Capitão Phillips

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Já estava mais do que na hora de Paul Greengrass entregar mais um de seus filmes, especialmente depois  da obra-prima  de ação e espionagem, O Ultimato Bourne,  e a eletrizante experiência de Voo 93. Com Capitão Philips, Greengrass não só apresenta  outro thriller formidável, como oferece a chance para o lendário Tom Hanks brilhar mais uma vez.

Grenngrass monta o filme de forma similar à Voo 93, com um realismo silencioso,  dando ao público um retrato rápido, mas  completo, dos personagens. Logo no início, enquanto vemos Tom Hanks, na pele de Phillips, se preparar para o trabalho, vemos um verdadeiro homem de família, que se importa muito com o emprego. Com a performance perfeita de Hanks, a conversa de Phillips com sua esposa no carro, só ilustra o realismo de sua vida.

O que poderia ter sido apenas um filme sobre um capitão da de Philips Marinha norte-americana e  a  tripulação de um grande navio cargueiro  contra os piratas somalianos sanguinários se tornou, nas mãos do diretor, um tenso jogo de xadrez armado entre dois seres humanos. A mesma atenção que Greengrass dá à Philips, no início do filme, também oferece a  Muse, o líder dos piratas, personagem de Barkhad Abdi. O diretor não se rende ao patriotismo e heroísmo norte-americano simplesmente. Ele mostra os dois lados da moeda, expondo o confronto físico e mental entre o capitão americano e o pirata somaliano.

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A luta travada entre os dois personagens foi meticulosamente elaborada  na ótima narrativa do roteiro de Billy Ray (Jogos Vorazes e Plano de Vôo).  O combate de diálogos entre Philips e Muse foi armado de maneira muito inteligente pelo roteirista, de forma que um personagem queira estar sempre a frente do outro em tal situação. A direção vibrante de Greengrass e a edição rápida das cenas  se completam para exibir a tensão que marca  cada minuto do filme, deixando, inclusive, o espectador na dúvida sobre para quem torcer.

Ambas as atuações dos capitães colaboram imensamente para esta dúvida. Hanks brilha no papel de Philips, como já não fazia há tempos, talvez desde O Terminal. Interpreta seu personagem com tanta humanidade, que é impossível não nos se emocionarmos quando toda a sua calma e autocontrole  se acabam. Mas Barkhad Abdi também  brilha no filme. Em sua performance, nos oferece uma personagem que é, ao mesmo tempo assustador, digno de pena. O ator, que antes de conquistar o papel era surpreendentemente um motorista de limusine em Hollywood, teve como companheiros de cena outros estreantes na profissão, que também estão ótimos.

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O filme, que poderia ter sido perfeito, falha em partes como não apresentar e melhor explorar os personagens que salvam Philips da tripulação dos piratas somalianos. Eles parecem surgir apenas como propagandistas da força militar americana. E a certo ponto, a narrativa fica também um pouco arrastada, apesar de que nessas horas, Greengrass foca totalmente na relação entre  Philips e seus sequestradores, provocando um  sentimento angustiante, de claustrofobia, como em Voo 93. Mas, infelizmente, Capitão Phillips não recebeu o devido mérito no Oscar (especialmente por Hanks nem ter sido sequer indicado). Greengrass entregou um filme que leva-nos em uma experiencia frenética, que liberta nossas emoções mais humanas. Isso é o que ele sabe fazer de melhor.

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Quem escreveu

Raphael Georg
É um cinéfilo desde que se lembra de ser um ser humano. Ao longo dos anos começou a aprimorar sua atenção aos filmes para se tornar um verdadeiro crítico. Hoje ele hoje gosta de todos os gêneros possíveis, desde a amizade de um suricate com um javali e seu lema, Hakuna Matata, à um negro recitando Ezequiel 25:17 para um bando de garotos assustados. Ele apenas quer ver um filme transmitindo a sua arte e mágica da melhor forma possível.