Ninfocinemaníaco, Lars von Trier está rindo de você

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Quando é que temos o prazer de ver um cineasta tirar sarro de sua própria filmografia, de sua imagem, de sua própria arte? Às vezes, em trabalhos recentes, Woody Allen referencia sutilmente sua época de ouro; Martin Scorsese costuma fazer homenagens engraçadas aos seus clássicos; e até Adam Sandler reutiliza piadas com um leve tom de ironia. Mas quantas vezes essa reciclagem ultrapassa a qualidade das fontes? Em Ninfomaníaca isso acontece.

O diretor dessa longa e polêmica obra não é o mesmo de Dançando no Escuro ou Melancolia, muito menos de Dogville ou Anticristo. Mas lembra vagamente o realizador do filme #2 do Manifesto Dogma 95, Os Idiotas. Aliás, se Lars von Trier e Thomas Vinterberg criaram o Manifesto como forma de rebelião ao cinema comercial e ao crescente uso de tecnologia e dos efeitos especiais, em uma afronta à poderosa Hollywood e à França (que decidiam o que era cinema e o que não era), as dez regras do Dogma 95 eram, acima de tudo, uma ótima piada para aqueles que sabiam do que estavam rindo.

Enquanto críticos ao redor do mundo condenavam, possessos, o novo “manual do cineasta”, von Trier e Vinterberg os gozavam pecando: logo o #1, Festa de Família, já fugia sorrateiramente de alguns dos dez mandamentos. Agora, Lars von Trier volta a cuspir no prato que come. Ninfomaníaca é uma comédia negra escrita para poucos. Pelo menos, poucos enxergarão assim. Famoso pelos temas polêmicos e aparentemente satisfeito com o status de gênio cult, o diretor dinamarquês não economiza tempo – a versão sem cortes teria cinco horas e meia de duração – para rir escondido, tanto daqueles que o endeusam quanto daqueles que o menosprezam. Daqueles que, enfim, têm algo a dizer sobre ele. Se por um lado o filme contém todos os aspectos do cinema de von Trier – roteiro, direção, fotografia, trilha sonora e a dose já comum de polêmica –, o que faz com que ele se misture facilmente com o resto da filmografia do diretor, por outro, sob um olhar mais malicioso, a obra esconde novamente o desprezo pela tradicional maneira de ordenar, valorizar e julgar o cinema.

Uma ninfomaníaca (autodiagnosticada) contando suas aventuras sexuais soa estranhamente familiar – para quem é estranhamente familiarizado com a franquia de arte-erótica-mas-não-pornô da francesinha Emmanuelle. A divisão por capítulos é outro recurso narrativo comum no gênero adulto, usado como forma de evitar as partes chatas, sumir com as conjunções que relacionam os parágrafos de um texto rápido e sem floreios (mas com alguns “desfloreios”). Uma técnica cinematográfica para dizer “vamos logo ao que interessa”. E o que interessa, o sexo, ainda que bem menos ousado do que em Azul É a Cor Mais Quente ou Um Estranho no Lago, pode causar desconforto aos espectadores mais puritanos.

No entanto, o que destoa em Ninfomaníaca é o papel do ouvinte. Se Joe fosse personagem de um filme pornô, seu confidente, Seligman, teria como único propósito atestar a sanidade da mulher, pois ela não é uma louca que fala sozinha. Porém, ele não faz isso. Dedicada ao grande público, menos tolerante e mais preconceituoso, surge a primeira mensagem de von Trier: Ninfomaníaca não é pornografia, apesar do marketing em torno do filme o aproximar da categoria. À Hollywood, não há muito a ser dito. Apesar do elenco hollywoodiano e das cenas de sexo educadamente polidas com o intuito de serem bem aceitas na América, o “filme europeu” é frequentemente tido como “filme de arte europeu”. Ou seja, estereótipo de monotonia que a indústria americana rejeita mesmo quando a obra conta com carros pegando fogo, violência, galãs terrivelmente bonitos e “observações em matéria de amor”, como coloca a própria Joe.

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Mas aos entendidos, aos cinéfilos com veia filosófica, aos críticos intelectuais e, principalmente, a todos que se orgulham de colocar os festivais alternativos no topo da cadeia alimentar cinematográfica, sobram iscas pra (n)os transformar em peixe. Sim, a quantidade de metáforas nesse texto compete com a quantidade de metáforas em Ninfomaníaca. Pesca com mosca, antissemitismo, Bolcheviques, garfos, portas automáticas, aviões, Glasgow, nós, patos silenciosos, pessoas que cortam as unhas da mão esquerda primeiro, intervalos proibidos na música medieval, termos banidos do vocabulário, Fibonacci, Bach, Edgar Allan Poe, Beethoven, Freud, Prusik, Ian Fleming, etc, etc, etc.

O discurso de Seligman é tão amarrado em analogias que todo o julgamento que ele faz à situação de Joe nunca passa de poesia barata. Se ela tem a experiência do sexo, ele tem a experiência da leitura, e uma necessidade inexplicável (pelo menos até o início do Vol. II) de provar que essa seria superior. Em certo momento, Joe o rebate: “Essa foi uma das suas piores digressões”. O salvador da ninfomaníaca não é o ouvinte mudo dos filmes pornô, mas está longe de ser a conjunção que faz a ponte entre os capítulos.

Opostos à frieza de Joe ao narrar seus sentimentos, mesmo os mais profundos, os comentários do inocente Seligman são o convite de von Trier aos desavisados. Ainda que o orgulho cinéfilo grite, parece completa perda de tempo mergulhar nos simbolismos dessas falas e imagens em busca de significado. Fazer relações entre os fatos narrados e outros fatos, encontrar metáforas, envolver em antecedentes históricos e inevitavelmente imprimir uma subjetividade pessoal ao que nos é dito de forma tão objetiva na tela é um comportamento quase que patológico dos críticos de cinema.

Se Joe é o filme de von Trier, Seligman somos nós. E ele se cala – talvez uma dica de que aí vale investir – diante da única frase de efeito proferida por Joe: “A única diferença entre mim e o resto das pessoas é que eu sempre exigi mais do pôr do sol”. No entanto, infelizmente essa é uma leitura da obra que se auto invalida, um motivo para desconsiderar completamente esse texto, que talvez seja só mais do blablabla psicológico vazio de Seligman. Ao fazer tal crítica, Ninfomaníaca se torna, no fundo, incriticável.

Com ironia afiada, cinismo descabido e uma maldade medida em comparações pseudo-intelectuais, Lars von Trier fecha a Trilogia da Depressão, tratando não da depressão da personagem feminina, como nos dois filmes que a completam (Anticristo e Melancolia), mas da decadência do juiz das ações de Joe. Aquele que fala muito e não diz nada, mas continua a acreditar ser digno da tarefa, representação de um mundo que, pela fama de filósofo visual que o diretor recebeu às custas da Crítica, von Trier se encontra bem no centro.

Nesse Manifesto Dogma Ninfomaníaco é necessário abusar da tecnologia hollywoodiana e fazer o melhor do cinema de autor francês, um trabalho meticuloso, mas com objetivo justamente de negar ambos. O Ninfomaníaca de Lars von Trier é a Fonte de Marcel Duchamp, o infame mictório considerado uma das obras de arte mais importantes da história. Na tentativa de gozar a Arte, a gozação (o gozo, no caso de von Trier) se torna uma peça criticamente aclamada pelo próprio meio. Duchamp usou um objeto ready-made e só precisou pensar na concepção da crítica, enquanto von Trier cuidou da criação de um filme ready-made, que tem ares de só mais um mictório, mas que agora serve à outros propósitos. O paradoxo colocado em pauta pelos dois é tão cruel que sou obrigada a usar a primeira pessoa para admitir que, depois de tanto falar, eu também não tenho nada a dizer.

Ninfomaníaca é um ensaio detalhista sobre a arte da narração. É um palco para experimentações na arte da direção. É uma sequência de curtas muito bem amarrada que explora novos ângulos, tons e técnicas visuais. É um primor de montagem e edição. É um desfile de atuações brilhantes. É um filme pela desmitificação do sexo, no cinema e na vida.

Se tudo isso o faz um filmaço, não é nem de perto o motivo pelo qual a enorme pornochanchada de Lars von Trier é sua obra mais prima, possivelmente uma das melhores produções do ano e um feito histórico (mas de novo, quem sou eu para julgar): a metalinguagem que propõe a desconstrução da própria arte é um cuspe que raramente torna o prato mais saboroso (parece não ter funcionado com o Dogma 95), mas, quando o consegue, nos faz entrar no eterno dilema no qual o ovo é a arte e a galinha é quem a definiu como tal. Ou será o contrário? Talvez Seligman soubesse a resposta.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.
  • Henrique Persequini

    Encontrei o site em um comentário na crítica do Pablo Villaça. Achei a análise mais completa que li de Ninfo. Eu realmente gostei muito das suas considerações e colocações e de como uma faceta não mancha ou “desjustifica” a(s) outra(s) do filme.