A beleza do sensível: uma viagem pela delicadeza do cinema

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O cinema, para muitos, é sinônimo de lucro. Pela indústria cinematográfica que se auto-alimenta de lucros em cima de receitas, o espaço para a criatividade e inovação se torna rara, pois o que é novo é também desconhecido. Ao invés disso se prefere algo que seja previsível e confortante na vida da maioria dos espectadores e, principalmente, que se baseie em algo longe da rotina das pessoas; é dela que estas fogem quando vão ao cinema. Aos olhos do senso comum, condicionou-se que o dia-a-dia é uma repetição que não vale a pena, que a ideia de permanecer-se longe do roteiro é essencial. Na ficção científica existem as teorias absurdas de conspiração, que prendem o espectador com muita ação; no romance, há aqueles casais impossíveis, onde o homem e a mulher são perfeitos um para o outro; nos filmes épicos, o simples fato do cenário estar em outra época é um atrativo que se distancia do cotidiano – nisso surgem centenas de obras do tipo Coração Valente, Tróia ou Robin Hood.

Por outro lado, e um lado ainda mais fundo, o conjunto de filmes que se sustenta na comunicação verbal e visual dos efeitos audiovisuais envolve praticamente todos os filmes já feitos. Em uma receita que não é necessariamente comercial, é preciso haver um horizonte na qual as pessoas possam se agarrar; do contrário não faria sentido, pois foge da visão da realidade . É preciso, também, criar um roteiro que seja cheio de verossimilhança, com uma ordem lógica, com pessoas ricas e pobres, e homens comandando e mulheres obedecendo, e animais em suas devidas jaulas. Como qualquer outra coisa, o cinema forma valores, que se baseiam na própria sociedade. Pode parecer loucura, mas isto comprime e limita a visão de qualquer realizador. Todas as experiências devem ser presumidas pelo texto e pela sequência lógica dos fatos, e deixam de ser visuais, auditivas, enfim, sensoriais.

Mas e se houvesse espaço para o subconsciente? Para as sensações? Não é impossível, há poucos filmes assim no mercado, mas eles existem. Principalmente a partir do século XX, através da empreitada surrealista de Buñuel e companhia, alguns cineastas tiveram o culhão necessário para ousar e redescobriram a forma de fazer arte com as orelhas. Seus filmes ausentam qualquer diálogo significativo e aparentam ter uma sequência quebrada dos fatos, embora com as mesmas personas durante o (não)desenrolar do filme. Apresentam, também, poucos personagens, com ou sem nomes, pois retratam mais a vida de uma ou duas pessoas de forma eloquente e gritante, investindo no mais louco e interior lado destas. Filmes como esses, sensíveis, dão mais espaço à fala do cenário do que ao próprio personagem; a interação entre os elementos cinematográficos fica mais evidente, como a música clássica sob o fundo cósmico em 2001: Uma Odisseia no Espaço, longa que consolidou-se nesta rara temática. O próprio diretor Stanley Kubrick disse ser “uma experiência visual, e não verbal”.

2001 traz consigo extrema sensibilidade, escassez de diálogos e trilha significativa; tudo o que um filme sensível poderia ter

2001 traz consigo extrema sensibilidade, escassez de diálogos e trilha significativa; tudo o que um filme sensível poderia ter

As produções sensíveis não querem se vender ou proclamar previsibilidades confortantes. Pelo contrário, exibem confusão e mistério que fogem das interpretações mais racionais. Surrealismos como os de Eraserhead, que contém uma estética macabra singular, também são um fator importante para o cinema sensível. O filme de David Lynch se passa quase que inteiramente na mente de Henry Spencer, o personagem principal, e demonstra as inseguranças tradicionais de qualquer ser humano – como as relações familiares e a morte –, mas que, por serem impostas através de sonhos e devaneios, não fazem tanto sentido aos olhos do consciente humano.

O cotidiano de Henry Spencer é enlouquecedor, assim como o nosso. Mas isto é ocultado pela realidade cuja falsa estabilidade desmorona e rejeita qualquer semelhança ou identificação ao sentir uma obra como esta

O cotidiano de Henry Spencer é enlouquecedor, assim como o nosso. Mas isto é ocultado pela realidade cuja falsa estabilidade desmorona e rejeita qualquer semelhança ou identificação ao sentir uma obra como esta

Enquanto isso, no drama Os Famosos e os Duendes da Morte, a beleza está nos planos não-lineares da história. Se for interpretado de alguma forma, pode ser que conquiste uma crítica construtiva, embora isso seja, novamente, a impossibilidade de desfrutar do cinema sensível.

Trata-se da vida de um jovem interiorano, fã de Bob Dylan e que esteve envolvido em alguns processos que podem ser considerados traumáticos, como o suicídio de uma amiga, subentendidos na trama.

Fotografia expressiva, tomadas longas com brinquedos giratórios, que teoricamente não se relacionam em ponto algum com o personagem... Tudo isso o torna, na essência, um filme sensível.

Fotografia expressiva, tomadas longas com brinquedos giratórios, que teoricamente não se relacionam em ponto algum com o personagem… Tudo isso o torna, na essência, um filme sensível.

A temática das drogas cairia bem em um filme desses, que escolhe seu lado da emoção e dos sentidos, correto? Corretíssimo. É aquilo que faz de Enter The Void um dos maiores expoentes dos filmes de drogas de todos os tempos. O filme nos coloca, literalmente, na pele de um jovem traficante americano, residente em Tóquio. Nos primeiros minutos de filme, temos uma representação considerada inteiramente fiel aos efeitos da maconha e que fala por si.

Boa parte da vida do personagem é conhecida pelos flashbacks após a sua morte. O curioso é que, em quase todas as cenas, ele se encontra de costas – como se a câmera fosse a personificação do que é além da morte

Boa parte da vida do personagem é conhecida pelos flashbacks após a sua morte. O curioso é que, em quase todas as cenas, ele se encontra de costas – como se a câmera fosse a personificação do que é além da morte

Alguns fatos ocorrem e o personagem acaba sendo morto em uma emboscada policial. Todo o resto da trama – que tem aproximadamente três horas – se transforma em uma aventura do pós-morte e, simultaneamente, de flashback do personagem, resumindo-se aos sobrevoos dos prédios e o presenciar de cenas e diálogos do passado e do futuro, culminando em um surpreendente final.

6 O versátil Brad Pitt interpreta um pai intolerante na única parte verossímil – por assim dizer – do filme

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O versátil Brad Pitt interpreta um pai intolerante na única parte verossímil – por assim dizer – do filme

A efemeridade da vida como tema é essencial e temos como exemplo de filme nada menos do que Árvore da Vida. O vencedor da Palma de Ouro de 2011 é extremamente sensível e não faz o menor sentido. Carrega o pesado papel de explicar o que é a vida, e consegue. Não explicando. Das coisas que é preciso sentir arrepiar ao invés de ler algum filósofo tentando dissertar sobre o assunto em mil palavras.

Por último, a meia-metalinguagem Uivo, que tem apenas um personagem: James Franco na pele de Allen Ginsberg, poeta moderno americano. Divide-se em três partes, simultaneamente; em uma delas, o filme exibe um julgamento que avalia se o poema Uivo teve ou não intenções maliciosas em alguns versos, para proibir ou não a sua venda. Em uma das ambiguidades questionadas, por exemplo, o autor usa a pronúncia do verbo saxão blow tanto no sentido convencional – “assoprar”, no passado – quanto no sexual, ou seja, “ser chupado” (blown), no particípio. Ainda assim, o advogado de Ginsberg (o próprio não estava presente) o defende, dizendo que não é possível interpretar um poema fingindo ser prosaico o suficiente para isto.

Moloch whose buildings are judgement! Moloch the vast stone of war! Moloch the stunned governments!

Moloch whose buildings are judgement!
Moloch the vast stone of war!
Moloch the stunned governments!

A segunda parte do filme mostra uma entrevista com o fictício Ginsberg, que é interessante, mas pouco interessa ao intuito sensitivo. Já a terceira – uma parte significativa de tempo – caracteriza uma série de animações que ilustra, verso a verso, o poema, mergulhando-nos em uma grande experiência sensorial.

Pode ser que existam críticas sobre os filmes aqui citados que contenham não só explicações como soluções para as dúvidas que todo filme sensível carrega por obrigação. Mas é certo que o propósito de tais filmes é fazer com que o espectador desligue o cérebro e sinta-se como um grande anarquista, prestes a se libertar sensorialmente pela primeira vez. Pois bem, tentar dizer é inútil; somente uma experiência própria – de amor, saudade ou liberdade – pode mudar de ideia uma mente cética.