O triunfo da comédia francesa

119
François Cluzet e Omar Sy em Intocáveis, um grande sucesso de crítica e bilheteria

François Cluzet e Omar Sy em Intocáveis, um grande sucesso de crítica e bilheteria

A França tem tradição em cinema. Em cinema de autor, filme noir, Nouvelle Vague. Tradição e fama – de um cinema introspectivo, delicado, as vezes incompreensível, sonolento, sensível demais, intelectual demais. Sobram expressões que tentam resumir em poucas palavras uma imensidão de obras. Que surpresa, então, descobrir um outro aspecto do “cinema francês”, que apesar de menos comentado, preenche salas e mentes brilhantes: o dom de fazer rir.

O momento próspero da comédia francesa mal pode ser considerado um momento. Há quase 40 anos as produções do gênero vêm ganhando espaço nas listas de maiores bilheterias e, surpreendentemente – já que geralmente acontece o inverso –, nas listas de maiores sucessos de crítica. Os franceses, como o povo mais cinéfilo do planeta, exigem uma qualidade no humor que talvez não esteja em pé de igualdade com nenhum outro país.

E essa escassez das gargalhadas bem merecidas no resto do mundo é percebida também pela própria indústria, que ganha voz por meio de seus prêmios – por mais tendenciosos que eles sejam. Em suas 13 edições, o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro reconheceu três comédias como Melhor Filme, o que na verdade é uma boa estatística, já que em 86 anos de Oscar, apenas 13 comédias – incluindo as dramáticas – tiveram a mesma sorte. Mas os líderes são mesmo os franceses. O César, moldado nos parâmetros do Oscar, tem nada menos do que metade dos seus 40 vencedores de Melhor Filme nessa categoria.

Em 28 de fevereiro, o César 2014 aceitou mais um na lista: Eu, Mamãe e os Meninos, escrito, dirigido e protagonizado pelo integrante da companhia de teatro Comédie-Française, Guillaume Gallienne. Com ele, mais duas comédias levaram alguns dos prêmios principais para casa, abocanhando nove das 22 honrarias entregues na noite. E tudo isso só em 2013.

[alert type=white ]Em terras tupiniquins, seguindo os passos hollywoodianos, nos voltamos para a comédia pastelão. O Brasil se tornou um grande produtor de comédias, mas, infelizmente, se foca quase que exclusivamente nas piadas rasas. Ainda assim, temos muitas perolas do humor inteligente, como O Auto da Compadecida, Eu, Tu, Eles, O Bem Amado, O Homem que Desafiou o Diabo e Saneamento Básico, O Filme.[/alert]

O sério também é engraçado

O veterano do riso, Thierry Lhermitte, e o novato Raphaël Personnaz em Quai d’Orsay

O veterano do riso, Thierry Lhermitte, e o novato Raphaël Personnaz em O Palácio Francês

Em tempos de crise, as pessoas buscam o riso. Esse fato já virou estratégia de marketing nos mais diferentes domínios, e a França também reconheceu a oportunidade, mas com uma grande diferença. Em vez de remédio, rir se transformou na própria arma.

A crise política que assola o país não é tabu, mas fonte de discussão, mesmo que seja por meio da comédia, como em O Palácio Francês (Quai d’Orsay), que rendeu o César de Melhor Ator Coadjuvante a Niels Arestrup. A “Margem Orsay”, situada no centro de Paris, abriga o Ministério das Relações Exteriores, palco para as trapalhadas do novato Arthur, no cargo de assistente do ministro. Recém formado na prestigiosa ENA – universidade francesa criada para “democratizar” o acesso às altas funções públicas – Arthur é encarregado de escrever os discursos do ministro Alexandre Taillard, um homem poderoso e influente, mas também cheio de charme e simpatia.

3 De Bertrand Tavernier, 2012. Clique aqui para ver o trailer (de Portugal)

De Bertrand Tavernier, 2012. Clique aqui para ver o trailer

Sem cinismo ou julgamento, o filme não chega a ser uma crítica, mas mergulha no turbilhão de contradições em que se encontra a diplomacia governamental. Entre as aparições públicas do ministro, nas quais reinam as calmas aparências, e o dia a dia no Ministério, no qual reina o estresse, O Palácio Francês expõe algumas fragilidades do sistema político francês, um dos mais respeitados no mundo. As mesquinharias do trabalho, os absurdos das situações – a verdadeira “politicagem” – são vividos e comentados por dentro, quase como uma confissão dos bastidores.

Essa visão é real e tem dono. Os quadrinhos que inspiraram o filme foram escritos por Christophe Blain e Abel Lanzac (pseudônimo do diplomata Antonin Baudry) e foram baseados em experiências próprias de Baudry, durante o tempo em que foi conselheiro do primeiro ministro francês, Dominique de Villepin. Os quadrinhos literalmente ganham vida com o filme, que utiliza recursos clássicos do gênero – por exemplo, as onomatopeias – para recriar o cenário absolutamente hilário da vida de Arthur.

O Palácio Francês trata de assuntos sérios com uma ironia inteligente vista poucas vezes no cinema. Seria muito dizer que passa perto de Chaplin em O Grande Ditador, mas definitivamente pertence a lista das grandes comédias sobre o tema.

[alert type=white ]Outras comédias políticas: Y a-t-il un Français dans la Salle? (1982), Os Nomes do Amor (2010), Le Crocodile du Botswanga (2012), La Marche (2013)[/alert]

O tabu é mais engraçado ainda

Guillaume Gallienne também representa sua mãe em Eu, Mamãe e os Meninos

Nunca foram tantos os filmes com temática homossexual. Os sérios, pois há tempos o gay engraçadinho, o estereotipado, a “bichona”, esses fazem sucesso até com os mais preconceituosos, que veem no riso uma espécie de abrandamento. Nesse contexto, uma comédia que trata de uma saída do armário heterossexual poderia parecer uma afirmação de orgulho hétero, mas o tom apontado por Guillaume Galienne em seu primeiro filme como diretor é, acima de tudo, uma afirmação de identidade, que vai muito além da escolha sexual.

De Guillaume Galienne, 2013. Clique aqui para ver o trailer (em inglês)

De Guillaume Galienne, 2013. Clique aqui para ver o trailer

Pode soar estranho um personagem que procura viver situações que o convençam de sua homossexualidade, mas, mais do que tudo, aparecer em cena para reviver esses momentos é o golpe máximo na luta pela igualdade. Sim, o preconceito dá as caras para todos, até para os heterossexuais. Eu, Mamãe e os Meninos (Les Garçons et Guillaume, À Table!) é uma autobiografia, mas o motivo de Galienne para contar sua história é muito mais a graça da anedota em si do que arrogância, como a maioria dos textos do gênero. Por ter trejeitos femininos, um traço fruto da grande admiração que o jovem Guillaume nutre pela mãe, sua família está convencida de que ele é gay. Mais do que isso, eles conseguiram confundir o próprio garoto, que, na falta de uma explicação delicada por parte dos pais, acredita realmente ser uma menina. E Galliene interpreta seu eu adolescente de forma a também convencer o espectador disso.

A cada transição entre o adolescente perdido e o adulto bem resolvido que narra a história, fica mais claro que ninguém, além do próprio Gallienne, poderia ter escrito um roteiro tão pessoal, dirigido com tanto foco, ou encarnado tão bem os papeis principais. Tirar sarro de si mesmo é uma coisa que poucos ousam fazer, e Guillaume Gallienne é um comediante corajoso. Apesar de estar casado com uma mulher e ser pai, ele não vê a experiência de se livrar do rótulo equivocado como um alívio, mas como uma razão para levantar a bandeira das minorias, mesmo sem fazer parte delas. Com ele, o gay engraçadinho, estereotipado e bichona vira um grande defensor da causa por meio de um humor engraçadíssimo, mas acima de tudo, honesto. 

[alert type=white ]Outras comédias sobre gays: Pourquoi Pas Moi? (1998), Ma Vraie Vie à Rouen (2002), Esquecendo Cheyenne (2006), O Closet (2001)[/alert]

O engraçado pode ser inteligente

4

O engraçado pode ser inteligente

E o cinema que não busca esse lado ativista? Rir por rir, arte pela arte. É preciso descer o nível?

É fácil perceber os padrões no humor pastelão: ou as piadas são de gênero (prioritariamente contra mulheres), ou se referem a sexo, ou são meros insultos, camuflados em caretas ou trejeitos de atuação. Na maior parte dos casos, o que tem de “graça” nesses filmes, falta em cinema. Parece que, por ser um roteiro cômico, é preciso abandonar o cuidado com todo o resto, os bons planos, os bons ângulos, o bom som e até – pasmem – as boas perfomances.

De Albert Dupontel, 2013. Clique aqui para ver o trailer (em francês)

De Albert Dupontel, 2013. Clique aqui para ver o trailer (em francês)

É lá que a comédia – investigativa? – Uma Juíza Sem Juízo (9 Mois Ferme) surpreende. Com atuações ricas em detalhes, o filme rendeu a Sandrine Kimberlain o César de Melhor Atriz, uma vitória que alguns dirão ser desproporcional (estavam no páreo Léa Seydoux por Azul É a Cor Mais Quente e Bérénice Bejo por O Passado), mas que ressalta um talento inegável. O outro prêmio da obra, de Roteiro Original, é quase indiscutível. Originalidade é a essência do filme de Albert Dupontel, que, seguindo uma tendência (justa) de autoconfiança, também foi escrito, dirigido e protagonizado por ele.

Kimberlain dá vida a uma juíza orgulhosa de sua independência, que se descobre grávida e sem memória dos acontecimentos que levaram à concepção, ou sequer um possível rosto para a identidade do pai. Depois de uma busca pelo DNA no banco de dados da polícia, Dupontel aparece como o companheiro misterioso, mas com a ficha suja, acusado de tentativa de assassinato e de canibalismo. Ela é forçada por ele a trabalhar no caso, e as diferenças de personalidade dos dois personagens dão margem a uma infinidade de situações hilariantes.

A grandiosidade de Uma Juíza Sem Juízo não reside em barreiras quebradas, em temas controversos ou mesmo em uma execução diferenciada (apesar de alguns detalhes particulares de direção), mas na prova de que é possível fazer cinema – não filme, cinema – de qualidade ainda que com o único objetivo de fazer rir.

[alert type=white ]Outros filmes “só” engraçados: Le Gendarme de Saint-Tropez (1964), Papai Noel É um Picareta (1982), Les Trois Frères (1995), O Jantar dos Malas (1998), A Riviera Não É Aqui (2008), Intocáveis (2011), Qual é o Nome do Bebê? (2012)[/alert]

Infelizmente, alguns desses filmes nunca viram a luz do dia aqui no Brasil. Poucos foram para os cinemas, alguns saíram direto em DVD, outros, nem isso. Mas para nossa sorte, Eu, Mamãe e os Meninos e Uma Juíza Sem Juízo serão exibidos no Festival Varilux desse ano, junto com outras novidades francesas. Confira a programação no site do festival.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.