Dois Dias, Uma Noite

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Era 1999 quando os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne receberam seu primeiro Palma de Ouro, em Cannes. O filme, Rosetta, é a história de uma jovem belga que, em meio à crise que assolava a Europa no fim dos anos 90, transforma a busca por um emprego em uma verdadeira guerra, egoísta e sem traços de moralidade. Quinze anos depois, os Dardenne revisitam o tema em Dois Dias, Umas Noite, mas dessa vez com um olhar um pouco mais otimista, na tentativa de transformar o individualismo em coletivismo.

É sexta feira. Em uma interpretação sublime de Marion Cotillard, Sandra, casada com Manu, mãe de duas crianças e operária em uma fábrica de painéis solares, volta ao trabalho após uma licença médica por depressão. Ali ela descobre que 14 dos seus 16 colegas votaram pelo seu afastamento, pois, com uma funcionária a menos, a empresa poderia dar um bônus anual de mil euros a cada um de seus empregados. Nem o trabalho de Sandra nem a consciência dos colegas parecem pesar face a tanto dinheiro em um momento de recessão.

Sandra e uma amiga convencem o patrão a refazer a votação na segunda feira, já que o chefe do setor teria influenciado o resultado ao dizer à equipe que, se não fosse ela a ser demitida, seria um deles. A operária tem os dois dias e a noite do final de semana para mudar a opinião de seus colegas. Enquanto Manu garante ser possível reverter a decisão, Sandra se afunda em pílulas e na descrença, se movendo unicamente pela necessidade, pelo instinto de sobrevivência.

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A rotina dos operários é trabalhar sem pensar em nada mais durante cinco dias na semana, mas o fim de semana é o momento do escape, quando eles planejam reformas em casa, treinam o time de futebol do bairro ou mexem no carro. Com plena noção de que está violando um momento sagrado, Sandra bate de porta em porta, implorando por cinco minutos de atenção.

A cada encontro, a palavra “necessidade” ganha um significado mais pesado, enquanto o ceticismo inicial da personagem vai dando lugar à culpa. À medida em que conquista votos a seu favor, cresce nela o sentimento de censura ao seu próprio pedido aos colegas.  “É uma violência”, diz em certo momento. Casais discutem, lágrimas escorrem, voam socos.

Nem o discurso calmo e amoroso de Manu é capaz de abrandar o sentimento ruim de Sandra, que questiona o valor de seus problemas. Seria egoísmo clamar por solidariedade?

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O faroeste urbano construído pelos Dardenne é de uma honestidade inquietante. O tremor da câmera que jamais abandona Sandra carrega o cansaço da luta contra a depressão e contra a opressão do capitalismo. Não existe possibilidade de final feliz, pois mesmo que ela vença e volte ao trabalho, encontrará um ambiente hostil e ainda mais competitivo do que antes, regido pelo conflito com aqueles que não aceitaram perder o bônus. Mas ela ainda prefere isso ao desemprego. O desemprego tem o peso da morte.

Com uma estética repetitiva, Dois Dias, Uma Noite andaria em círculos se não fosse tamanha destreza dos Dardenne e de Marion Cotillard em desenvolverem a odisseia da personagem. Se estivéssemos no lugar dos primeiros colegas visitados, talvez diríamos “não” a ela. Já nos últimos encontros, o “não” se torna revoltante, é impossível não torcer pelo seu sucesso. Cotillard se desprende do sotaque parisiense para dar identidade ao interior da Bélgica. A fascinação por sua beleza estonteante se torna condescendência pelo normal, pelo banal, tamanha é a naturalidade da atriz em seus gestos. Não conhecemos Sandra, não sabemos de seus sonhos, seus desejos, nem mesmo o porquê de sua depressão. Não queremos sentir pena dela, e nem é o que ela quer provocar em seus companheiros de trabalho. Sem saber bem o porquê, apenas somos convencidos.

É segunda feira e, independente do resultado, Sandra tem o nosso voto.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.