O tempo em dias de sorte

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Dawson e Joey assistem E.T. pela milésima vez

Em um dos últimos episódios de Dawson’s Creek, a série norte-americana para adolescentes na qual nenhum adolescente fala como tal, a personagem Joey Potter diz uma pérola que, ao ser traduzida, viraria uma das minhas preferidas da tevê: “O tempo faz das suas conosco”. Escolha peculiar de palavras. Eu li essa legenda repetidas vezes ao longo dos anos, sem nunca entender aquele português. Das suas o quê, Tempo?

Talvez o tempo seja ele próprio uma linguagem. Ele passa e não nos lembramos de como as coisas aconteceram, mas de como elas nos pareceram.

Falar de cinema é escrever com o tempo. Ainda que sejam poucas, as horas entre assistir um filme e rabiscar um comentário podem enraizar na mente takes que nunca foram filmados ou falas que nunca foram ditas. Os filmes são feitos para todos e, no entanto, eles são de cada um.

Era tempo o que me faltava para que uma ideia estalasse no fundo da cuca. Tempo para ir ao cinema em dias de semana, tempo para pensar em cinema fora do cinema, tempo para respirar um pouco o ar do cinema. Mas, assim que estalou, foi da cabeça pro papel e do papel pro computador em questão de dias.

Se o tempo foi bem aproveitado, pesquisando um nome, esquematizando o que no princípio eram ideias soltas e montando uma equipe competente para juntos participarmos desta empreitada, foi também desperdiçado em horas de leitura de comentários desnecessários sobre um montão de filmes e horas de luta contra o web design. Ou talvez não, era mais uma das… dele.

O dia em que a inspiração vem gratuitamente, esse é um dia de sorte. Porém ninguém faz um filme todo em um único dia de sorte. E ninguém tem muitos dias de sorte seguidos. O take148 também espera ter seus dias de sorte; e os outros serão de insistência, que é o preço normal da inspiração. Parece um bom lema e, se tudo vai acontecer assim, o tempo dirá.

É verdade, Joey, o tempo faz das suas conosco, mas a gente também pode fazer das nossas com ele.

Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Também tem coisa minha lá no Séries do Momento. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.