Blue Jasmine

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A perspectiva cinematográfica de Woody Allen se tornou muito clara ao longo dos anos: basta reparar na tradicional fonte de cor branca, no fundo preto, dos créditos iniciais, finalizados sempre com um “written and directed by…Woody Allen”.

Começa o filme e há aquela mesma velha e nova cidade que mora dentro da câmera de Allen, desenrolando uma hora e meia de um roteiro pessimista e autobiográfico por excelência, com traumas e neuroses verdadeiras, mas que são disfarçados pelo contexto cômico em que estão inseridas.

Cada personagem é trabalhado, cada relação dialogada é encaixada nos respectivos rostos e nos gestos do elenco como as melhores roupas do melhor armário. Misture tudo isso e terá uma fórmula geral na qual o cineasta inevitavelmente acaba caindo, feliz ou infelizmente.

Mas isso não o torna limitado. O neurótico já escreveu sob muitas formas, personas e eu-líricos, incluindo femininos. Em Hannah e Suas Irmãs (1986), o alter ego – assumido pelo próprio Woody Allen nos bastidores – é Elliot, um homem casado que se apaixona pela própria cunhada. Em suma, o filme fala de suas indecisões amorosas com humor e com o máximo de honestidade e verossimilhança possível – outro traço marcante da obra de Allen –, embora as personagens principais sejam todas mulheres, como dita o título.

Já em Vicky Cristina Barcelona, o alter ego do velhinho é literalmente feminino. Interpretado por Rebecca Hall, Vicky é uma recém-noiva que encontra o galanteador Juan Antonio (Javier Barden), se perdendo em questões frágeis dos relacionamentos: a amizade, a monogamia e a traição.

Porém, o novo filme de Wood Allen, Blue Jasmine, não retrata nada disso. Dessa vez, trata-se de algo mais social – aos moldes dele, é claro, o que significa não deixar de lado questões existencialistas, tais como as relações em família e as humanas em geral. A narrativa não linear retorna, tornando o enredo um petisco a ser saboreado aos poucos, assim como no antigo e nostálgico Annie Hall.

Cate Blanchett é Jasmine, ex-milionária que procura um novo começo após seu marido Hal, vivido por Alec Baldwin, ser preso por causa de transações ilegais. Ela então procura a ajuda da irmã Ginger (Sally Hawkins), que fora também sugada economicamente pelo picareta, mas que concede moradia, sem rancores.

O personagem de Sally Hawkins é relativamente parecido com Hannah, assemelhando-se na maneira ingênua do olhar e na maneira como acaba emprestando dinheiro à irmã sem esperar pelo retorno. Um papel que certamente gera revolta no público mais desconfiado por causa de sua “bundamolice”.

Embora nascida em lar humilde, como a irmã, a personagem principal é dotada de valores elitistas e burgueses, cedendo sempre ao consumo fútil e ao conforto. Além disso, Cate Blanchett passa uma face teimosa e mimada ao papel, faz soar aquela que não desiste da imbecilidade ao ponto de enlouquecer.

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O poder de criação ficcional de Woody Allen, mesclado à ótima atuação do elenco – principalmente de Blanchett – faz com que a relação entre as irmãs e entre ela e Baldwin se torne concreta e palpável, assim como infundada e incompreendida, como Allen acredita ser em boa parte das famílias, dos casamentos e de seus respectivos valores.

Como espectadores, torcemos para aqueles que são mais humildes, no caso Ginger. Empacotadora em um supermercado, desejamos que ela alcance pelo menos a felicidade imaterial, visto que será impossível conquistar a material. Mas Woody Allen destroça toda a nossa crença em Ginger, que revela ter os mesmos valores fúteis de Jasmine.

Ao surgir uma oportunidade de casar-se com Al (interpretado pelo comediante Louis C.K.), um homem aparentemente em melhores condições financeiras, Ginger acaba abandonando um antigo namorado, iludida com o novo relacionamento. É inevitável a associação com a A Rosa Púrpura do Cairo, no qual a ingenuidade é maltratada pela crua realidade.

Na cena final, quando Jasmine fala sozinha, assentada num banco de rua, a habilidade do diretor e da atriz sobressai qualquer conhecimento técnico. Indiscutivelmente a melhor cena; provavelmente foi gravada uma vez só, tamanha a evidente sensibilidade que a envolve.

É, de fato, uma visão pessimista. Há quem não goste de Woody Allen por diversos motivos, mas estes não serão falta de criatividade ou de versatilidade, qualidades que ele possui em seu cardápio. Algo grande se anuncia se o diretor for investir por esse caminho, pois claramente os fatores sociais influenciam as histórias, assim como a cultura, a escola e a política. Que Blue Jasmine seja o começo da empreitada de grandes filmes com esta mesma temática.

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