Como Não Perder Essa Mulher

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Depois de um ano na espera, enfim somos contemplados com a estreia de Joseph Gordon Levitt – um ator que trouxe alegria aos nossos olhos com interpretações maravilhosas em Mistérios da Carne, Dez Coisas que Odeio em Você e muitos outros – na direção. E em sua primeira produção, ele consegue entregar até mais do que muitos esperavam.

Em um filme único, repleto de pornografia e sexo – apesar de não ser completamente explicito: se estiver procurando isso, provavelmente Ninfomaníaca é o seu filme – Gordon-Levitt nos traz uma experiência cinematográfica diferente do usual. Com a onda de sexo que está assolando as grande telas de todo o mundo, talvez Como Não Perder Essa Mulher não seja tão diferente, mas mesmo assim, trata o assunto de uma forma peculiar.

2Rapidamente somos introduzidos ao personagem do diretor, o Jon – ou Don Jon (que também é o nome original do filme), para os íntimos – que encarna uma versão moderna do famoso Don Juan. Diferente do original, este é um viciado em pornografia, e não em sexo de verdade. Outros personagens vão sendo apresentados, como Scarlett Johansson e seu sotaque insuportável de patricinha no papel de Barbara Sugarman (sobrenome que, se traduzido ao pé da letra, sugere muita coisa), além de Julianne Moore, interpretando a amável, porém complexa, Esther, que havia acabado de perder tanto seu marido quanto seu filho em um acidente.

Pode-se dividir a trama em dois atos. O primeiro toma quase 70% dos noventa minutos do filme, enquanto o ato final – como o próprio nome sugere – leva todos os acontecimentos anteriores a um fim espetacular. Pode parecer óbvio, mas muitos filmes do gênero não conseguem nem cumprir essa premissa.

No ato inicial temos o Jon, um homem por volta dos vinte anos que trabalha como bartender e passa as noites dormindo com garotas aleatórias e, mais tarde, se masturbando. O tempo dele também é divido entre a igreja que frequenta, a sua família e a academia, mas são apenas ganchos usados para demonstrar como ele poderia ser qualquer homem que você encontraria em uma boate. Um dos principais pontos nessa película é que ela aponta um problema social escondido. Pornografia, como todos os outros materiais midiáticos, nos dá uma realidade alternativa, onde tudo é perfeito e do jeito que todos queremos imaginar, e o personagem de Gordon-Levitt leva isso muito a sério. Sua idealização de sexo vem da exposição excessiva aos materiais adultos, assim como a procura da garota perfeita, a garota que seja exatamente como uma atriz pornô na hora da relação. E é aí que a Barbara aparece.

3Temos todos os conceitos da comédia romântica clichê. Garoto se apaixona por garota. Garota não corresponde às suas expectativas. Garoto encontra outra garota que o faz feliz, e ele deve lutar internamente, pois a segunda garota não corresponde aos seus conceitos de “a garota perfeita”. Mas a magia de Como Não Perder Essa Mulher não está em seu roteiro – que é sutilmente acima de mediano – e sim na execução. As cenas algumas vezes repetidas, como na igreja, tentam passar uma sensação de rotina na vida do protagonista; os cortes rápidos de cenas de filmes pornográficos e a voz rouca de Gordon-Levitt no fundo tornam aqueles noventa minutos um deleite para qualquer fã de cinema. No entanto, quem estivesse esperando apenas uma comédia romântica padrão ficará surpreso por saber que por trás de toda a camada clichê há uma mensagem séria.

Como Não Perder Essa Mulher é um filme sobre a idade moderna. Atrás da comédia do personagem anormalmente normal do estreante na direção, há uma crítica social. E a crítica é que chegamos ao tal ponto de deixar a tevê, o cinema, os livros e todas as ferramentas mediáticas ditarem como nossa vida deve ser, como pode ser difícil se desprender disso e, como a personagem de Moore diz perto do final, se perder.

Observação: JGL foi de um mero rapaz desiludido emocionalmente, em 500 Dias Com Ela, para pegador. Ele merece ao menos um prêmio por isso.

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