Azul é a cor mais polêmica

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Quanto um diretor pode forçar o desempenho de seus atores em nome de uma obra prima? Essa parece ser a questão principal em torno das polêmicas levantadas sobre a direção de Abdellatif Kechiche em Azul É a Cor Mais Quente. Se palavras como “tirano” e “abusivo” vêm sendo usadas com frequência para descrever Kechiche, nada menos que “fabuloso” e “sublime” se oferecem ao seu trabalho.

Quase um ano depois que o Palma de Ouro se transformou em “O Palma da Polêmica”, a discussão é reacesa pelo sucesso do filme no Brasil. A obra fez suas próprias regras em Cannes: pela primeira vez na história do festival, o troféu de melhor filme, sempre entregue ao diretor, tinha mais dois irmãos, destinados às atrizes principais. Abellatif Kechiche, Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux pareciam ter enfeitiçado o júri de Steven Spielberg. E com unanimidade.

Se a estatueta é só o começo para o sucesso de um filme, as declarações que se seguiram foram a linha de chegada para Kechiche. Em nota, a Associação de Técnicos de Cinema francesa deixou claro que as condições de trabalho no set passavam longe das ideais. Logo após isso, Léa Seydoux o chamou de “gênio torturado” e Adèle Exarchopoulos descreveu as filmagens como esgotantes. Foi declarada a guerra, e o diretor chegou a afirmar que não queria que seu filme fosse para os cinemas, já que ele estaria sujo por causa de toda a discussão ao entorno.

É difícil dizer se a sujeira está na arte ou nos métodos de criação. É a velha história, os fins justificam os meios? E as várias maneiras de fazer cinema respondem de formas diferentes. Parcerias repetidas entre diretores e atores sugerem que boas relações de trabalho geram bons fins: Ingmar Bergman e Liv Ullmann, Tim Burton e Johnny Depp, mesmo Woody Allen e suas várias musas. No entanto, diretores exigentes e perfeccionistas defendem seus meios maldosos: Stanley Kubrick, Lars Von Trier, e o próprio Kechiche colecionam nomes que juraram nunca mais pisar em seus sets.

Mas se cada diretor tem as suas técnicas questionadas à cada novo trabalho, os atores não estão sendo ingênuos ao assinarem os contratos. E em uma época na qual a polêmica é uma das fórmulas para o sucesso, a vitimização do elenco pela mídia talvez seja uma tomada de partido desproporcional. Quando os sacrifícios que terão que ser feitos já estão escritos, mesmo que em letras pequenas, não parece justo colocá-los à prova em contextos diferentes.

Apesar de estarem em película, as 750 horas filmadas por Kechiche exemplificam bem a vantagem que Von Trier vê no digital: nunca parar de filmar. E o método que tantos julgam ser invasivo é só mais um dos tantos caminhos que levam à total imersão do ator no papel. Nas tão comentadas cenas de sexo de Azul É a Cor Mais Quente, não está muito claro se o choro pertence à Adèle personagem, que extravasa suas emoções o tempo todo, ou à Adèle atriz, que encarava uma câmera que rodou sem parar durante horas, por inacreditáveis dez dias. Não foi a complexidade da cena que exigiu esse tempo, pois Kechiche repetiu mesmo as tomadas mais simples incessantemente, exatamente como nos famosos rituais que eram as filmagens de Kubrick. E o argumento é o mesmo: é depois de muito repetir que o ator consegue se abandonar para entrar no personagem.

Parece contraditório que um gesto automatizado para o intérprete possa parecer mais real ao público, mas as evidências estão aí, nos próprios filmes. Enquanto alguns atores aceitam o “tudo pela arte” e outros se revelam chocados pelas quebras das convenções hollywoodianas, o que fica claro é que todos se confiam aos diretores para fazer o filme mais convincente possível. E se é isso que buscam, a arte que imita a vida, é isso que conseguem. Stanley Kubrick com a transformação de histórias impossíveis em realidades momentâneas, Lars Von Trier na sua busca singular pelo autêntico e Abdellatif Kechiche com seu retrato perfeito de uma vida qualquer.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.