A extraordinária simbologia de O Planeta dos Macacos

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Considerações opacas sobre uma das obras-primas da ficção científica

Considerações opacas sobre uma das obras-primas da ficção científica

É quase impossível falar sobre a imensa criatividade que envolve o mundo simulado em O Planeta dos Macacos. Existem estudos densos, e até maçantes, cheios de teses filosóficas sobre o assunto, mas não é o caso citá-los aqui. O fato é que é naturalmente difícil instigar toda a metafísica da obra, simplesmente porque ela é imensuravelmente fértil, como uma teia de vários pensamentos que se completam.

Entretanto, vamos lá, e comecemos pelo começo. O monólogo inicial, um devaneio de George Taylor, personagem vivido por Charles Helston, mostra a inteligência de um roteiro impecável.

"A Terra envelheceu 700 anos desde que partimos... enquanto nós não envelhecemos quase nada. Eu deixo o século XX sem nenhum remorso, mas... Mais uma coisa. Se é que alguém está escutando. Não é nada científico, é algo puramente pessoal. Aqui em cima... tudo parece diferente. O tempo se alarga. O espaço é infinito. Afeta o orgulho de um homem... Eu me sinto só."

“A Terra envelheceu 700 anos desde que partimos… enquanto nós não envelhecemos quase nada. Eu deixo o século XX sem nenhum remorso, mas… Mais uma coisa. Se é que alguém está escutando. Não é nada científico, é algo puramente pessoal. Aqui em cima… tudo parece diferente. O tempo se alarga. O espaço é infinito. Afeta o orgulho de um homem… Eu me sinto só.”

Este trecho é a representação cinematográfica dos diferentes tapas na cara que a humanidade levou na história da civilização. Primeiro, com Galileu: o planeta dos homens não é o centro nem de seu sistema solar – quem dirá de seu universo. Depois Darwin: o homem não é o centro das espécies e da criação. Em terceiro e quarto, Einstein e Freud: o tempo humano não é o único e, com o subconsciente, o homem não é o centro nem de si mesmo.

A expressão facial de Taylor denuncia os perigos de estar em uma nave espacial rumo ao nada. Pode parecer aventuresco ir para o espaço, conquistar imortalidade e desfrutar de uma gravidade nula, mas, por trás de toda exclusividade e glória, existe uma grande insatisfação, um grande “e agora?” estampado em suas caras. Através de diálogos e simples gestos, o filme trata desse ódio ao ócio de forma sublime, tendo em vista que o personagem principal, um astronauta – uma profissão considerada recheada de adrenalina – é ranzinza e pessimista.

O desembarque em um planeta meramente desconhecido levanta mil perguntas sem respostas. Em um breve diálogo, Taylor pede a Landon, um colega astronauta interpretado por Robert Gunner, que não devaneie, que não crie um sentido por trás de toda a missão, que tudo o que existe é, simplesmente, o que existe, e não existe destino, somente o agora.

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A sociedade invertida, na qual os macacos obtêm o poder é, na verdade, um retorno aos tempos em que não havia indústria e nem uma economia tão pautada no lucro. O futuro visto pelo astronauta é nada mais do que o retorno de um círculo que ele já bem conhece, pois é homo sapiens.

Na película, o sistema se recicla e se molda de acordo com o momento. Também por essa razão, está facilmente aberto a contradições – como o país X apoiar o país Y numa empreitada contra o país Z e suas ideologias; mas assim que o país Z é exterminado, os dois primeiros voltam-se um contra o outro, jurando inimizade desde sempre.

É bem verdade que há diferenças entre o livro La Planète des Singes (Pierre Boulle, 1963) e o roteiro adaptado. No livro, os macacos possuem carros, helicópteros e navios, itens que foram cortados na produção cinematográfica para poupar gastos. Coincidentemente, a mudança desproposital do roteiro reitera o ponto de vista em questão; ou seja, que a sociedade símia é basicamente medieval, com imensa desigualdade social, na qual  a Igreja e o Estado ainda estão de mãos dadas. A obra é de 1968, mas aborda vários tempos diferentes, incluindo o de hoje, pois a religião – independentemente de qual – ainda influencia a opinião pública e os poderes constituídos, mesmo em Estados laicos. A principal crítica de O Planeta dos Macacos em relação ao assunto é que, onde essas raízes são profundas, é difícil encontrar um povo menos intolerante. Sociedade retrógrada significa injustiça, desigualdade e preconceito.

Dr Zaius. Ministro das Ciências e Defensor da Fé – a personificação da Idade Média

Dr Zaius. Ministro das Ciências e Defensor da Fé – a personificação da Idade Média

A propriedade privada é também criticada no filme, ainda que levemente. No começo de O Planeta dos Macacos, quando os três astronautas se banham no rio que encontraram, os selvagens levam seus trajes sem que eles percebam. Nesse momento, na sociedade em que se encontram, nenhum deles poderia reinvindicar as roupas, pois os bens materiais são, na verdade, conjuntos de crenças que compramos quando aceitamos as regras sociais. São coisas nossas desde que estas regras existam; desde que papel seja dinheiro, desde que cartão de crédito seja um acesso ao dinheiro, desde que ações se convertam em dinheiro… Na barbárie, pelo contrário, não existe alimento, moradia ou calor conquistados de outra forma que não as maneiras mais brutas e primitivas.

– Ao menos não tentaram nos morder. – Deus abençoe os vegetarianos...

– Ao menos não tentaram nos morder.
– Deus abençoe os vegetarianos…

O filme é, sobretudo, uma crítica ao poder. Charles Bukowski, vivendo sob um contexto de revoltas nos Estados Unidos, disse, em um de seus textos: “Uma mudança no poder não significa uma cura. O poder não é uma cura. O grande esforço de suas mentes não deve ser como destruir um governo, mas como criar um governo melhor.” É exatamente isto que O Planeta dos Macacos passa ao espectador: que toda forma de se organizar politicamente é, necessariamente, uma forma de destruição – e não de construção –, que inevitavelmente oprime alguns em nome dos interesses daqueles que estão no topo da hierarquia, ou seja, daqueles que detêm o poder.

Taylor é como uma calculadora caída do céu na Grécia de Platão. Uma utopia que se realiza e espanta a ciência da época

Taylor é como uma calculadora caída do céu na Grécia de Platão. Uma utopia que se realiza e espanta a ciência da época

Um fato curioso é que o apelido que a cientista dá a Taylor quando ele é capturado é Bright Eyes (Olhos Claros, em tradução livre), o mesmo que Will Rodman dá ao macaco superdotado Cesar no gênese de 2011, O Planeta dos Macacos – A Origem. Assim, propositalmente, o paralelo fica inevitável; como Cesar na sociedade humana, Taylor desenvolve uma capacidade intelectual avançada em relação aos outros humanos – que são criados como macacos – e, da mesma forma que Zira o observa mais de perto, Rodman também tem uma condescendência com o animal que o resto da sociedade – tanto símia quanto humana – não possui.

Depois de toda a explicação de como foi parar ali, os cientistas do planeta dos macacos relutam em acreditar no humano, por motivos óbvios. Como reagiria Newton se dessem um computador a ele? É algo extraordinariamente absurdo aos olhos primitivos.

“Mas que tecnologia fantástica!”

“Mas que tecnologia fantástica!”

Por isso, não importa quão geniais eram os cientistas Zira e Cornelius. É natural que eles se assombrem com a ideia de espaço. Daí a cena na qual aparece um aviãozinho de papel ser tão genial e complexa; como os macacos e os humanos são de culturas diferentes, mesmo a criança mais idiota poderia surpreender o símio mais inteligente.

Também a cena do tribunal é outra espetacular. Nela, Zira prova seu valor como cientista, sem recuar diante da autoridade opressora. Como Taylor não tinha nenhum respeito – como um macaco falante não teria em um tribunal humano – coube aos dois cientistas, mas principalmente à fêmea, a função de gritar as verdades científicas aos juízes, que ignoravam, cômodos. Deste cenário, surge a seguinte imagem:

Ignorância

Ignorância

A cena final é considerada uma das mais impactantes da história do cinema. Descobre-se que, na verdade, o planeta desconhecido era a própria Terra, e que os macacos surgiram de alguma praga, a qual a raça humana não resistiu. A imagem da estátua da Liberdade se soma com algumas frases soltas de outras cenas, que pulam na mente do mais observador.

“Se o homem era superior, por que não conseguiu sobreviver?”

O homem é um animal belicoso que luta contra tudo que o rodeia – até ele mesmo”

Não busque a resposta, Taylor. Pode não gostar do que encontrará.”

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Além de esclarecer algumas dúvidas ao protagonista, a cena dá margem e sustentação ao argumento do ciclo eterno, pois dá a impressão de que existem mistérios desde o início dos tempos até o futuro mais distante. O que é a estátua da Liberdade para os macacos, se não as pirâmides para nós? Ainda há o fundo do mar desconhecido pelo homem, o núcleo da Terra, algo insustentável de pisar mesmo para o homem moderno. E se houver uma civilização atrás da outra? E se? E se? E se?

Às vezes, só é preciso aceitar a insignificância. Dói menos.

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O Planeta dos Macacos
Planet of The Apes

Com Charlton Heston, Roddy McDowall, Kim Hunter e Maurice Evans

De Franklin J. Shaffner, 1968