Especial Oscar: como é que funciona mesmo?

on October 19, 2009 in Santa Clarita, California.

No último dia 10, a CNN transmitiu uma reportagem sobre a grande festa do cinema e mostrou o que seria a prova de que Leonardo DiCaprio finalmente levaria a estatueta para casa esse ano. (In)felizmente o furo da CNN não foi tão furo assim, pois a placa com o nome de DiCaprio não é exclusiva, cada indicado tem a sua esperando pelo dia da premiação.

 

1Pensando nessa confusão, decidimos fazer um tour pela vida do carequinha de ouro e explicar cada passo do processo, do lançamento de um filme até o dia da cerimônia. Vamos lá.

1. Filmes elegíveis

A tarefa de reduzir todos os filmes do ano aos poucos indicados parece, a princípio, difícil. Mas algumas regras bem estreitas ajudam a eliminar bastante coisa. Para merecer uma vaga entre os concorrentes, os filmes deverão cumprir alguns quesitos:

  • Ter mais que 40 minutos de duração
  • Ter sido exibido em um cinema do condado de Los Angeles por no mínimo sete dias consecutivos, com entrada paga, em película de 35mm ou 70mm, ou no formato digital de 24 ou 48 quadros por segundo
  • Ter sido divulgado comercialmente durante o tempo em que esteve em cartaz

Algumas das categorias, no entanto, têm requisitos extras:

  • Os concorrentes a Melhor Filme Estrangeiro têm que ter estreado no país de origem até o fim de setembro daquele ano e não precisam ter sido exibidos nos Estados Unidos. Cada país só pode indicar um filme por ano
  • Para Melhor Animação, no mínimo oito filmes elegíveis têm que ter sido lançados no condado de Los Angeles naquele ano, senão a categoria nem existirá na premiação
  • Para concorrer a Melhor Documentário, o filme deverá também ser exibido em um cinema do Distrito de Manhattan e ter uma crítica publicada no Los Angeles Times ou no New York Times

Por causa de um regulamento apertado, vários filmes foram desclassificados depois de apontado um descumprimento das regras. Em 1969, o documentário Young Americans levou o prêmio de Melhor Documentário, que depois foi revogado – única vez na história da premiação. Isso porque tinha algumas exibições em um cinema americano em 1967. Já em 1992, o filme Um Lugar no Mundo era a aposta do Uruguai entre os concorrente à Filme Estrangeiro, mas foi desclassificado ao se constatar que ele tinha sido produzido na Argentina.

E a maior gafe ocorreu em 1956, quando o musical Alta Sociedade foi indicado a Melhor Roteiro Original, apesar de ser baseado na comédia romântica Núpcias de Escândalo, de 1940, e portanto não elegível nessa categoria. Mas não foi por isso que o filme ficou de fora da competição. Acontece que os escritores indicados, Elwood Ullman e Edward Bernds, não tinham escrito o roteiro para o Alta Sociedade de 1956, e sim para o Alta Sociedade de 1955. Após a Academia admitir a confusão, os dois filmes foram desclassificados.

2. A lista de lembretes

Se uma produtora ou uma distribuidora quer que seu filme concorra ao Oscar, ela tem que cuidar de toda a papelada burocrática. Depois de recebidos os formulários Official Screen Credits (algo como Créditos Oficiais Exibidos) – uma lista dos nomes que deveriam concorrer em cada categoria desejada – a Academia faz então um listão, a Lista de Consideração dos Lançamentos Elegíveis, e envia para os mais de 6000 membros, no fim de dezembro.

Email de Bruce Broughton. Clique para aumentar

Email de Bruce Broughton. Clique para aumentar

É nessa hora que começa o lobby da indústria. Anúncios em revistas especializadas e cartas destinadas aos membros começam a circular, promovendo tal filme ou tal ator para tal categoria. Correspondência, emails, ingressos gratuitos, cópias em DVD, roteiros e propaganda, tudo isso é permitido pela Academia, desde que de acordo com o regulamento. É desonesto fazer qualquer menção aos méritos de um filme, por exemplo, além das ligações telefônicas e convites para exibições particulares serem expressamente proibidas. Mas Apesar dos avisos, ainda tem gente que faz. A canção Alone Yet Not Alone, escrita pelo ex-representante do setor musical da Academia, Bruce Broughton, concorria esse ano a Melhor Canção Original, pelo filme de mesmo nome. Mas Broughton foi desclassificado depois de divulgado um email dele endereçado aos colegas do ramo musical. Considerou-se que Broughton usou sua posição como ex-líder e atual representante do Comitê Executivo dos Músicos da Academia para ganhar vantagem para sua indicação.

 

Confira a galeria:

3. As indicações

Geralmente cada membro só vota para as indicações em sua área específica, assim, editores escolhem os indicados a Melhor Edição e figurinistas para Melhor Figurino, mas, no caso do prêmio de Melhor Filme, todos os membros podem submeter suas indicações. As exceções são para animação, documentário e filme estrangeiro, para os quais são formados comissões especiais que escolherão os indicados daquele ano.

Os eleitores escolhem seus cinco preferidos, listados por ordem de preferência. Na maioria das categorias, a escolha é só entre os nomes dos filmes. Para os prêmios de atuação, fica a cargo do votante decidir se um ator vai concorrer como principal ou coadjuvante; o ator é indicado na categoria em que receber mais votos.

Os membros têm aproximadamente duas semanas para fazer suas escolhas. Desde o ano passado, o sistema de votos é online, visando a segurança da competição. Os votos são, então, contabilizados em segredo pela prestadora de serviços inglesa PricewaterhouseCoopers (PwC). No início de janeiro, os indicados são anunciados em uma coletiva de imprensa no teatro Samuel Goldwyn, em Beverly Hills.

4. O juízo final

As escolhas de um membro anônimo para a premiação de 2013

As escolhas de um membro anônimo para a premiação de 2013

Uma semana depois começa a votação final, um formulário online que contém os nomes dos indicados em cada categoria. Nessa rodada só é possível votar em um indicado, e todos os membros votam em quase todas as categorias. Para Curta de Animação, Curta, Documentário, Curta de Documentário e Filme Estrangeiro só é permitido o voto se o eleitor atestar que viu todos os indicados. Os votos são então contabilizados pela PricewaterhouseCoopers na quinta feira que precede o domingo da premiação.

Depois da contagem final, só Rick Rosas e Brad Oltmanns, empregados de elite da PwC sabem o resultado, e eles são encarregados de transportar os envelopes até às mãos dos apresentadores.

O segredo: só duas pessoas, mesmo?

Rosas e Oltmanns na cerimônia de 2012

Rosas e Oltmanns na cerimônia de 2012

Rick Rosas e Brad Oltmanns são os guardiões dos envelopes há mais de dez anos e estão com os vencedores até o último momento. Rosas e Oltimanns memorizam todos os resultados a fim de garantir que nenhum apresentador se embaralhe na hora de abrir o envelope. Sob o comando deles, até hoje tudo saiu como o esperado, mas em 1996 foi necessária uma mãozinha do antigo dono do segredo, Frank Johnson. Sharon Stone e Quincy Jones apresentariam dois prêmios de trilha sonora em seguida, mas o envelope contendo o nome do segundo ganhador foi para o palco na hora do anúncio do primeiro. Johnson calmamente anunciou o erro para o ponto de Jones, que foi até as coxias saber quem era o verdadeiro vencedor enquanto Sharon Stone ganhava tempo fazendo piadas com o público.

As estatuetas: o carequinha pelado não era careca

Emilio "El Indio" Fernández

Emilio “El Indio” Fernández

As primeiras estatuetas eram feitas de bronze e folheadas a ouro, mas hoje o bronze foi substituido por britânio, que faz com que a peça de 34 cm pese “só” 3.85 kg. A escultura é considerada arte déco e consiste em um cavaleiro segurando uma espada, em cima de um rolo de filme com cinco furos. Cada furo representa um ramo da Academia: atores, roteiristas, diretores, produtores e técnicos.

Desde 1983, as estatuetas são fabricadas em Chicago, pela empresa R.S. Owens & Company. Eles também são responsáveis por gravar o nome de todos os indicados nas plaquinhas, como a de DiCaprio, mostrada na reportagem da CNN. São mais de 200! Só na hora que o vencedor é anunciado no palco que a placa final é fixada na estatueta. E as estatuetas também são únicas, pois cada uma recebe um número na base, e já foram feitas mais de 3000.

Os envelopes: vistos por muitos, tocados por poucos

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Desde 2011, o responsável pela arte dos envelopes é o designer americano Marc Friedland. Eles são feitos a mão em papel metálico, e contam com um padrão das estatuetas em folhas de ouro. Friedman faz quatro cópias de cada envelope e cada cartão anunciando o nome do ganhador, isso para cada indicado. São mais de 450 cartões e 96 envelopes, mas só 24 vencedores.

Na sexta feira anterior à festa, os dois sortudos da PwC destroem os cartões com os nomes dos perdedores. Isso para evitar o risco de que o vencedor possa ser deduzido pela pilha de perdedores e também para que os cartões não virem valiosos itens de colecionador.

Os envelopes são tão grossos e pesados que é impossível dobrá-los para colocar na bolsa ou no bolso. Isso garante que os premiados da noite exibam uma versão mais leve e portátil do emblema da vitória.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.