Entre duas cabeças

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Existem dois tipos de filme:  o que se passa na cabeça do público e o na cabeça do personagem. O primeiro podemos definir como aqueles que se distanciam dos personagens e apresentam uma visão exterior à trama. A maioria dos filmes de ação e aventura é assim, além de muitos dos de suspense ou de terror. Neles são mostradas situações que sabemos ser fictícias, mas nas poucas horas diante da tela permitimo-nos ser iludidos. Se assim não fosse, não sentiríamos efeito algum ao assistir tais filmes.

No segundo tipo – o que se passa na cabeça do personagem – estão aqueles nos quais vemos o mundo pelo olhar de outra pessoa, e sentimo-nos como ela se sente. Andrei Tarkovski, cineasta russo do século passado, foi mestre nesse tipo de filme. Em seu livro Esculpir o tempo, ele discorre belamente sobre conceitos puramente artísticos, e não somente de entretenimento. Na sua visão, a arte – e o cinema – deve ser a expressão da individualidade de cada um. A visão única de cada indivíduo, já que não existem personalidades idênticas. E assim funcionam suas obras.

Os diálogos, a montagem, a música, tudo se constrói a partir do olhar de determinado personagem que Tarkovski compôs. A estética se adequa ao personagem. Dessa forma, seus filmes não seguem os padrões tradicionais de roteiro e dramaturgia. Convenções como começo, meio e fim, o objetivo que move o personagem, os conflitos dramáticos aqui e ali, esses pontos não estão sempre presentes.

 Segundo Tarkovski, seguir essas normas é afastar-se da realidade da vida e, consequentemente, afastar-se da arte, já que pessoa alguma pensa da forma que os roteiros são construídos. Em suas obras, o cineasta russo consegue representar a consciência do personagem como ela realmente é: caótica, sem uma lógica muito palpável, ou sem seguir a cronologia dos fatos. É nesse ponto que a arte se diferencia do cinema de entretenimento.

Enquanto o filme que se passa na cabeça do personagem é a expressão de sua consciência e causa efeito de profunda reflexão, emoções elevadas mas nem sempre impactantes, os filmes que seguem um padrão tradicional procuram fabricar de forma intensa, mas pouco sincera e fiel à vida, efeitos como adrenalina, compaixão e medo.  Esses efeitos são também pouco fieis aos próprios personagens, que parecem não ter vontade própria, ajustando-se aos fatos, ao invés de os fatos adequarem-se a eles.

A Parede, filme de 2012 do diretor Julian Pölsler, é um grande herdeiro da escola de Tarkovski. É interessante que se saiba pouco sobre o enredo da obra, até não ler a sinopse pode ser uma boa surpresa. Basta saber que a história é contada por uma mulher que, por um motivo de força maior, vive isolada numa floresta, interagindo somente com a natureza e com os animais. Pode parecer que a falta de ação o torne entediante, mas ao contrário: por ser uma narrativa que representa a consciência da personagem, acompanhamos seus sentimentos e sua memória.

Tal como as obras de Tarkovski, a narrativa não é linear porque a consciência não é linear. Mas a forma íntima, melancólica e tocante como a história é conduzida dispensa uma lógica linear. O que prevalece é a lógica da poesia. A visão de mundo de alguém extremamente solitário que não tem ideia de como será seu futuro e, aos poucos, vai encontrando saídas e satisfação em seu modo de viver, mesmo com a tristeza inerente à atmosfera da narrativa.

É bom ter em mente que, assim como aceitamos nos enganar nos bons filmes de entretenimento, para termos a satisfação que esperamos em A Parede temos que confiar no diretor e, durante aquelas duas horas, aceitar enxergar o mundo como sua personagem. Experimentaremos desse modo uma reflexão verdadeira sobre nossa condição humana, provocada pela sinceridade com a qual o filme foi feito. E, acima de tudo, passaremos por uma experiência cinematográfica que está se tornando cada vez mais rara no cinema contemporâneo.

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A Parede
Die Wand | Áustria, Alemanha

Com Martina Gedeck, Karlheinz Hackl, Ulrike Beimpold

De Julian Pölsler, 2012

  • Anônimo

    onde baixo?