Grace de Mônaco

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“Não é uma cinebiografia”. Com essas palavras, o diretor francês Olivier Dahan começou sua explicação sobre a obra na coletiva de imprensa que seguiu a exibição de Grace de Mônaco, na abertura do Festival de Cannes. Se Dahan se consagrou em Hollywood ao dirigir Marion Cotillard na pele de Edith Piaf, papel que rendeu a ela o Oscar de Melhor Atriz em 2008, agora é transparente que o mérito por Piaf – Um Hino ao Amor é de uma grande atriz e não de um grande diretor.

Grace de Mônaco se passa em 1962, cinco anos após o casamento da musa hollywoodiana Grace Kelly com o príncipe Rainier III, no momento em que a instabilidade das relações políticas e econômicas entre Mônaco e França ameaça a independência do principado, culminando no bloqueio das fronteiras monegascas, comandado pelo General Charles de Gaulle.

Enquanto a crise que serve de pano de fundo para o filme foi bem real, tudo leva a crer que as anedotas que preenchem a obra de drama, tensão e até mesmo de humor não seriam mais que um abuso de licença artística do roteirista Arash Amel – um completo desconhecido, senão provado incompetente com o desastroso Erased, de 2012 – que só fazem evidenciar a falta de estilo de Dahan.

Já na primeira cena temos a impressão de déjà vu, quando um trajeto duvidoso da câmera termina por revelar o reflexo de Nicole Kidman – Kidman, não Kelly – no espelho de seu camarim. A sequência poderia não chamar tanta atenção se não fosse a semelhança com a cena de abertura de Diana, biografia da princesa inglesa realizada no ano passado por Oliver Hirschbiegel. A partir daí, todas as homenagens estilísticas de Dahan em Grace de Mônaco parecem beirar o plágio e se tornam ainda mais ridículas diante da absoluta falta de talento do diretor, até mesmo para a cópia.

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Aparentemente desiludida com o casamento e com o formalismo que a vida de realeza exige, Grace Kelly aceita viver a personagem principal de Marnie – Confissão de uma Ladra, filme de Alfred Hitchcock. O papel reiteraria à atriz o título de musa do mestre do suspense. Convencida pela suposta visita do diretor inglês ao palácio em Mônaco (na verdade ele teria telefonado), Grace organiza seu retorno triunfante a Hollywood de forma a não deixar que as filmagens, que aconteceriam durante as férias de verão, interferissem em suas atividades diplomáticas.

Ainda que as belas paisagens de Mônaco favoreçam por si só a fotografia da película, Olivier Dahan não deixa passar a referência e, frequentemente, opta por ambientes fechados, nos quais a iluminação fica a desejar e o sombrio evoca Hitchcock em uma admiração completamente fora de lugar. Mais deslocadas ainda estão as dissonantes notas do piano que tentam transformar a direção descontrolada de Grace Kelly pelas estradas que beiram despenhadeiros em um Psicose da realeza, como em um prenúncio das condições do acidente que levariam à morte da princesa 20 anos depois.

O aumento da tensão entre os países e o escândalo provocado pelo vazamento da notícia de que, em meio a ameaça da “guerra mais curta da história” – já que Mônaco não tinha exército –, a princesa fugiria para os sets dos grandes estúdios americanos obrigam Grace Kelly a se despedir, de uma vez por todas, da carreira de atriz. O papel de Marnie vai para Tippi Hedren, que se tornaria a nova musa de Hitchcock, e a princesa de Mônaco passa a se dedicar exclusivamente às suas funções reais, em uma busca por aprovação popular que seria capaz de fortalecer a monarquia monegasca e, ao mesmo tempo, convencer os chefes de estado americanos a se aliarem ao principado contra a pressão instalada pela França.

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O que se segue é uma comédia estilo Diário de Princesa, na qual Grace conta com duas professoras e um mestre do estilo para aprender a andar como uma princesa, a se vestir como uma princesa, a falar como uma princesa e até mimicar diferentes sentimentos em expressões faciais como uma princesa. Ironicamente, a cena é quase idêntica à do filme da Disney. Seria mais uma homenagem?

O filme provoca ainda mais risos devido ao sotaque desastroso de Grace Kelly (ou de Nicole Kidman?), quando ela começa a ter aulas de francês. Estranhamente, uma das anedotas mais suspeitas parece ser verdade: Grace já era princesa há cinco anos, mas ainda não falava a língua oficial de seu povo. Enfim, a atriz veste o personagem de princesa.

Depois de todo o trabalho de extreme makeover, Grace dá sua cartada final no Baile Anual da Cruz Vermelha, evento que ajudou organizar e que tem na lista de convidados todos os políticos importantes nas negociações com a França. A lista inclui o próprio General de Gaulle, que nunca compareceu de fato ao baile, mas que Dahan insistiu ser uma presença necessária: “Eu precisava ter os dois protagonistas no mesmo ambiente”. Em seu discurso, Grace tem a chance de colocar em prática tudo o que aprendeu para convencer a todos que Mônaco merecia guardar sua monarquia e, ela, “o papel de sua vida”, Princesa de Mônaco. A cena poderia emocionar, não fosse a indiferença com a qual é tratada pela direção de Dahan.

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Papeis reais, principalmente de personalidades adoradas pelo público, têm o poder tanto de destruir quanto de alavancar a carreira de seus intérpretes, mas nunca de passarem despercebidos. Nicole Kidman tem uma presença em tela surpreendente, que evoca a confiança de Virginia Woolf em As Horas e a elegância de Satine em Moulin Rouge!. Entretanto, convence mais pelo glamour do que pelo esforço. Diferentemente de Naomi Watts em Diana, Kidman não incorpora trejeitos característicos ou traços marcantes de Grace Kelly (será que de tanta delicadeza eles não existiam?), mas consegue resgatar o encanto de seu olhar durante os closes trêmulos e confusos da câmera de Dahan.

O resto do elenco também não decepciona. O retrato do príncipe Rainier feito por Tim Roth é de um regente sério e elegante, que carrega no vício pelo cigarro o traço mais evidente de sua eloquência política e habilidade para os negócios. Frank Langella, no papel do Padre Tucker, confidente e amigo pessoal de Grace, se destaca pela química com Nicole Kidman. E mesmo em uma aparição não explorada em todo seu potencial, Paz Vega brilha em uma interpretação justa e refinada da cantora de ópera Maria Callas. Talvez a única atuação descompassada seja mesmo a de André Penvern, como General de Gaulle, que evidencia mais a semelhança física do que a precisão de atuação e acaba com ares de sátira.

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Nesse ponto, Grace de Mônaco sofre do mesmo mal que Diana, dois filmes que, apesar de bem atuados (assim como Naomi Watts, Nicole Kidman também era uma aposta para o Oscar de Melhor atriz por sua princesa), pecam por problemas estruturais de roteiro e de direção, que se sobrepõem às interpretações, ainda que essas sejam detalhistas.

Se tivesse funcionado, Grace de Mônaco seria um filme perfeito de abertura para o Festival de Cannes. Poderia servir quase como um pedido de desculpas do cinema francês, em nome do General de Gaulle, ao principado, vizinho de Cannes na Riviera Francesa. Mas Olivier Dahan preferiu, como ele mesmo disse na coletiva, “fazer um filme que fala de cinema, porque fala de uma atriz”, em vez de seguir o preceito básico que o título da obra sugere.

Dahan acabou não falando de cinema, nem de Grace Kelly, nem de Grace de Mônaco. Resumida em poucos segundos com a frase “uma ficção baseada em fatos reais” na primeira tela, a verdade distorcida que o diretor arrasta por uma hora e meia provoca um questionamento agressivo à tendência do cinema atual em produzir biopics: do que vale ver uma biografia se é preciso uma apuração tão detalhada dos fatos narrados? Usar personagens reais para contar histórias falsas é sinal de preguiça, de desrespeito com o público, e, como afirmou a família real monegasca em nota sobre o filme, sinal de grande desrespeito à memória dos envolvidos. Se Grace Kelly tivesse aceitado o papel em Marnie, aquele sim, teria sido um estouro em Cannes.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Anônimo

    Ana, o seu texto está cada vez mais fluente e gostoso de ser lido! Assim que possível assistirei ao filme e, confesso, já estou influenciada por sua crítica (ei Dahan, saíste mal na fita!). Beijos.