Daisy Diamond e o abismo humano

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A decadência humana é um tema recorrente no cinema, e representado frequentemente de forma muito bela, como em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier ou, de forma crua e maniqueísta, como em Subconscious Cruelty, do diretor Karim Hussain.

A vantagem em se representar esse tema tão forte de maneira poética – como o faz Von Trier – é o efeito catártico provocado pelos paradoxos intrínsecos à narrativa: a angústia do assunto e a beleza da forma como tratá-lo são duas faces da mesma moeda. E o resultado é a empatia com a protagonista e a “elevação” de emoções que esse paradoxo proporciona.

Já em Subconscious Cruelty, pode-se dizer que parece não haver mais que um desejo barato de chocar, valendo-se de cenas degradantes para tal. No entanto, Daisy Diamond, de Simon Staho, está entre essas duas maneiras de representação da decadência. Não recorre à poesia, porém muito menos se rebaixa a uma crueza forçada.

O filme apresenta a história de Anna Nordberg, representada por Noomi Rapace, uma jovem sueca que vive em Copenhague apenas com sua filha recém-nascida. Ela tem sonhos e grandes expectativas, quer tornar-se atriz e ser uma boa mãe. Onde quer que vá, mesmo para fazer audições, leva a bebê, que é praticamente sua única companhia durante boa parte da narrativa.

Acompanhamos a trajetória de Anna não somente como espectadores, mas como cúmplices. Tudo é apresentado de forma crua, sentimos que o filme carrega não somente uma intenção, mas uma responsabilidade de causar impacto no espectador. Sentimos a dificuldade de cuidar de uma criança e ao mesmo tempo tentar alcançar um objetivo tão ambicioso, sentimos as dificuldades de se morar em um país estranho, sem nenhum familiar ou amigos, e vemos a forma distorcida e subversiva com que Anna concretiza seus desejos e as metamorfoses que a personagem sofre.

O filme não faz julgamentos, mas problematiza a condição de uma mulher como nós, em situações pelas quais geralmente não passamos. E ao final, a cumplicidade que tivemos com a personagem nos fará perceber que, o tempo todo, quem estava em questão não era Anna, mas nós mesmos. É esse o grande trunfo de Daisy Diamond: tira das costas da personagem e do diretor qualquer peso dessa obra visceral e aponta para nós, os cúmplices.

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Daisy Diamond
Daisy Diamond | Dinamarca

Com Noomi Rapace, Thure Lindhardt, Benedikte Hansen

De Simon Stahom 2007