Hitchcock: assustadoramente magnífico

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Como falar sobre cinema sem mencionar Alfred Hitchcock? Como pensar na melhor trilha sonora de um filme sem pensar em Psicose? Como tentar esquecer uma cena assustadora sem lembrar de Os Pássaros? O clássico dos clássicos dos diretores tem todos os  motivos para ser tido  como tal e possui provas mais do que suficientes para se autodenominar o “mestre do suspense”. O diretor britânico conquistou o mundo com seu talento e, quem diria, humor.

De família conservadora, Hitchcock estudou em colégio jesuíta, onde ganhou dos colegas carinhosamente o apelido “Cocky”, que também quer dizer “arrogante”. Um trocadilho sutil, mas que traduzia a verdade sobre alguém que incomodava com seu humor irônico e percepção aguçada sobre o que se passava ao seu redor.

2Ele começou a cursar Engenharia, mas percebeu, mais cedo do que imaginava, que não era o que queria. Por isso, já em 1920, com apenas 21 anos, seus primeiros esboços de filmes mudos eram entregues às produtoras, que davam a ele apenas o posto de codiretor ou auxiliar de produção. A paixão de Hitch, ou de Cocky, foi se tornando cada vez mais forte à medida em que acontecia a expansão dos cinemas em Londres. Sua persistência lhe garantiu a primeira oportunidade como diretor em 1925, à frente de The Pleasure Garden.

De fato, seus primeiros filmes não são reconhecidos como obras-primas. Inclusive, um deles, The Mountain Eagle, não sobreviveu ao tempo, restando apenas seis fotos da produção. Mas The Lodger: A Story of the London Fog, de 1927 marca o início da carreira do diretor no suspense e também como “personagem figurante” em sua própria obra.

Apenas um ano depois do lançamento de The Lodger, Hitchcock casou-se com Alma Reville, sua parceira de trabalho, que se tornou a amiga e esposa confidente. A Gaumont-British Picture Corporation notou o talento do jovem. Na Inglaterra, fez O Homem Que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much), em 1934.  Menos de um ano depois, lançou 39 Degraus (The 39 Steps), com a técnica McGuffin – usando elementos que parecem ser o destaque da trama somente para levar ao verdadeiro clímax, e abandonando o tal elemento em seguida – aplicada ao personagem principal. É também do mesmo período A Dama Oculta (The Lady Vanishes).  Cada uma dessas obras teve grande importância no  amadurecimento do estilo do diretor, o que inclui a escolha, praticamente inalterável, por roteiros  em que um  personagem inocente é perseguido ou punido por um crime que  não cometeu.

O sucesso de Hitchcock nos cinemas de Londres chamou a atenção de críticos e de produtores de Hollywood. Eles perceberam o estilo único do diretor, seu talento para o suspense e, especialmente, sua maneira de explorar os temores humanos. O diretor atendeu aos chamados da indústria cinematográfica norte-americana e mudou-se para os Estados Unidos em 1939. Sua estreia em Hollywood foi com Rebecca, A Mulher Inesquecível, logo no ano seguinte à sua chegada, a história de um rico viúvo que é assombrado pelo espírito de sua falecida esposa, Rebecca. O modo como Alfred lidou com a falta de recursos técnicos necessários para a representação do espírito como ele gostaria foi surpreendente: a atriz usou vestidos longos ressaltados por holofotes brancos e intensos. O artifício não passou despercebida  pela Academia, que deu ao longa o  Oscar de Melhor Filme.

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Durante três décadas em Hollywood, Hitchcock lançou pelo menos um filme por ano. Nos anos de 1940, seu humor se acentuou, suas aparições como personagem nos filmes tornaram-se marcas registradas. Ele também ele se renovou e diversificou o gênero de suas obras. O lançamento da comédia Um Casal do Barulho (Mr. and Mrs. Smith), do noir A Sombra de uma Dúvida (Shadow of a Doubt) e da ficção Agonia de Amor (The Paradine Case) surpreenderam os espectadores.

O sucesso do diretor no Estados Unidos foi tão grande que ele ganhou um programa na televisão, que se tornou inesquecível por causa de sua abertura.

4A verdade é que Hitch não se contentava apenas com a direção. O lançamento de Festim Diabólico (Rope), em 1948, deu a ele reconhecimento como roteirista, embora o primeiro filme no qual atuou com essa dupla função tenha sido Interlúdio (Notorious).  Festim Diabólico marcou também o início da parceria de Hitchcock com o tão talentoso James Stewart. Além disso, explicitou uma briga do diretor contra a censura, pois a obra foi acusada de terconteúdo homossexual. O filme impulsionou Hitchcock a ser seu próprio produtor.

A década seguinte foi de sucessos de suspense, com roteiros incríveis e cenas inesquecíveis para a história do cinema. Pacto Sinistro (Strangers On A Train), de 1951, tem o psicopata Bruno Antony, vivido por Robert Walker, a participação de Patricia Hitchcock, a filha do diretor, e a icônica aparição de Hitch subindo no trem. Disque M Para Matar (Dial M for Murder) traz Grace Kelly em um dos papéis principais, quando surgiria uma grande afeição entre a atriz e o diretor. Os maiores sucessos dele aconteceram em seguida:  o incomparável Janela Indiscreta (Rear Window), Ladrão de Casaca (To Catch a Thief), Um Corpo Que Cai (Vertigo) e Intriga Internacional (North by Northwest).

5Psicose, de 1960, é o filme de maior reconhecimento do diretor, apesar de não ter recebido tantos prêmios quanto algumas de suas obras anteriores. Conta a história de Marion, interpretada pela atriz Janet Leigh, adorada por ele. Ela desfalca seu chefe em 40 mil dólares, foge sem destino, até parar, exausta, no Motel Bates, onde é recepcionada pelo estranho e tímido Norman Bates, interpretado por Anthony Perkins.  O desenrolar da história se dá com a busca pela jovem. Não faltam motivos para que o filme seja  considerado a melhor obra cinematográfica de todos os tempos: desafiou a censura, enganou seus telespectadores até o final, foi feito em preto e branco por pura vontade do diretor, conseguiu ser produzido com um valor incrivelmente reduzido e usou calda de chocolate como sangue. Psicose é conduzido com maestria e possui a fantástica trilha sonora de Bernard Herrmann. A épica cena no chuveiro é a prova de que nem sempre é preciso muitos recursos para encantar. O som da faca cravando no peito de Marion foi tirado de um melão sendo esfaqueado, a impressão dos cortes na vítima é fruto de perfeitos cortes de cena e o sangue que escorre é só chocolate. Os tons de cinza ajudam a diminuir o terror e aumentar o suspense.

A verdadeira diferença entre Alfred Hitchcock e a maioria dos diretores de sua época era a abordagem em detalhe dos medos e pavores que assombram a mente humana. O posicionamento das câmeras, os enquadramentos de cena, as trilhas sonoras, a iluminação e as cores fazem toda a diferença.6Citado anteriormente, outro elemento utilizado  com perfeição é o do inocente que é tido como vilão. O mistério é mantido até o último minuto do filme, pois o  vilão real geralmente é revelado ao espectador só ao final. As aparições de Hitch como figurante nos filmes chegavam a contribuir para que o espectador perdesse o foco da trama principal, tamanha era a ansiedade por vê-lo em cena. O diretor acabou considerando isso uma desvantagem, e passou a aparecer no início dos filmes, sempre que possível.

Outra característica era a técnica McGuffin, ou MacGuffin, que foi desenvolvida pelo próprio diretor. Nela um objeto ou uma pessoa são usados somente como pretexto para levar à trama principal. Novamente Psicose é bom exemplo:  o dinheiro, o desfalque cometido por Marion, é o McGuffin, pois é apenas um motivo para que ela chegue ao Bates Motel, que depois perde importância. Já em Cortina Rasgada, o McGuffin é a fórmula que possibilita a construção de um antimíssil, que faz com que o personagem principal vá para Berlim Oriental, onde há a continuidade da trama.

Provavelmente, nunca mais teremos um diretor tão grandioso quanto Hitchcock. Vivemos em uma época em que não existem muitos obstáculos a serem superados no cinema. E era exatamente nesse quesito em Alfred era mestre: vencer barreiras.

Quem escreveu

Vitória Araújo
Apaixonada por cinema desde criança – com coleções de VHS e DVD’s. Assiste pelo menos a um filme por dia, às vezes cinco. Acredita que o cinema é a junção de todas as artes, e é isso que o torna especial: a capacidade de transmitir emoções para o espectador por meio de uma tela. Fortalezense, fluente em inglês, encantada pelo cinema de Hitchcock e com uma paixão secreta por Lars von Trier; eclética que dói na alma. Dificilmente odeia, raramente ama um filme. Aprecia obras por inteiro e reconhece a dificuldade da realização de uma obra cinematográfica. Dirigiu diversas peças teatrais, mas sonha em dirigir filmes. Seu pai diz que ela irá morrer de fome com tal carreira tão arriscada, e atualmente ela não sabe o que fazer da vida.