Cidade Cinza

Um labirinto místico
Onde os grafites gritam...Um labirinto místico Onde os grafites gritam...
Um labirinto místico Onde os grafites gritam...

Um labirinto místico
Onde os grafites gritam…

O paulistano é um cliente. Sempre antecipa o tempo para ir de um lugar a outro, ocupadíssimo, mal-humorado que só ele. É consumido por ignorância no momento em que defende as rodovias e os direitos dos carros, que cada vez mais entopem de tédio a megalópole latina. O paulistano é rico, e odeia quem não é. O paulistano vota em quem privatiza, o paulistano quer chegar em casa seguro “daquela gente”.

OsGemeos, Nunca e Nina são a antítese deste pensamento conservador. Na cidade mais veloz e tecnocrata do Brasil, seus grafites colorem lentamente as paredes mais monótonas – ainda que desprezados por uma parcela de passagem. A arte de rua de diferentes credos e traços é mostrada à exaustão no filme, e torna-se uma válvula de escape para um povo que não tem praia, apenas mares e mares de cinza.

Disponível nos cinemas por uma conquista árdua em crowdfunding (financiamento coletivo), Cidade Cinza é um retrato periférico da cidade de São Paulo. O outro lado da questão. Antes de tudo, é uma chamada aos que nunca prestaram atenção nos grafites; depois, aos que nunca prestaram atenção nas pessoas que os fazem; e por último, é uma demonstração de criatividade audiovisual dos próprios realizadores. As tomadas amadoras dão charme ao caráter libertário que emana dos singelos 85 minutos de filme, cheios de poesia e honestidade nos depoimentos.

O documentário tem trejeitos cômicos devido a sua cronologia muito bem planejada. Primeiro, mostra-se o que o grafite é, e quem são aqueles que se dispuseram a colaborar com o filme – OsGemeos, Nunca e Nina. Simultaneamente, também mostra a rotina de quem quer censurar a arte de rua às meias-justificativas, declarando ser, de toda forma, pejorativo a quem passa.

Ao final, o prefeito Gilberto Kassab aparece e inaugura o grande mural da Avenida 23 de Maio – o principal do filme. A essa hora já tínhamos presenciado muita injustiça no contexto urbano do grafite, o que tornou a politicagem de Kassab engraçada, e, no mínimo, revoltante. Como em todos os documentários, os fatos foram colocados de forma a demonstrar uma opinião; neste caso em particular, de como a classe burguesa não dá a mínima para a arte de rua, que continua sobrevivendo por meio de uma parcela resistente.

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O debate conflituoso envolvendo a essência da arte também se desenvolve em Cidade Cinza. Todo o pensamento da contracultura é jogado na cara dos espectadores, questionando, sem dizer com palavras, “por que aquilo é arte e isto aqui não?”. Por falta de investimento educacional, a arte ficou à mercê de elites dominadoras que abdicam modos de pensar que não o seu próprio, definindo a arte a qualquer custo no limiar das barreiras sociais. E a dominação se mostra de forma tão eficaz no filme que até mesmo os funcionários públicos pagos para “repintar” as paredes grafitadas acreditam ter uma consciência artística limpa e justa. “Só apagamos o que é feio”, dizem, durante o documentário. A exclusão por termos pejorativos chega até nas classes mais baixas, que de forma alienada creem, subconscientemente ou não, em um limitado modelo de arte. No fim, até mesmo a pintura e o picho se tornam valores sociais, e o valor do artista depende de sua formação e de quanto conhecimento acadêmico ele possui.

Ainda assim, há milhares de grafiteiros e pichadores dispostos a colocar suas próprias marcas na cidade. Porque, embora desde o começo a oligarquia acadêmica paulistana tenha tido o poder de dizer o que é arte ou não, sempre houve resistência por parte da população das periferias. Assim nasceu o hip-hop, o rap, o picho e a contracultura de forma geral. É como um ying-yang necessário à balança social; à medida que a arte se dissemina em poucas mãos brancas, do outro lado da cidade há cada vez mais interessados em tatuar uma parede com histórias.

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  • Fernanda

    A crítica me fez interessar pelo documentário.
    Valeu, vou conferir!