O Lobo de Wall Street

THE WOLF OF WALL STREET

THE WOLF OF WALL STREET

A parceria entre o mestre Martin Scorsese e o talentoso Leonardo DiCaprio tem resultado em excelentes trabalhos. Em 2007, por exemplo, garantiu ao diretor de Os Infiltrados seu primeiro Oscar, após 20 anos de uma gloriosa carreira. Mas o auge da parceria só aconteceria em 2013, com o roteiro adaptado de Terence Winter para a biografia do corretor de ações Jordan Belfort, personagem de O Lobo de Wall Street.

Há algum tempo, DiCaprio estava à espera desse trabalho e queria que Scorsese fosse o diretor, o que acabou rendendo o melhor filme da dupla até hoje. Pelo título, os fãs do diretor poderiam deduzir que o filme seria uma “aula” sobre o funcionamento dos negócios em Wall Street, no estilo da “aula” sobre a máfia italiana em Bons Companheiros (1990) ou sobre os cassinos de Las Vegas, em Cassino (1995). Mas só os 15 minutos iniciais do filme são assim direcionados, quando vemos o jovem Jordan, de 24 anos, trabalhando com Mark Hanna, o chefe da empresa de investimentos interpretado por Matthew McConaughey.

Uma aparição rápida de McConaughey, mas importantíssima para a trama, na qual Mark ensina a Jordan que, em Wall Street, não se convence o cliente a investir em ações para com ele dividir os lucros, mas sim para encher o próprio bolso. É a partir desse ensinamento que Jordan está pronto para construir sua própria Babilônia.

Jordan Belfort, o novo “herói” americano de Scorsese mostrando às crianças a mais perigosa droga do mercado

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É o começo da história de um homem que acumula fortuna e poder saindo do zero, alcança o apogeu nos negócios e, depois, experimenta uma grande queda. Contar essa trama é algo que Scorsese sabe fazer a décadas. Basta perceber os elementos contidos nos já citados clássicos Bons Companheiros e Cassino, além de Touro Indomável. É também possível perceber a influência de Scarface, de Brian de Palma, na obra.

Mas, além da história de Jordan, o que mais O Lobo de Wall Street tem a mostrar ao público? Uma crítica à Wall Street? Uma crítica aos atos de Jordan? Talvez, tudo isso, porém focando no tema principal do filme: o excesso.

Tal excesso ultrapassa o uso absurdo de drogas, as fúteis relações com dezenas de mulheres ou as outras loucuras que são detalhadas no filme. Na verdade, o que está por detrás de todo o excesso de seu comportamento é o dinheiro que ele ganha sem muito esforço. Quando ele constata que é fácil lucrar às custas dos outros, se torna um louco ganancioso, que quer mais e mais grana, e mais e mais prazeres materiais.

3 O elenco se submeteu aos efeitos do fermento em pó no lugar da cocaína e se revoltaram contra Scorsese

O elenco se submeteu aos efeitos do fermento em pó no lugar da cocaína e se revoltaram contra Scorsese

E nesse ponto que o filme surpreende e se torna hilário. O humor retratado não é uma tentativa de fazer do drama uma obra de comédia negra. É a maneira inteligente de Terence Winter e Scorsese demostrarem o ridículo de toda a situação que envolve Jordan, afinal o homem de Wall Street e seus companheiros extrapolam ao nível do ridículo quando começam a ganhar fortunas. Cada personagem se transforma em uma demonstração quase primitiva do ser humano, em cenas que vão desde a contratação de stripers para o trabalho até a ação da “gangue” cheirando cocaína no traseiro de mulheres.

Em nenhum momento a narrativa de O Lobo de Wall Street vangloria o comportamento de Jordan (que, aliás, adorou o filme e pensa em fazer um talk-show com o mesmo título). Ao contrário. Scorcese explora a estúpida autoestima gananciosa do personagem em soberbos monólogos. Mas, como é um filme deste diretor, é quase impossível não torcer por Jordan e por seus aliados, graças à fantástica direção e ao elenco de luxo.

Jonah Hill e Leonardo DiCaprio: os Joe Pesci e Robert De Niro dessa geração

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Logo de cara, a amizade entre DiCaprio e Jonah Hill, que vive o companheiro de tramoias de Jordan, Donnie Azoff, lembra, e muito, a química de Robert De Niro e Joe Pesci, em Cassino. Não chega a tanto, mas os dois são carismáticos o suficiente para convencer em seus papéis, tanto quando fazem humor quanto drama. E ambos entregam (talvez) a melhor performance de suas carreiras até o momento. Mas não são só eles que brilham.  Rob Reiner, interpretando o nervoso pai de Jordan, e Margot Robbie, a esposa do vilão que lembra muito a Ginger McKenna (personagem de Sharon Stone em Cassino) se saem muito bem.

Três horas de corrupção, sexo, drogas e cenas absurdamente hilárias. Uma mistura que, graças ao excelente roteiro e a perfeita montagem da antiga parceira de Scorsese, Thelma Schoonmaker, flui de maneira fantástica. Um filme no qual nenhuma cena é desnecessária ou arrastada, no qual todo o humor e os absurdos servem de pano de fundo para a filosofia que transpassa a história. E qual é esta filosofia? A de que um ser humano pode atingir tamanha decadência graças à sua ganância e às ilusões que cria de si mesmo. O filme mais longo, engraçado e controverso de Scorsese é mais uma obra-prima em seu glorioso currículo.

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Quem escreveu

Raphael Georg
É um cinéfilo desde que se lembra de ser um ser humano. Ao longo dos anos começou a aprimorar sua atenção aos filmes para se tornar um verdadeiro crítico. Hoje ele hoje gosta de todos os gêneros possíveis, desde a amizade de um suricate com um javali e seu lema, Hakuna Matata, à um negro recitando Ezequiel 25:17 para um bando de garotos assustados. Ele apenas quer ver um filme transmitindo a sua arte e mágica da melhor forma possível.