicar suas ideias. O relato está atravessado por dois tempos e duas perspectivas: a de Zero Moustafa – interpretado pelo veterano F. Murray Abraham no presente e pelo desconhecido Tony Revolori quando jovem – e a do escritor (chamado de “Autor”) que o ouve – curtíssimas aparições de Tom Wilkinson e também Jude Law no papel de ouvinte. É como se o filme tivesse sido construído como a leitura do livro homônimo autografado pelo Autor, apresentado e empunhado pela garota que surge logo nas primeiras cenas, como uma história dentro da outra.

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Anderson inclusive aproveita e sublinha a diferença entre os relatos a partir da relação de aspecto: quando a memória do Autor nos fala, o filme se apresenta em widescreen 16:9; e quando se dedica às memórias do Sr. Moustafa, no clássico e já esquecido formato 4:3. É um interessante uso das técnicas para implicar a diferença. Só que, em certos momentos, o mesmo estilo exagerado acaba encobrindo ou até mesmo satirizando as verdades que aparecem de vez em quando durante os melhores momentos do filme.

O conflito, por mais que apresentado num mundo pitoresco e colorido, dá espaço aos sinais sombrios, cruéis e crus da história humana: os dedos decepados, o clima ambíguo de um continente em guerra e o terrorismo deliberado à a solidão de um homem tratando de completar um vazio numa existência mascarada, porém elegante. Espalhadas nesses detalhes estão escondidas as verdadeiras, porém poucas, pérolas do filme. O diretor não se preocupa em dar visibilidade a esses pequenos toques, não permitindo que o espectador mais distraído pela exuberância se dê conta de tudo o que lhe é mostrado. Infelizmente, a forma supera o conteúdo.

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Outras pérolas são garantidas – e muito bem visíveis, é preciso dizer – por Ralph Fiennes, no papel de Monsieur Gustave, o concierge do hotel do título. Fiennes demonstra um incrível e até então desconhecido talento do timing e do delivery cômico que fazem de seu personagem um dos melhores dos últimos tempos. Ele divide ótimas cenas com o Zero de Tony Rivolori. Infelizmente, para quem esperava uma narração complexa e cheia de detalhes, Anderson preferiu um extenso e brilhante elenco a escrever personagens profundos e memoráveis, que na verdade não deixam de surpreender e nem chegam a decepcionar, transformando o filme em um espetáculo de aparições bem colocadas e executadas. Não dá para reclamar quando se tem Bill Murray, Adrien Brody, Willem Dafoe, Tilda Swinton, Edward Norton, Jeff Goldblum e muitos outros arrasando na telona.

Em resumo, temos um espetáculo que, para o bem ou para o mal, nos dará um sentimento muito parecido ao do Sr. Moustafa em relação ao hotel e à história que acaba de nos contar: uma memória longínqua, porém doce, recheada de nostalgia e com uma generosa cobertura de formalismo. Wes Anderson pode continuar plagiando a si mesmo à vontade, desde que repita a qualidade do entretenimento e da diversão que nos oferece em O Grande Hotel Budapeste.

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Quem escreveu

Antonio Borduque
Agradecido por poder estudar o que mais ama, seu cérebro funciona a 24 quadros por segundo. Cada instante é um roteiro em potencial. Um freak da teoria, lê mais sobre cinema do que vê filmes, mas pensa em começar a viver mais pra ser um melhor cineasta. Atualmente morando na Argentina, é um diretor/técnico de som/pseudo-ator, cheio de projetos simultâneos, mesmo sendo um cético do multitasking.