Moonrise Kingdom: um filme de Wes Anderson

1

Essa frase diz mais sobre o filme do que deveria.

O mise-èn-scene do sensibilíssimo diretor Wes Anderson é encantador – com cores em tons pastéis, narrativas e firulas estéticas. Muito de seus filmes anteriores, tais como Excêntricos Tenenbaums (2001) e A Vida Marinha Com Steve Zissou (2004), prevalece em Moonrise Kingdom (2012).

Os personagens principais são outsiders, mas não de uma sociedade como a nossa. Anderson faz questão de criar um novo universo por inteiro, adequando cada um de seus personagens e tornando-os únicos.

Mas os adultos são imaturos, sensíveis e infelizes; as crianças são racionais e buscam a mudança e a aceitação. Logo de início percebe-se que os personagens criados e desenvolvidos por Anderson não são como nós, mas demora-se um pouco a entender o porquê.  Apesar de tudo, até mesmo os personagens secundários têm seu papel e sua importância, além de um aprofundamento ímpar por parte da direção e do ator que o vive. A escolha de elenco é sempre correta.

2

Poderíamos classificar os moradores do lugar onde se passa o filme como “esquisitos”, mas, na realidade o padrão de “normal” deles é apenas diferente do nosso. Suzy, interpretada por Kara Hayward, e Sam, Jared Gilman, são diferentes e não têm comportamento aceitável para aqueles com quem convivem.  A partir daí, procuram a aceitação.

3Anderson utiliza câmeras que se movimentam sempre a 90°, apenas para a horizontal e vertical – e não para a diagonal, como estamos acostumados. Certamente isto provoca um efeito de teatralidade e torna a obra ainda mais esplendorosa.

Sam e Suzy apaixonam-se e planejam fugas, sendo estas não apenas físicas. Há a tentativa de entendimento da sociedade em que vivem e a frustração anormal, para a idade, com os adultos.

Sam é um órfão que não consegue adaptar-se à família adotiva, e Suzy não se sente confortável com sua família biológica extremamente bagunçada. Ambos sentem-se rejeitados e temem uma rejeição maior, não somente por parte de parentes próximos, mas por toda a sociedade. Sam e Suzy sabem que não conseguirão fugir para sempre e, talvez por isso, aproveitam o tempo que conquistaram a sós, descobrindo seus corpos e sentimentos.

Quando fica sabendo da fuga dos dois, a população local comove-se e sai em busca dos foragidos. A trilha sonora acompanha a aventura e não perde o ritmo de drama, romance e humor inocente. A habilidade de Wes Anderson é mais uma vez provada em Moonrise Kingdom, um filme belíssimo, encantador, que garante o entretenimento e a transmissão de valores.

4Foi em Pura Adrenalina (1996) que Anderson estreou com um filme em longa- metragem, mostrando uma cômica reunião de assaltos a casas e fábricas. O clima do filme é perceptivelmente diferente dos demais da época, mas seu estilo não estava ainda tão definido. Em A Viagem para Darjeeling (2007) já há uma transformação notável, pois ele introduz drama e comédia juntos, com uma teatralidade explorada tanto por parte do cenário e enquadramento de cenas, quanto por parte dos atores, que pareciam estar em uma dupla atuação – para nós e para uma plateia. Os personagens são mais extravagantes, o que também registrado em Os Excêntricos Tenenbaums.

De fato, Wesley Anderson é um dos cineastas que mais fogem ao padrão de sua geração. Não seria exagero colocá-lo ao lado de Tim Burton ou Woody Allen. Ainda existem cineastas com suas marcas registradas e estilos cinematográficos diferenciados. Anderson diferencia-se por sua capacidade de criação, de um mundo paralelo tão diferente do nosso – e ao mesmo tempo tão parecido, como é exemplificado em Moonrise Kingdom.

Quem escreveu

Vitória Araújo
Apaixonada por cinema desde criança – com coleções de VHS e DVD’s. Assiste pelo menos a um filme por dia, às vezes cinco. Acredita que o cinema é a junção de todas as artes, e é isso que o torna especial: a capacidade de transmitir emoções para o espectador por meio de uma tela. Fortalezense, fluente em inglês, encantada pelo cinema de Hitchcock e com uma paixão secreta por Lars von Trier; eclética que dói na alma. Dificilmente odeia, raramente ama um filme. Aprecia obras por inteiro e reconhece a dificuldade da realização de uma obra cinematográfica. Dirigiu diversas peças teatrais, mas sonha em dirigir filmes. Seu pai diz que ela irá morrer de fome com tal carreira tão arriscada, e atualmente ela não sabe o que fazer da vida.