Gravidade

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Se filmes passados no espaço são, em geral, de nicho, Gravidade pode se orgulhar de não ser. Não são só os amantes do SciFi que sairão do cinema maravilhados. Alfonso Cuarón ultrapassa todas as barreiras da ficção científica para contar uma história sobre a Terra, e terra, em um hora e trinta minutos de puro espaço.

Logo de cara, nos simpatizamos com o personagem de George Clooney, Matt Kowalsky. Para o papel do capitão conquistador, sempre otimista e com muitas histórias para contar, a escolha é óbvia. No entanto, se justifica bem. Clooney reaparece pontualmente ao longo da trama com a dose justa de esperança, necessária para lidarmos com a frieza e depressão da Dra. Ryan Stone. E é a maturidade de Sandra Bullock que torna Gravidade um dos monólogos mais agradáveis do cinema nos últimos tempos, que se segura apesar de algumas falas clichês que soam como lições de vida. A atuação de Bullock prova novamente seu talento e versatilidade, e nos remete às boas surpresas de Crash e Um Sonho Possível.

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Pelo vidro embaçado do capacete de Ryan, nos curvamos à imensidão do espaço e à pequenez de todo o resto, dos grãos de poeira que nos cercam, dos dejetos da nave que nos atingem e mesmo da Terra e sua proximidade desconfortável. Em uma transição sutil e silenciosa de planos, a câmera entra em seu corpo, e o público passa de espectador à marionete da personagem. Nossa respiração encontra o mesmo ritmo da dela, a sala de cinema parece se fechar ao entorno e os olhos resistem à vontade de piscar.

A câmera de Cuarón dança um ballet perfeitamente coreografado e, no entanto, livre de amarras. Seus longos planos sequência recriam a lentidão da vida no espaço, enquanto a falta de eixo das tomadas avisa que o referencial agora é a Dra. Ryan Stone, e lembra que ela não está parada. Os efeitos visuais e a fotografia refletem a habilidade de Alfonso Cuarón de lidar com o desconhecido, seja o espaço em Gravidade, o futuro apocalíptico em Filhos da Esperança ou o mundo da bruxaria em Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban.

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A construção do ambiente se completa com o som, que se torna também personagem. Logo ele, que não se propaga no espaço. Os efeitos e a trilha sonora de Steven Price evocam medo, tensão e desespero, para depois oferecerem abrigo, trazerem a calma e o alívio, até se fundirem no silêncio total, que é tão sufocante quanto os crescentes dissonantes. Às vezes Price anuncia o vazio com gentileza, outras com grosseria, e manuseia o silêncio como uma de suas próprias composições.

Seja na companhia ou na pele da Dra. Ryan Stone, buscamos gravidade. A trama desenvolve com ritmo a ânsia pela força que prenderá seus pés ao chão outra vez. O pensamento que a mandará de volta para casa. E sua primeira volta para casa acontece ainda no espaço. É a volta para a estação espacial e seu emaranhado de fios, a nave mãe e seus cordões umbilicais, que abraçam Ryan no primeiro momento em que respiramos aliviados.

E a volta para o planeta Terra é ainda mais metafórica: Ryan precisa quebrar seu ovo espacial, se livrar de suas pesadas membranas e buscar oxigênio fora do oceano amniótico. Pela primeira vez o ar que ela inspira não é uma porcentagem no computador de bordo. E ela rasteja em um habitat que ainda não é o dela, luta contra a seleção natural para sair da água e virar um ser terrestre. Ao tentar ficar de pé, fraqueja: encontrou gravidade. Ryan a reconhece e sorri, está em casa. Em um último ato, ela se porta como humano, seu corpo já não vence a força gravitacional, como tem que ser. A mensagem nos créditos iniciais é reiterada: qualquer vida no espaço é impossível, e a Dra. Ryan Stone, assim como todos nós, é um ser de chão.

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Quem escreveu

Ana Carolina Nicolau
Uma caneca de café e um computador fazem meu mundo rodar. Criei o Take148 porque as consequências criativas da cafeína precisam ser compartilhadas. Eternamente dividida entre a televisão e o cinema. Tenho um diploma em Matemática, mas até agora ele só serviu pra me fazer parecer foda. Não que seja mentira.